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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

pés para cima

15.04.21

 

Também davam longos passeios à beira-mar, que António tanto apreciava, e costumavam ir para o 2001, em Cascais, onde ficavam a dançar toda a noite:

- O António não se drogava, não fumava e não bebia bebidas alcoólicas. Eu também não. Quer dizer, bebia, mas nada de exageros.  Mas toda a gente pensava que sim, porque passávamos a noite aos pulos.

Um outro amigo da época, o Paulo, mais tarde ligado ao cinema, lembra-se de o ver na Fonte da Telha, à Caparica, imóvel no areal deserto a fazer ioga. «Punha-se de cabeça para baixo, pés e pernas para cima, apoiado nos braços, em frente ao mar, a meditar.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

bemzinho fedorento

06.04.21

Para o capitão gostinho Lourenço, «o cônsul de Bordéus andava mesmo a pedi-las», e essas contas teriam de ser ajustadas, quanto mais cedo, melhor! A PVDE, entretanto, ia-se substituindo ao próprio MNE na decisão de atribuição de vistos, como o demonstra a comunicação da polícia política de 22 de abril de 1940, recebida a 23 do MNE: «Tem notado esta diretoria, de há uns tempos a esta parte, que os pedidos de judeus holandeses para virem para Portugal tomam um volume que não é de desprezar, atendendo à convulsão que agita a Europa. Por outro lado, os nossos serviços têm registado uma agitação por parte dos judeus, que nos tem feito tomar medidas rigorosas sobre a sua atividade. Nestes termos, rogo a V.Exa. que a bem do serviço público, os senhores cônsules na Holanda sejam avisados, para antes de pedirem autorização para visarem os passaportes, averiguarem bem se os indíviduos que desejam vir são ou não judeus, a fim de se evitar a entrada em Portugal de indivíduos dessa qualidade. A bem da Nação. Lisboa, Secretaria-Geral da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. 22 de abril de 1940.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

na frente

30.03.21

Era uma mistura entre circo e o jardim zoológico. Não se pagava bilhete, mas fazia-se fila - uma fila monumental - à porta. Uns comentavam o espetáculo, outros limitavam-se a olhar, de boca aberta. Há vários testemunhos de época que referem, inclusivamente, a existência de «excursões» vinda de vários pontos do país para ver... aquilo. O quê? Homens e mulheres, sentados, lado a lado, a tratar da beleza dos respetivos cabelos. Quando e onde? Em 1976, no salão de Isabel Queiroz do Vale, no Centro Comercial Imaviz, acabado de estrear. Mas não só. Havia, naquele salão, um ser espantoso, inconcebível, pela forma como se vestia, como se movia, como fazia de cada corte de cabelo uma performance singular. Um cabeleireiro que exigia ser tratado como barbeiro. António Joaquim Ribeiro. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

dúvidas para debaixo do tapete (ou como ser de bem e covarde)

25.03.21

dois casos deram origem a um aviso formal a Aristides de Sousa Mendes: «Qualquer nova falta ou infração nesta matéria será havida por desobediência e dará lugar a procedimento disciplinar em que não poderá deixar de ter-se em conta que são repetidos os atos de V.Sa. que motivam advertências e repreensões.» Era um aviso bem claro que estabelecia as regras do jogo: Salazar e o regime queriam continuar a seguir a Circular 14, portanto, a perseguir os judeus; a bloquear-lhes o caminho para a salvação e impedindo-os de escapar a um assassínio em massa, sem «cônsules ou indivíduos fora do seu estado normal», a incomodarem publicamente esse desígnio. 

Pelo seu lado, Aristides decidiu continuar a seguir a sua consciência. O seu jogo seria deixar-se estar no seu posto como cônsul durante o mais longo espaço de tempo possível, e sempre que tivesse ocasião, passar o maior número de vistos, dando pelo menos a possibilidade de sobreviver aos que lhe aparecessem pela frente. A atitude de Aristides é clara: «Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar!» Aristides identifica sem rodeios Salazar com a força bruta de Hitler e do nazismo no que diz respeito aos judeus, e é disso que o acusa com esta frase. A sociedade portuguesa, prefere, para ficar bem com a sua consciência, olhar para o lado, e vai escolher vergar-se ao poder, evitando mais tempos de incerteza como os vividos antes de Portugal ter Salazar e o Estado Novo. Ninguém queria uma "democracia" ou uma república cheia de dúvidas. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

Germanwings 9525

24.03.21

Voo Germanwings 9525 [...] foi uma rota comercial internacional, operada pela Germanwings, subsidiária low cost da Lufthansa, utilizando um Airbus A320-211, partindo do Aeroporto de Barcelona-El Prat, com destino ao Aeroporto de Düsseldorf. Em 24 de março de 2015, o avião caiu a cem quilômetros a noroeste de Nice nos Alpes Franceses. Todos os 144 passageiros e seis membros da tripulação foram mortos. O acidente foi causado intencionalmente pelo copiloto Andreas Lubitz, que já havia sido tratado por tendências suicidas, porém não informou à companhia sobre isso. Pouco após chegar à altitude de cruzeiro, enquanto o comandante estava fora do cockpit, ele trancou a porta e iniciou uma descida controlada até que o avião se chocou contra os Alpes.

[...]


Entre os passageiros estavam dezesseis estudantes e dois professores da escola de ensino médio Joseph-König-Gymnasium de Haltern am See, Renânia do Norte-Vestfália. Eles estavam a caminho de casa depois de um intercâmbio estudantil com o Instituto Giola em Llinars del Vallès, Barcelona, Espanha.O prefeito de Haltern, Bodo Klimpel, descreveu o episódio como "o dia mais negro da história da cidade".

O baixo-barítono Oleg Bryjak e a contralto Maria Radner, cantores da Deutsche Oper am Rhein, também estavam no voo.

