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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Julho 01, 2020

Cecília

- Falávamos mais das clientes, do que dos cabelos. Do feitio, da maneira de ser delas. Nós somos cabeleireiros, somos médicos e somos padres. É uma terapia. Antes era, pelo menos. Mas... é muito esquisito. As mulheres sabem perfeitamente quem nós somos, às vezes até nos contam a vida toda, mas na rua são capazes de não nos falarem. Fingem que não nos veem. Chegámos a encontrar clientes nossas no Pap'Açorda que, ali, faziam de conta que não nos conheciam. Gente supostamente educada, com apelidos sonantes. E nós, é claro, gozávamos imenso com isso. É óbvio que quando ele se tornou um artista conhecido, já faziam gala em conhecê-lo. Se só fosse cabeleireiro, não. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

Abril 10, 2020

Cecília

Enfim, a Crise instalara-se como facto consumado e falava-se dela como de um ente familiar incómodo, incontornável, omnipresente. A ilustrá-la, há uma recorrente falta de géneros. Ou é o arroz, ou é a batata, ou é o leite, ou é o feijão que desaparecem das prateleiras das mercearias e supermercados. Contra todos os pedidos e tentativas de limitar o açambarcamento pessoal, as pessoas compram o que precisam e não precisam, sujeitando-se a filas intermináveis nas caixas de pagamento, usando todos dos membros disponíveis da família em incursões de rapina que esvaziam as prateleiras de artigos de primeira necessidade, que depois, nas casas e despensas de cada um, irão paulatinamente apodrecer, deteriorarem-se ou encherem-se de gorgulho.

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

Abril 02, 2020

Cecília

Mas em 1983 e em 1984, as autoridades responsáveis pela saúde dos portugueses não estavam informadas, logo, não sabiam como encarar o problema. Portanto, desmentem-no. A sida não existe. A exstir, é noutros países. Não há pragas nem epidemias. O director do Instituto Nacional do Sangue multiplica-se em entrevistas e vai à televisão desmentir a gravidade da situação e pedir às pessoas para não se preocuparem porque Portugal era um país de bons costumes. Só uma mulher, investigadora, estava atenta, e, pior do que isso, preocupadíssima. Odete Santos tinha ouvido falar da doença em 1983, num congresso em Lausanne, na Suíça, para onde foi a convite da maior especialista mundial em infeções hospitalares, que lhe diz: «Se for o que a gente pensa, vai ser uma desgraça!» Odete Santos, que trabalhava com o Instituto Pasteur, em Paris, pediu para ser apresentada ao professor Montagnier, o virologista francês que isolara o vírus... e contra tudo e contra todos iniciou uma batalha pelo conhecimento da doença, em Portugal... Numa enorme solidão, como ela própria admite, a cientista foi discriminada. As pessoas chegavam a mudar de passeio para não lhe falarem... Mas em 1985, com uma equipa diminuta na Faculdade de Farmácia, Odete Santos entra para a História da Medicina ao isolar o VIH-2... (...) A partir daí, a sida, em Portugal, não apenas existe como tem direito a bilhete de identidade. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

Fevereiro 10, 2020

Cecília

Nunca a canção fora tão bela e tão temida, como quando foi servida pelos Príncipes da Palavra. Muitos viviam exilados, ou, se estavam em Portugal, eram presos com frequência. Constituíam uma autêntica plêiade de poetas e baladeiros para quem a canção era uma arma. José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Ary dos Santos, Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre, Natália Correia e outros. Mas até o rock, por fim emergente, acabaria por entrar também pelos caminhos da contestação. Em 1970, o Quarteto 1111 foi, simultaneamente, acusado ou elogiado por ter instalado « a subversão a nível político-social», provocando um autêntico «terramoto» que terminou com a ordem de retirada do álbum de estreia do grupo liderado por José Cid que abordava a guerra colonial, o racismo, a emigração. Foi o primeiro disco de rock censurado. A partir daqui o grupo nunca mais deixou de estar sob mira da censura. Em cada um dos seus espétaculos, havia um friso de homens de gabardina na primeira fila. Não riam, não aplaudiam, não cantavam. Observavam os quatro Uns, que eram «subversivos e perigosos para o regime». Igual destino sofre o álbum de Petrus Castrus, Mestre, cheio de referências à censura, com uma abordagem aos mitos nacionais pela ironia. Nomeadamente em Pátria Amada, que inclui o poema «maldito» de Ary dos Santos, SARL, e que é confiscado pelo Secretariado Nacional da Informação (SNI)[...] O próprio fado, que geralmente não levantava grandes questões, estava também debaixo de olho. A começar pelas serenatas da academia coimbrã, sempre tão suspeitas. Os estudantes nunca eram de confiar... tinham ideias próprias, coisa bizarra e perigosa [...] Até Amália Rodrigues [...] teve um disco censurado. A história conta-se em poucas palavras. Em dezembro de 1968, Vinicius de Moraes, que ia passar o Natal em Roma, fez escala em Lisboa e encontrou-se com Amália em casa desta. Desse longo serão que contou com a presença de poetas, escritores, músicos, resultou um disco cujas faixas são hoje consideradas verdadeiras relíquias da música e poesia em língua portuguesa. Entre os muitos e felizes convivas, encontravam-se Ary dos Santos, Natália Correia, David Mourão Ferreira, e naturalmente a própria Amália e Vinicius. Cantaram-se fados e bossas novas, declamou-se, improvisou-se, durante um longo e maravilhoso serão. O sumariado disco Amália/Vinicius, uma hora, que emergiu deste encontro foi lançado em 1970. Sol da pouca dura. Rapidamente, a Direção dos Serviços de Censura da Emissora Nacional proibiu o precioso manifesto da lusofonia, fazendo-o retirar do mercado. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

