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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

13.09.19

outras coisas que dão matéria


Cecília

800px-Édouard_Manet_-_La_plage_à_marée_basse_(R

Edouard Manet (1832-1883)
La plage à marée basse

 

 

Estamos nus e gramamos.

(...)

As paisagens continuam a existir.

As paisagens são suaves.

Continuam também a existir

outras coisas que dão matéria para poemas.

A vida continua. 

Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.

A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível

   em si mesmo,

é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.

Num mundo descoroçoante de puras imagens

é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,

é bom navegar.

Porque este presente é logo saudoso.

(...)

A vida continua tão improvavelmente.

(...)

Estamos nus e gramamos.

 

 

António Ramos Rosa in TELEGRAMA SEM CLASSIFICAÇÃO ESPECIAL

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

05.09.19

antes ser-do-contra-a-contranatura


Cecília

«La sort natural d'un homme n'est ni d'être enchaîné, ni d'être égorgé; mais tous les hommes sont faits, comme les animaux et les plantes, pour vivre certain temps, pour produire leur semblables, et pour mourir. - Voltaire»*

* A sorte natural dum homem não é a de ser agrilhoado, nem a de ser degolado; mas todos os homens são feitos, como os animais e as plantas, para viverem um certo tempo, para produzirem os seus semelhantes e para morrerem» (Voltaire, Lettres Philosophiques)

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

11.07.19

honra deliciosa


Cecília

Vá Com Deus
Vanessa da Mata
(Sereia de Água Doce)

 

Vejo o povo dizer
Que perdeu um amor
Que quando estava lá
Só rimava com dor
Isso não é perda
Isso é livramento

Nesse mundo tonto
Que vive rodando
Vejo tanta gente desesperada
Criando histórias
Criando pessoas
Criando paixões
Medo da solidão

Qual é o problema
De estar na sua própria companhia?

Vi um casal com sangue
Ligação de ódio
Eu sei que os dois
Já não viviam
Andavam nas ruas
Meio mortos vivos
Até que entenderam seu desamor

Qual é o problema
De estar na honra
De sua própria companhia?

Fazer o que der na telha
Autossuficiência
Que delícia
Qual é o problema?


(...)


Vá com Deus...

 

 

28.02.19

voltar a ser


Cecília

Depois de arranjar a janela partida e depois de o aquecedor começar a difundir calor, pareceu que em cada um a tensão afrouxara, e foi então que Towaroski (um franco-polaco de vinte e três anos, doente de tifo) propôs aos outros doentes que oferecessem cada um uma fatia de pão a nós os três que tivemos o trabalho, e a proposta foi aceite. 

Um dia antes, tal acontecimento não teria sido concebível. A lei do Lager dizia: «come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho», e não deixava lugar à gratidão. Isto significava claramente que o Lager estava morto.

Foi este o primeiro gesto humano que aconteceu entre nós. Julgo que se poderia fixar naquele momento o início do processo pelo qual, nós que não morremos, de Häftlinge voltámos lentamente a ser homens. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Resurrection of the Messiah

Justin BUA

 

16.01.19

aquelas zonas dos médios orientes


Cecília

Com o andar dos anos, e dadas as muitas guerras que os hebreus sustentavam (58)

 

(58) Aquela zona do Médio Oriente foi sempre de intranquilidade social e militar. Primeiro por causa da religião, depois por causa do petróleo, dois produtos muito consumidos nas suas respectivas épocas. 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

30.05.18

de ser como se é


Cecília

Aquela cara de feições enormes, de gigante triste, volta-se de vez em quando para a multidão dos visitantes que estão para lá do vidro, a menos de um metro de distância; um lento olhar carregado de desolação de ser como se é, único exemplar no mundo de uma forma não escolhida, não amada, todo o cansaço de se carregar sobre os ombros a sua própria singularidade, todo o desgosto de ocupar o espaço e o tempo com a sua própria presença, tão embaraçante e tão vistosa.

 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

 

 

05.04.18

todos querem ser chefes


Cecília

Todos querem ser chefes. Porque aqueles que se fazem escravos são cretinos e pedintes cujos patrões, quando se encontram frente a frente, se cumprimentam e se observam e se odeiam mutuamente. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

06.11.17

arte do desapego


Cecília

 

 

 

Declarou: saí à floresta para te matar. Arrebatado por esse sentimento, saí. Mas o juízo sobrevém à raiva. Esperei o suficiente para que me rendesse à amenidade de sempre ou à decrepitude. Foi o melhor. A tua vida morre de qualquer maneira. E eu guardo-me de remorsos ou cansaço. Itaro novamente lhe perguntou: de verdade que outro me tocou na floresta. E o oleiro respondeu: de verdade. Podes partir com o meu ódio mas sem a minha condenação. Haverás de condenar-te sozinho. Porco. 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

18.05.17

stream of consciousness


Cecília

 

 A CENA DO ÓDIO

De José de Almada-Negreiros

Poeta Sensacionista e Narciso do Egipto 

 

Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis. 

(...)

Tu, que te dizes Homem! 

Tu, que te alfaiatas em modas

e fazes cartazes dos fatos que vestes

pra que se não vejam as nódoas de baixo! 

Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,

as Políticas, as Artes e as Leis, 

e outros quebra-cabeças de sala

e outros dramas de grande espectáculo...

Tu, que aperfeiçoas a arte de matar... 

Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança

e o Caminho Marítimo da Índia

e as duas Grandes Américas, 

e que levaste a chatice a estas terras 

e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui 

e qu'inda por cima cantaste estes Feitos... 

Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,

e que farto de te chateares no chão 

te foste chatear no ar, 

e qu'inda foste inventar submarinos 

pra te chateares também debaixo d'água... 

Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas

e que nunca descobriste que eras bruto,

e que nunca inventaste a maneira de o não seres...

Tu consegues ser cada vez mais besta

e a este progresso chamas Civilização! 

(...)

(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!

e esta gente distraída em guerras!)

(...)

Oh! Se eu soubesse que o Inferno

não era como os padres mo diziam -

uma fornalha de nunca se morrer - ,

mas sim um Jardim da Europa

à beira-mar plantado...

(...) 

E inda há quem faça propaganda disto: 

a pátria onde Camões morreu de fome

e onde todos enchem a barriga de Camões!

 

 

Com a data de 14 de Maio de 1915

 

 

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