[...]

Regulatória
Em resposta ao incidente e as circunstâncias do envolvimento da Andreas, autoridades de aviação no Canadá, Nova Zelândia, Alemanha e Austrália implementaram novas regulamentações que exigem duas pessoas estarem presentes na cabine de comando durante todo o voo.Enquanto algumas companhias aéreas europeias já exigiam isso por política, a Agência Europeia para a Segurança da Aviação, recomendou que as mudanças similares devem ser introduzidas. Em Portugal, o INAC emitiu uma diretiva de navegabilidade que torna obrigatória a existência de dois tripulantes em simultâneo na cabine de comando. A diretiva, que foi publicada no dia 27 de março, aplicou-se a todas as companhias aéreas sediadas em Portugal e teve efeitos imediatos.

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Voo_Germanwings_9525

 

luta

18.03.21

A sensação de ter escapado por pouco voltaria a abater-se sobre Filipa cinco dias depois de estar internada. Tal como terá acontecido a Gonçalo, a jovem diz que não foi entubada na noite do acidente. «Dei entrada na Urgência, fui para a área de Queimados só para tratarem as queimaduras. Não foi feito um raio-X aos pulmões, nada. Uma noite comecei a sentir-me mal, tinha tosse, dificuldade em respirar. Já estava há cinco dias internada, e foi só nessa altura que me puseram em coma e entubaram. As oximetrias [valor do oxigénio no sangue] davam valores de 30, quando abaixo dos 60 já é muito grave, mas o médico duvidava, porque eu tinha falado todos os dias», conta a jovem. «Só me lembro de a enfermeira dizer: "Deus queira que a menina escape", porque fui entubada ainda meio sedada; senti porem-me o dreno, senti tudo porque nem deu tempo de deixar a anestesia fazer efeito. Eu ouvia o médico dizer "Tem de ser agora", a médica a hesitar, porque nunca o tinha feito, que estava com medo de o fazer, que, se não fizesse certo, eu morria ali, e eu só chorava e não conseguia dizer nada. Entretanto apaguei, e passados cinco dias comecei a ouvir as pessoas a falar na rua. Uma enfermeira com quem ainda hoje falo diz que foi um milagre, porque não havia nada a agarrar-me, se eu própria não tivesse algo que me segurasse. Eu não quis morrer. Fugi das chamas, porque não quis morrer ali, porque ainda tenho coisas para fazer, e naquela noite eu também não quis morrer, e a enfermeira disse: "Notou-se, notou-se que tu não quiseste morrer, porque, no estado em que estavas, a ouvir-nos, enquanto estavas a ser tratada..."».

Os dois entreolham-se para regressar a Gonçalo. Estão convictos de que algo do género lhe terá causado a morte. «O que aconteceu a ela foi o que aconteceu ao Gonçalo. Ela aguentou-se porque era saudável, não tinha problemas e é mais nova. O Gonçalo já não foi a tempo», diz o chefe Tomé. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

(agressão)

06.03.21

É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

exemplos que não passam

05.03.21

Mas o tempo passa. Tomé já sabe andar de novo. Consegue dobrar os dedos das mãos. Filipa chora de dores na fisioterapia, mas não desiste e insiste tanto quanto lhe dizem para insistir, para recuperar o mais rápido possível. Em Abril de 2018, os dois ainda não tinham concluído o processo que lhes permitirá receber uma indemnização, mas Tomé encara os 15 mil euros que lhs deverão estar destinados com desânimo. «As indemnizações deviam começar pelos feridos, que estão cá a lutar, que vão ficar com marcas para toda a vida, mas começaram pelos mortos«, diz.

Há alguma amargura nas palavras dos dois. Mas também ironia, quando falam daqueles que dizem «ter-se aproveitado» do incêndio. Dão como exemplo um conhecido que recebeu uma indemnização por um veículo que, supostamente, ardeu no incêndio, quando de facto o carro já só era uma carcaça inútil parada na propriedade do dono há anos. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

a saúde está no coração

03.03.21

Sebastião (...) ao despedir-se do pai prometeu-lhe, diante da mãe, que iria contar ao mundo a história da atitude heroica do cônsul de Bordéus em 1940. E assim o fez. Em agosto de 1945 instalou-se na Califórnia, e com o irmão Carlos Francisco Fernando começou a divulgar o gesto de rebeldia praticado pelo pai, que tantas vidas tinha salvado, e que era uma verdadeira proclamação dos direitos humanos. Escreveu vários rascunhos (...)

Mas nos anos que se seguiram ao apocalipse que foi a Segunda Guerra Mundial, a Humanidade não estava preparada para ler histórias de morte, destruição e iniquidade. As pessoas queriam olhar para um futuro menos escuro, menos duro. Acabavam de sair do inferno, queriam esquecê-lo, queriam aproveitar o que a vida tinha de bom para lhes oferecer, e deixar para trás os anos de luta e desesperança. É verdade que havia filmes sobre a guerra, e as pessoas iam ao cinema vê-los, mas era difícil o processamento, de um ponto de vista mais racional, mais intelectual, de um horror como a carnificina que foi o Holocausto. Era muito penoso, como coletivo, termos de nos interrogar sobre as razões que permitiram que tal monstruosidade acontecesse. 

Teriam de passar 70 anos para que os países que participaram na Segunda Guerra Mundial se voltassem para esse período da História, fizessem eles parte dos vitoriosos ou dos derrotados. Essa já era uma história que tinha sido vivida pelos nossos avós, duas gerações tinham nascido e crescido depois daquele horror, e agora desejavam compreender minimamente aquilo que pais e avós não puderam entender. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

humanovid

22.02.21

De facto, o ser humano adapta-se facilmente a novas situações. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)