Janeiro 31, 2020

Cecília

António chegou a Amesterdão em 1974, numa altura em que a cidade estava na vanguarda de um sem número de movimentos, desde a ecologia à luta anti-apartheid, passando pela liberalização das drogas ditas leves, que eram ali encarados com o mesmo pragmatismo com que, em muitos outros países, se aceitam e até estimulam outros vícios como o jogo. Havia para todos os gostos. Grupos anarquistas, ecologistas, pacifistas, os krakers, com as suas redes de okupas, que pressionavam o governo, por vezes de formas radicais, para a resolução do problema da habitação. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

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Novembro 04, 2019

Cecília

Mas neste início da década de 70, enquanto o mundo dá voltas e que voltas!, os jornais, em Portugal, ocupam-se em noticiar, em grandes parangonas de primeira página, acidentes de automóvel ou calamidades atmosféricas, misturando-as com fotografias de atrizes ou princesas em evidência por qualquer razão menor (...) Um interminável bocejo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

Outubro 20, 2019

Cecília

O pai, exímio tocador de cavaquinho e harmónica, era o chefe de uma banda familiar onde todos cantavam e dançavam, congregando, mesmo em alturas mais difíceis, um clima de festa que filho algum conseguiu esquecer. 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

Outubro 17, 2019

Cecília

É que muito antes das portas se terem aberto para deixar entrar o grande público, já António Variações passara estes umbrais e descobrira o seu único, pessoal e intransmissível caminho.

Daí a sua singularidade. Daí a sua universalidade. 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

 

 

Outubro 14, 2019

Cecília

Eu era teimosa, ele era teimoso. Não me lembro do motivo, sei que nos pegámos os dois. Eu era muito mais pequena, devia-me ter calado. Mas começámos à tareia e o meu pai não gostou. Deu uma tareia nele. Eu fugi  e meti-me debaixo da cama. O meu pai procurou-me até ao fim, não tas vou perdoar. E depois, a tareia que tinha dado ao António deu-me a mim também - relato de Maria Amélia. 

Mas não há memórias que o descrevam a subir às árvores para ir aos ninhos, ou outras tropelias de miúdos. Já João, o mais velho, meteu um belo dia a irmã dentro de uma arca e esqueceu-se dela. Maria de Lurdes ia morrendo asfixiada, enquanto ele, aflito, a procurava sem se recordar onde a fechara dessa vez. Outra vez, guardou a irmã Amélia, uma criança minúscula, e ainda hoje uma mulher muito pequenina, dentro de uma mala de viagens. Depois pôs-se a correr pelo quintal, abanando a mala de um lado para o outro, até que ela se abriu e deixou cair a miúda completamente atordoada no meio do canteiro das alfaces. António, contudo, não deixou na memória dos irmãos episódios semelhantes:

- Desde muito miúdo já dizia que queria ser músico. Cantava as cantigas que ouvia na rádio e outras que inventava ele próprio (...) E a minha mãe assim: Toninho, vai cortar um bocadinho de erva para os coelhos, e ele: haviam de morrer todos! Sentava-se no quintal e começava a cantar. E a minha mãe: A erva para os coelhos, António? E ele, ó está bem, está bem! - Maria Amélia Ribeiro Costa recordá-lo-á, para sempre, ensimesmado e misterioso, muito solitário e sempre à procura de espaço para abrir a voz. - Ele já tinha dom. Nasceu com ele. Ele era diferente. Foi sempre diferente de nós todos. Vinha de férias e não gostava que ninguém o perturbasse. Há um penedo em cima, do outro lado da rua, ele sentava-se ali, muitas vezes, a escrever. Dizia: Vou para ali para cima. Não quero que ninguém chame por mim. Se alguém vier, eu não estou para ninguém. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

Outubro 08, 2019

Cecília

Eu tenho um anjo

Anjo da Guarda

Que me protege de noite e de dia

Eu não o vejo

Eu não o ouço

Mas sinto sempre a sua companhia 1

 

1 António Variações, «Anjo da Guarda», Anjo da Guarda, EMI - Valentim de Carvalho, 1983 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

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