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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

O frade sineiro anda ralado - os quartos de hora deixaram de soar na torre Sul do Convento, que as meias horas já se calaram misteriosamente dias atrás. Frei José dos Mártires desmontou o cilindro número quatro e não lhe encontrou defeito, inspeccionou o mecanismo do relógio e até arriscou equilíbrios perigosos para verificar se os martelos interiores e exteriores dos sinos estavam bem fixos. E nada. Os quartos de hora perderam a cantilena, o que muito desgosta o frade. Não crê que haja remédio sem a ajuda dos artífices das oficinas de Guilherme Withlock de Antuérpia, se ainda existirem. Eles construíram e montaram, vai para oitenta anos, os 46 carrilhões da torre Norte e os 47 da torre Sul, mais os mecanismos de relojoaria, e teclado para os sinos manuais e os cilindros dos mecânicos. Só que não há sequer a quem requerer a reparação e, enquanto os franceses não se forem embora, ninguém vai ralar-se além dele mesmo por ficar o tempo reduzido a um minuete de hora a hora (...) Mas o frade sineiro não se conforma. Além de se imaginar guardião do tempo, acha que o vigia melhor com música do que sem ela. E torna a verificar o cilindro preguiçoso, endireita-lhe uns dentes que lhe pareceram empenados e, da experiência, resultam duas débeis notas, um dó e um mi espaçados, melhor que nada. 

O tempo, esse, não se altera. Corre na espera lenta que Deus ou os ingleses expulsem os invasores e tragam um rei bom católico que reponha a paz pôdre e conserve o santo analfabetismo do povo. Mesmo que tenham secado as fontes do ouro do Brasil, talvez se arranjem uns cruzados para se repôr o tempo por música (...) 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)