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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

15
Mar22

bufarinheiros

Cecília

Vagueio de casa em casa como os frades da Idade Média que enganavam as raparigas e as mulheres casadas com contas e baladas. Sou um viajante, um bufarinheiro, pagando com uma caução a hospitalidade que me oferecem; sou um convidado fácil de agradar; alguém que ora dorme no melhor quarto da casa, na cama de dossel, ora passa a noite no estábulo, deitado num molho de feno. Não me importo com as pulgas, o mesmo se passando com o toque da seda. Tenho uma percepção demasiado clara da perenidade da vida e das tentações que a caracterizam para impor proibições. Apesar de tudo, não sou tão tolerante como vos pareço

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

17
Fev22

estado da n[eg]ação

Cecília

Um bom exemplo de que esta crença na superioridade natural de uns grupos relativamente a outros está viva e é partilhada por um número significativo de europeus encontra expressão no facto de cerca de 30% desta população acreditar que «algumas raças ou grupos étnicos nascem menos inteligentes do que outros» e também que «nascem mais trabalhadores do que outros», segundo dados do Inquérito Social Europeu (European Social Survey 7, 2014-2015) [...] Portugal, a Estónia e a República Checa são os países onde um maior número de pessoas expressou adesão à crença de que há, por natureza, grupos inferiores e grupos superiores quanto às características que definem os humanos. Ou seja, Portugal encontra-se entre os países que manifestaram um índice de racismo mais elevado. Por sua vez, a Suécia, a Holanda e a Noruega são os países onde menos pessoas manifestam de forma aberta adesão a essas mesmas crenças [...] Todavia, estes dados mostram também que o racismo está longe de ser hoje uma ideologia consensual na Europa, como o foi antes da II Guerra Mundial. Hoje, estas crenças não são partilhadas pela maioria dos Europeus e são objeto de debate público e político.

No que respeita a Portugal, os resultados apresentados podem parecer surpreendentes e são difíceis de aceitar pelas elites políticas, por comentadores ou redes intelectuais, mas são dados que já haviam sido anunciados num inquérito publicado em 1999 e num outro de 2011. Neste último estudo, comparou-se Portugal com outros oito países europeus. De novo com base em amostras representativas, perguntávamos, entre outros indicadores, qual o grau de concordância com a seguinte frase: «Algumas raças são mais dotadas do que outras.» Os resultados obtidos evidenciam que na Alemanha, em França, no Reino Unido, na Holanda e em Itália menos de 50% dos inquiridos expressaram concordância com aquele indicador de racismo. Em Portugal, na Polónia e na Hungria essas percentagens crescem para valores iguais ou superiores a 50% [...] Muito importante, os inquiridos [...] também mostram disponibilidade para discriminar ou aceitar a discriminação racial em diversos planos da vida social e política, como a oposição à entrada de imigrantes percebidos como tendo outra raça, na oposição a leis antirracistas ou a opção por critérios etnicistas na seleção de imigrantes.

Mais recentemente, já em 2019/2020, o European Social Survey - Portugal voltou a diagnosticar a crença dos Portugueses na «superioridade natural de umas raças ou grupos étnicos relativamente a outros». Usando as  mesmas proposições do European Social Survey 7, recorreu-se agora não a uma escala de resposta dicotómica (sim/não), que poderia ter produzido enviesamentos nas respostas anteriores, mas a uma escala que ia de «totalmente de acordo» a «totalmente em desacordo», permitindo uma gradação dos graus de acordo e desacordo. Os resultados obtidos, agora apenas em Portugal, confirmam os estudos precedentes: mais de 40% dos inquiridos partilha a crença na superioridade natural de «umas raças relativamente a outras», ou seja, expressam racismo biológico.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

11
Fev22

desiludida falta de caráter

Cecília

Observei com uma clareza desiludida a falta de identidade da rua; as suas varandas e cortinas; as roupas castanhas, a cupidez e a complacência das mulheres que trabalhavam nas lojas; os velhos passeando com as suas roupas de lã; a forma cautelosa como as pessoas atravessavam a rua; a determinação universal de se continuar a viver quando a verdade é que, seus idiotas, uma qualquer telha vos podia cair em cima e este ou aquele carro galgar o passeio 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

24
Jan22

céus pálidos

Cecília

«Volto a ver a rua do costume. O brilho da civilização como que se gastou. O céu apresenta-se escuro e polido como um osso de baleia. Contudo, há nele uma espécie de luz que tanto pode provir de um candeeiro como do alvorecer. Sinto uma espécie de agitação - algures, numa árvore baixa, os pardais chilreiam. Paira no ar a sensação de que o dia vai nascer. Não lhe chamaria alvorada. Qual o significado de uma alvorada na cidade para um homem velho, parado no meio da rua e a olhar meio tonto para o céu? A alvorada é uma espécie de empalidecer do céu; uma espécie de renovação. Um outro dia, uma outra sexta-feira, um outro vinte de Março, Janeiro ou Setembro. Um outro despertar geral. As estrelas recolhem-se e extinguem-se [...]»

