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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

preços

10.01.20

- Quanto não vale ter paz?

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

mulher(ão) II

14.11.19

Ao contrário do duque, não tinha qualquer vontade de que me sentasse em silêncio junto dele - longe disso. Adorava inteligência e conversa. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

Deux mères (1888)

Maxime Faivre

 

 

mulher(ão) I

14.11.19

Um pouco de conversa talvez tivesse sido o bastante para despertar em mim algum carinho por ele, mas não havia conversas. Uma vez disse-me que era melhor para um homem estar no meio do mato do que com uma mulher com opiniões (...) Considerava que um homem era mais admirado quando tinha uma mulher bonita ao seu lado, e deliciava-se com os olhares invejosos dos amigos quando estávamos juntos. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

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Paon

Nataly Serebrich

 

let bloom (don't blow)

14.10.19

Eu era teimosa, ele era teimoso. Não me lembro do motivo, sei que nos pegámos os dois. Eu era muito mais pequena, devia-me ter calado. Mas começámos à tareia e o meu pai não gostou. Deu uma tareia nele. Eu fugi  e meti-me debaixo da cama. O meu pai procurou-me até ao fim, não tas vou perdoar. E depois, a tareia que tinha dado ao António deu-me a mim também - relato de Maria Amélia. 

Mas não há memórias que o descrevam a subir às árvores para ir aos ninhos, ou outras tropelias de miúdos. Já João, o mais velho, meteu um belo dia a irmã dentro de uma arca e esqueceu-se dela. Maria de Lurdes ia morrendo asfixiada, enquanto ele, aflito, a procurava sem se recordar onde a fechara dessa vez. Outra vez, guardou a irmã Amélia, uma criança minúscula, e ainda hoje uma mulher muito pequenina, dentro de uma mala de viagens. Depois pôs-se a correr pelo quintal, abanando a mala de um lado para o outro, até que ela se abriu e deixou cair a miúda completamente atordoada no meio do canteiro das alfaces. António, contudo, não deixou na memória dos irmãos episódios semelhantes:

- Desde muito miúdo já dizia que queria ser músico. Cantava as cantigas que ouvia na rádio e outras que inventava ele próprio (...) E a minha mãe assim: Toninho, vai cortar um bocadinho de erva para os coelhos, e ele: haviam de morrer todos! Sentava-se no quintal e começava a cantar. E a minha mãe: A erva para os coelhos, António? E ele, ó está bem, está bem! - Maria Amélia Ribeiro Costa recordá-lo-á, para sempre, ensimesmado e misterioso, muito solitário e sempre à procura de espaço para abrir a voz. - Ele já tinha dom. Nasceu com ele. Ele era diferente. Foi sempre diferente de nós todos. Vinha de férias e não gostava que ninguém o perturbasse. Há um penedo em cima, do outro lado da rua, ele sentava-se ali, muitas vezes, a escrever. Dizia: Vou para ali para cima. Não quero que ninguém chame por mim. Se alguém vier, eu não estou para ninguém. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

dínamo

10.10.19

Sinto profusamente aquilo que se furta

às palavras mas não ao entendimento.

Sinto as fases do teu corpo

como um dínamo de luz a atravessar

o meu peito. 

 

Paulo da Costa Domingos in CAMPO DE TÍLIAS

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

gente de pau

30.08.19

O capitão de Intendência Octave Rigault tem uma verruga avantajada, na asa da narina direita. Esta contrariedade remedeia-a o artista facilmente, postando-se de forma a fixar o modelo a três quartos (...) 

O génio matemático que Raimundo tem diante de si e do cavalete está enroupado de gala, com muitas condecorações no lado esquerdo da casaca azul do uniforme. No rosto esquinado e magro, abundam os ângulos e, para além da verruga no nariz oculta pela posição de três quartos, não se lhe vislumbra nada de interessante (...) Aguenta quase três horas completamente imóvel e calado, inexpressivo, e nem uma ruga se divisa na roupa impecável. Raimundo experimenta a sensação estranha de estar a pintar um pau fardado. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)