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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

09
Out20

loucura sadia

[..] O procedimento do Sr. Aristides de S. Mendes implicara tal desvairamento que ao comunicar logo em seguida às autoridades espanholas a decisão de dar por nulos os vistos concedidos pelo consulado em Bordéus a numerosíssimas pessoas que ainda se encontravam em França, não tive dúvida em declarar que era minha convicção que o referido cônsul havia perdido o uso da razão. A bem da nação.»

Neste aceso encontro entre Teotónio Pereira e Aristides houve troca de palavras desagradáveis. A determinada altura, Teotónio Pereira declara que Aristides deve ter enlouquecido, ao que este lhe responde: «Mas será preciso ser-se louco para fazer o que está certo?» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

25
Set20

o poder de querer

No seu tempo, e num país onde a esmagadora maioria da população rural era ainda analfabeta, Deolinda de Jesus era uma das poucas pessoas, na aldeia, que sabia ler e escrever. Não frequentou nenhuma escola, mas a mestra do ateliê onde aprendeu costura ensinava a ler e a escrever às meninas que quisessem. Ela foi das poucas que quis. Ao longo de toda a vida a sua letra firme e bem desenhada encheu cartas e cartas com as quais mitigou a solidão de ter os filhos longe, permitindo-lhe, por seu turno, ler sem intermediários, as que eles lhe foram mandando [...] A certa altura, Deolinda partilhou esta ferramenta com o marido. Foi no final dos anos 50, quando surgiu a oportunidade de Jaime ser cobrador da Casa do Povo. Era um trabalho de fim de semana, mas garantia mais uma fonte de rendimento para a família. Porém, e como condição de admissão, exigia o domínio ainda que muito básico, das letras e da tabuada por causa das contas. Deolinda chamou a si a tarefa de ensinar ao marido os rudimentos da leitura e da escrita. As aulas decorriam ao serão, na mesa da sala de jantar. De lápis na mão, caderno de linhas ou quadriculado à frente, lampião de azeite na mesa, Jaime engolia o orgulho e rebentava de humilhação quando a mulher o emendava, uma vez e outra e outra. Mas o facto é que conseguiu o emprego, sinal de que lhe aproveitaram as lições. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

11
Set20

não à ventura (I)

à ventura
• Sem a reflexão necessária. = AO ACASOÀ SORTE

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]

 

Que a palavra tenha

dureza de quina,

firmeza de punho.

Que a palavra seja. 

 

António Ramos Rosa in CAMINHAR HABITAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

22
Ago20

amarras à portuguesa

Rui Monteiro volta a evocá-lo desta maneira: «Foi o mais criativo e original artista popular português. Morreu cedo demais, mas também viveu sem as amarras do preconceito e da inferioridade portuguesas.

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

21
Ago20

a barreira que une

Se o Raimundo, o pai dele, não lhe tivesse dado biberões de vinho, talvez fosse um homem como outro qualquer (...) 

Tudo isso podia ter acontecido se o pai não se tivesse intrometido entre ele e os seus objectivos. Era a sua ideia de que a beber leite o filho não se fazia um homem que o tinha condenado a viver daquela forma. Mas esse ódio não era de agora. Já em pequeno sentia que ele era o empecilho que não o deixava ter uma vida melhor. Desejava que ele não existisse, mas logo a seguir fechava as mãos e fazia força para contrariar esses sentimentos.

«O pai merece perdão». pensava. «O pai merece perdão.»

Era uma coisa má, aquilo que sentia. E ele sabia disso. Tinham-lhe ensinado que era preciso amar o próximo porque os homens eram todos irmãos. Percebia que isso criava uma barreira entre o bem e o mal, entre o que se podia e o que não se podia fazer em benefício de todos. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

30
Jun20

se, mas não é

Se os pecados fossem uma coisa simples, as pessoas só precisavam de deixar de os fazer. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

26
Jun20

ponto de vista

O Samuel devia ter razão, talvez a felicidade seja só ponto de vista. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

23
Jun20

cambiando

Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.

 

O mesmo espaço visível, ocupa-o.

(...)

Amanhã será sempre hoje este momento.

Outro, pleno e vão.

(...)

Em ti mesmo dá lugar ao espaço. 

 

 

António Ramos Rosa in OCUPAÇÃO DO ESPAÇO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

16
Jun20

reformulações

Reformulação do registo de pecados 

(...)

Este registo de pecados devia ser um registo de pensamentos. Não são pecados: são pensamentos. Pensamentos que uma pessoa deve ter para se perguntar acerca das coisas. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

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