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

16
Jun21

deixem passar

Cecília

Várias pessoas com quem contactei (algumas já falecidas), falaram-me desses momentos, inesquecíveis para quem os viveu. Como Henri Zvi Deutsch, jovem adolescente na altura, que me contou que os pais, fugidos da Alemanha, nem papéis tinham - com eles apenas traziam fé e esperança. Zvi Deutsch mencionou-me o tipo de vistos que vários autores consideram como únicos na história da diplomacia mundial e que o cônsul de Bordéus terá produzido às centenas. Tratava-se de um simples pedaço de papel onde Aristides (ou talvez um dos seus filhos) escrevia o seguinte texto: «O governo português pede às autoridades francesas e espanholas que deixem passar o portador, ou portadores, deste visto de trânsito temporário. Trata-se de um refugiado, ou refugiados, do conflito armado a decorrer na Europa, a caminho de Portugal.» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

11
Mai21

memória coletiva

Cecília

«No dia 10 de maio de 1940, fomos acordados em sobressalto por um barulho estranho; lá fora estava um belo dia cheio de luz e vimos aviões sobrevoando Bruxelas, largando bombas que pareciam grandes objetos cor de prata, brilhando ao sol. Ao ligarmos a rádio, ouvimos dizer que a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo tinham sido invadidos na vèspera pela Alemanha e a população era convidada a manter-se à escuta para ouvir outras informações» [...] Foi assim, de surpresa, como era próprio da Blitzkrieg. Não se avisava ninguém e era só avançar, aterrorizando e esmagando o povo invadido. Os belgas, os franceses e outros povos voltavam 20 anos para trás. As estradas tornaram a encher-se de famílias que levavam alguns bens que na desgraça lhes pudessem valer, e alguns alimentos. Os belgas dizem que dois milhões de compatriotas seus se puseram em fuga. Outros falam em dois milhões e meio.

Nesta sua crónica mais tarde transformada em livro, Lucie Matuzewitz continua a descrever a sua odisseia [...] «Apanhámos o último comboio que saía para Paris; os comboios seguintes foram bombardeados e nunca chegaram ao destino. As estradas estavam completamente bloqueadas com automóveis dirigindo-se para sul [...] havia aviões que metralhavam em voo picado os refugiados que caminhavam ao longo das estradas [...] passámos uma noite muito agitada, porque uma bomba caiu ao lado da Torre Eiffel, perto do nosso hotel [...]. Decidimos ir para Bordéus. Infelizmente, poucos dias depois todo o governo francês estava nesta cidade. Uma nuvem de refugiados vindos do norte de França, da Bélgica, da Holanda, deambulava agora pelas ruas, dormindo nos parques e nas estações, não encontrando alojamento [...].»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

10
Mai21

alunos com patente

Cecília

Para essas e outras famílias com o mesmo tipo de simbolismo era vital chegar à fronteira antes dos nazis : a corrida tinha começado. Uma corrida na qual os alemães contavam com alguns trunfos: a velocidade à qual avançavam, com um material de grande qualidade, e em quantidade; apoios das forças colaboracionistas de Pétain e de Franco, e o apoio "tranquilo" de "um bom aluno" - António de Oliveira Salazar, com uma Circular 14 mesmo oportuna. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://plataformacascais.com/component/tags/tag/big-pharma.html

 

 

24
Mar21

Germanwings 9525

Cecília

Voo Germanwings 9525 [...] foi uma rota comercial internacional, operada pela Germanwings, subsidiária low cost da Lufthansa, utilizando um Airbus A320-211, partindo do Aeroporto de Barcelona-El Prat, com destino ao Aeroporto de Düsseldorf. Em 24 de março de 2015, o avião caiu a cem quilômetros a noroeste de Nice nos Alpes Franceses. Todos os 144 passageiros e seis membros da tripulação foram mortos. O acidente foi causado intencionalmente pelo copiloto Andreas Lubitz, que já havia sido tratado por tendências suicidas, porém não informou à companhia sobre isso. Pouco após chegar à altitude de cruzeiro, enquanto o comandante estava fora do cockpit, ele trancou a porta e iniciou uma descida controlada até que o avião se chocou contra os Alpes.

[...]


Entre os passageiros estavam dezesseis estudantes e dois professores da escola de ensino médio Joseph-König-Gymnasium de Haltern am See, Renânia do Norte-Vestfália. Eles estavam a caminho de casa depois de um intercâmbio estudantil com o Instituto Giola em Llinars del Vallès, Barcelona, Espanha.O prefeito de Haltern, Bodo Klimpel, descreveu o episódio como "o dia mais negro da história da cidade".

