Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

23
Jul20

silêncio que se vai contar um fado (II)

- São rosas, senhor! - grunhia a dona Maria da Conceição.

Quem ouvia a história sem ter tomado o pequeno-almoço pensava no desperdício de transformar pão em flores, que enchem os olhos mas deixam a barriga a dar horas. Na fila dos muito bons, a coisa ainda se arranjava com leite ao pequeno-almoço. Na dos bons, havia pão sem nada. Mas à medida que se avançava para a dos mais ou menos, piorava bastante. E na outra ponta, no canto dos burros, a fome grassava a olhos vistos. Esse antro era povoado por quatro ou cinco criaturas que aproveitavam o tempo de aula para descansar.

- Deixem-no estar na paz do Senhor - dizia a professora quando alguém apontava para o João Pedro. 

Com a cabeça pousada nos braços, repousava no sono dos justos, pouco importado com reis, rainhas e outras peripécias que não dão de comer a ninguém. E os braços dele eram um mistério. Não trazia lanche, mas não emagrecia. Enquanto o meu pai gastava o salário na mercearia do senhor Júlio, o Zé Tractorista, pai dele, gastava-o lá também, mas em vinho. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

13
Jul20

gente assim ao de leve

A poucos metros, o Vila Galé, ocupado por gente com dinheiro para quartos de hotel e festas sunset, cuspia para a ruína. Ou, pior, parecia indiferente, sobranceiro ao sítio que, abandonado, vivia muito mais do que os capados que alugam suítes, bebem cocktails, fodem assim ao de leve e trabalham em matadouros de alma como a Deloitte ou a PWC. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

04
Jun20

Lucas 18:22 (tudo quanto tens, reparte-o)

Calei-me porque achei ridículo, angustiante também, que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

20
Mai20

próprio de quem sabe mandar

Quando tinha a minha idade, o tio Alexandre estava convencido de que os problemas de flatulência eram um exclusivo dos pobres.

«Só os pobres é que se peidam», pensava. 

Por isso ficou surpreendido quando, numa vindima, ouviu o senhor Rodrigues aliviar-se à frente de toda a gente. Um ronco curto e seco, próprio de quem sabe mandar. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

13
Mar20

ensurdecer com vírus

porque se pode murmurar para uma pessoa enquanto se ensurdece outra e tudo vibra, ao mesmo tempo em silêncio e explodindo 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

 

14
Jan20

serenidade de quadro

A expressão de Queenie parecia serena, mas era a serenidade dos santos nos quadros, e não era de fiar. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

603fa82ad75cd4a9f4803e7068d371f3.gif

 

12
Nov19

velocidade dos pontos de vista

 

É bom relembrar que sempre existiram veganos (...) ou detractores da escravidão (...) é bom relembrar que os direitos e dignidades não são apanágio do momento actual, mas eram muito menos disseminados e pouca gente partilhava esses pontos de vista.

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

 

30
Out19

gretas da vida moderna

«Passamos o tempo a criar coisas para não nos mexermos, carros para não termos de andar, controlos remotos para não nos levantarmos do sofá, e depois pagamos um ginásio. Pagamos porque criamos utensílios que nos permitem evitar actividades físicas (...) E é exactamente por isso, devido a essa extrema sedentarização, que nos vemos obrigados a mexer-nos. Para isso, basta pagar por uma coisa que evitamos a todo o custo e pela qual trabalhamos tantas horas diárias durante tantos anos: esforço físico. Passar essas oito horas diárias num escritório acinzentado, sentados, e ainda pagar para fazer exercício físico é uma excelente parábola da vida moderna». 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub