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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

alphas

03.08.21

A rainha morreu entre os seus braços e jamais um marido carpiu tanto.Ao ouvi-lo soluçar noite e dia, formou-se o sentimento de que o seu luto não duraria muito; que ele chorava os seus defuntos amores como um homem apressado, que quer despachar o assunto.

Não se enganaram. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

Koi No Yokan *

17.06.21

* Koi No Yokan se refere à sensação após conhecer uma pessoa de que ambos viverão uma história de amor depois de um tempo. É um sentimento diferente do que chamamos de “amor à primeira vista”, uma vez que o amor de fato ainda não existe, somente a premonição de que é algo inevitável.

Koi no yokan é uma expressão que se define por aquela sensação de encontrar alguém e sentir que acontecerá uma grande história de amor com o passar do tempo.

 

Pobre é a pessoa que não sabe quando já teve o suficiente.

Provérbio Japonês 

 

 

mute

20.05.21

Silêncio do incontível, como

recusar a veemência

desta cegueira? [...]

Artérias vivas,

estrelas, relâmpagos,

jorrarão da obscuridade vermelha?

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO MUTISMO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

dar valor

15.03.21

O que resta       recomeçar

com uma pedra 

 

O que eu movo 

 

      até

 

   onde não sei 

 

suspendo

e algo avança

                                         à minha frente 

 

 

A mão baixa 

 

                                       aranha de ar 

 

rápida   intranquila 

 

as armas que respiram 

 

o desejo      e a surpresa 

 

[...]

 

O brilho da palavra    igual ao brilho do silêncio 

 

[...]

 

 

O sol sobre os teus braços 

 

 

António Ramos Rosa in  DECLIVES  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

sinédoques

05.11.20

Em julho e agosto de 1940, quando vinha a Lisboa, Aristides reunia-se com amigos e familiares. Precisava de falar dos acontecimentos. Algumas vezes, encontrou-se com o rabino Kruger, que esperava em Lisboa por um barco que o levasse, e à família, para o novo mundo. O tema principal das conversas era, invariavelmente, a guerra. Kruger, naturalmente, mostrava a sua dor pelo sofrimento causado por Hitler ao povo de Israel, mas ao saber que Aristides enfrentava a raiva de Salazar, terá lamentado: «Tudo o que está a sofrer agora por nossa causa!», e Aristides, que procurava sempre dar-lhe algum consolo por tanto infortúnio, respondeu-lhe: «Se milhares de judeus estão a sofrer por causa de um católico [Hitler], então é compreensível que um católico [Aristides] possa sofrer por causa de tantos judeus. Eu não podia ter agido de outro modo, por isso aceito, com amor, tudo o que me aconteceu e poderá vir a acontecer por causa do meu gesto.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

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aprender com o trigo (não se desculpar com o joio)

05.06.20

O rapaz de calças de ganga era, afinal, uma pessoa séria. Tinha estudado muito, no seminário. O pai era um lavrador com posses, como o senhor Rodrigues, e ele só se tinha formado por devoção. Podia ter ido para médico, engenheiro ou professor. Com os conhecimentos do pai, podia estar muito bem na vida. Podia ter investido num negócio ou arranjado um tacho na câmara municipal. Se fosse uma pessoa menos decente, era o que teria feito. Tantos que queriam e não podiam! 

Sem se esquecer de referir o pormenor da indumentária devida a uma pessoa que ocupava a posição dele, o meu pai dizia o mesmo (...)

As calças de ganga eram o defeito do qual ninguém, a não ser Deus, se conseguia eximir. Estávamos servidos para a vida. Que pedíssemos a Deus que o estimasse, todos os dias, nas nossas orações. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

ecos

02.08.19

Ao contrário de todo mundo, que fica se ressentindo 'porque ela me deixou, não sabe o que perdeu', eu não tenho medo de dizer: eu é que fui covarde e babaca.

 

Cazuza

 

 

Y ahora intenta decir que me amas
Sin miedo a que parezca mentira otra vez
Y no lo ves
Digo yo que algo tendremos que hacer
Borra de golpe
Su nombre en mi nombre
Y así lo olvidaré
Y mira bien
Mientras yo te reproche de más
Y tu te escondas con la duda otra vez
No quiero mas pulsos
Hay tanto que perder
Hazme sentir que lo bueno está por llegar
Que esto también pasará
Hazme sentir que compartimos un mismo latir

 

pedro(a)s

22.07.19

Conheci a maturidade infantil

das crianças, mas também não é isso 

(...)

fartei-me de tentativas.

 

Desejo antes a ferida sólida

que não sara, o enigma, essa coisa

que se transporta inteira pelo Universo

como o irreprimível grito

do sangue no vento avisando

o futuro de que não ficámos ilesos

à espessa rede do Amor 

(...)

Aperta-me esse mitigado anel tão alto

(...)

porque a angústia, doce angor, e a esperança

informam o meu sangue

do regresso da tua ausência.

 

Barbeio a infâmia do nosso desencontro,

o homem pode punir-se numa higiene

precária, pode pintar-se e eu

cumpro imenso os rituais

do disfarce.

 

Fumo a tirania do meu medo, para mim

é sede de ser tarde

a vinda do teu húmido oásis

sotto voce e eu,

eu reduzido a nada.

 

A morte avança, ama-me sob a luz

da tua voz

cobrindo a terra elementar onde prometidos

potros de crinas soltas e alma leve

se opõem ao vazio. 

 

Paulo da Costa Domingos in Cabeças

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)