O baixo-barítono Oleg Bryjak e a contralto Maria Radner, cantores da Deutsche Oper am Rhein, também estavam no voo.

[...]

Regulatória
Em resposta ao incidente e as circunstâncias do envolvimento da Andreas, autoridades de aviação no Canadá, Nova Zelândia, Alemanha e Austrália implementaram novas regulamentações que exigem duas pessoas estarem presentes na cabine de comando durante todo o voo.Enquanto algumas companhias aéreas europeias já exigiam isso por política, a Agência Europeia para a Segurança da Aviação, recomendou que as mudanças similares devem ser introduzidas. Em Portugal, o INAC emitiu uma diretiva de navegabilidade que torna obrigatória a existência de dois tripulantes em simultâneo na cabine de comando. A diretiva, que foi publicada no dia 27 de março, aplicou-se a todas as companhias aéreas sediadas em Portugal e teve efeitos imediatos.

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Voo_Germanwings_9525

 

27
Nov20

ou se imagina ou se lava as mãos

Cecília

Chegaram a Bordéus mesmo no fim de setembro, na altura exata em que se desenrolavam os tristes célebres Acordos de Munique (29 e 30 de setembro de 1938), no âmbito dos quais os representantes de França e de Inglaterra acabariam por ceder periogosamente às pressões da Itália de Mussolini e, sobretudo, da Alemanha de Hitler, deixando que este último anexasse o território dos sudetas, na Checoslováquia. Não só não apaziguaram Hitler e o Reich, como, pelo contrário, lhe deram mais força e convicção para os seus avanços [...] E todos estavam muito longe de imaginar as consequências. O Anschluss, que anexou a Áustria à Alemanha, tinha sido consumado em março desse ano, e a Noite de Cristal iria acontecer daí a dois meses. Essa noite marcaria o início da ofensiva aberta contra os judeus, aos quais já tinham sido retirados os direitos cívicos, e que já estavam afastados da vida económica na Alemanha e nos territórios anexados [...]

Em Portugal, o governo e as autoridades que, claro, iam acompanhando os acontecimentos apesar da distância, iam definindo uma espécie de orientação no sentido de "afastar" possíveis problemas que certas "categorias de pessoas" pudessem vir a causar, em função dos interesses de Salazar e do regime. Assim, em outubro de 1938 (11 meses antes da declaração de guerra), Salazar introduz novas restrições aos vistos para judeus que quisessem entrar no nosso país, exigindo-lhes que adquirissem vistos de turismo por períodos de 30 dias, se precisassem de entrar no nosso território. Uma forma de limitar o acesso a Portugal e de travar assim eventuais planos de "certas pessoas". Surgiu, então, a célebre Circular 10, de outubro de 1938, que seria progressivamente endurecida por outras, até 11 de novembro de 1939, já em plena Segunda Guerra Mundial, com a Circular 14, e sob forte controlo da polícia política portuguesa, a então PVDE (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

18
Nov20

justos

Cecília

Há cerca de 22 mil pessoas no mundo que são reconhecidas como Justos Entre as Nações, mas diplomatas são menos de cem. Atualmente, há quatro portugueses nessa lista: o padre Joaquim Carreira, o embaixador Sampaio Garrido, José Brito Mendes e Aristides de Sousa Mendes. São heróis que devem ser conhecidos e estudados em todas as escolas. Mas há outros Justos estrangeiros que merecem ser conhecidos: o cônsul japonês Sugihara, que também desobedeceu ao seu governo em 1940 e, como Aristides, passou vistos a milhares de refugiados na Lituânia; Giorgio Perlasca, italiano, fez-se passar por diplomata espanhol para "falsificar" documentos, salvando muitos refugiados; Giovanni Roncalli (que veio a ser o Papa João XXIII, em 1958) "falsificou" certificados católicos de batismo para salvar judeus; e Georg Duckwitz, adido na embaixada alemã em Copenhaga, que soube dos planos nazis de deportação para a população judaica dinamarquesa - conseguiu avisar as comunidades e ajudou milhares de pessoas a fugir para a Suécia, salvando-as assim da morte certa [...]

Para salvar inocentes da morte, todos os meios são justos, e nenhum destes homens cometeu crimes ao fazê-lo, contrariamente ao que certos indivíduos extremistas escreveram em Portugal. A medalha dos "Justos" do Yad Vashem tem inscrito: «Quem salva uma vida, salva a humanidade.» Por vezes, a tradução varia, o que origina diferentes versões, mas a ideia é que cada pessoa contém em si todos os elementos do universo, todo o bem e todo o mal e, como está escrito nos livros santos, o «homem é feito à imagem e semelhança de Deus». 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

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