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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

16.05.18

com a falsidade nos entendemos


Cecília

Perguntará o avisado leitor como é que esse documento foi escrito se, nesse tempo, a arte de escrever era desconhecida. Pergunta acertada, sim senhor! Nós poderíamos responder que a letra do fado tinha chegado até nós por tradição oral, ou por um pré-histórico e hoje desconhecido sistema gráfico. Podíamos, mas não o fazemos. Não senhores. Confessamos lealmente que este documento é falso. Foi forjado por nós. E porque não, se vivemos numa época em que tudo é falso, desde o sorriso das mulheres às notícias nos jornais? Porque não havemos também de mentir se mentem os propagandistas, os locutores, os políticos, os comerciantes e os titulares? Porque não havemos de enganar, adulterar a verdade e ludibriar o leitor se a humanidade é uma imensa e pavorosa burla? Sim, porque haveríamos de ser nós os únicos a ser verdadeiros, probos e honestos? Expliquem-nos porquê. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

 

 

16.05.18

cor chinesa


Cecília

Façamos aqui um pequeno parêntesis para explicar um dos problemas capitais da criação humana, isto é: o aparecimento de diversos tipos de indivíduos com cores estranhas. (Não nos referimos, evidentemente, à cor política, mas à coloração da própria pele) [...] Outra teoria pretende que o fenómeno tem diversa explicação. Assim, atribue a invenção dos peles-vermelhas, não a Deus - como pode parecer óbvio - mas ao Sr. Cecil B. de Mille e outros produtores de filmes com índios em tecnicolor. Os negros, (segundo a mesma teoria), foram descobertos por um empresário americano de divertimentos públicos, pois todos conhecem essas interessantes festazinhas do folclore estadunidense onde um negro sempre faz o papel do actor principal exibindo-se pendurado numa árvore, regado com gasolina e ardendo. 

Só o aparecimento da raça amarela é que não tem explicação. Os chineses vieram ao mundo há coisa apenas de alguns anos, e logo 600 milhões duma assentada. Ninguém sabe porque foram criados, pois só têm trazido dores de cabeça aos delegados ocidentais da ONU 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

 

 

 

 

10.05.18

a problemática do arrendamento - e da habitação em geral


Cecília

Embora as ruínas das velhas cidades já não sirvam para nos elucidar sobre a qualidade e o aspecto das casas, os papiros falam-nos detalhadamente dos tormentos porque passava um egípcio de terceira classe para conseguir alugar (...) três assoalhadas no sexto esquerdo, sem elevador nem luz na escada. Quando adregava de encontrar uma dessas raras construções (...) com a curiosa designação de rendas limitadas (!) tinham que satisfazer as ilimitadas exigências do senhorio (...) Depois ia muito satisfeito instalar-se no corredor da casa, visto que os três compartimentos assoalhados eram subalugados a outras tantas famílias.

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

25.04.18

revolução e flores


Cecília

O que os homens e as mulheres fazem uns aos outros está para além da compreensão. 

 

Charles Bukowski in Bebedeira De Longa Distância - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

 

 

12.04.18

simpatia


Cecília

Era Francine. Francine gostava de o impressionar. Francine gostava de pensar que o impressionava. Mas ela era um horror de tédio. Leslie pensava muitas vezes que era simpático da sua parte deixá-la aborrecê-lo como ela o aborrecia. Um tipo normal desligar-lhe-ia o telefone na cara como se fosse uma guilhotina. 

 

 

Charles Bukowski in Noite Fria - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

22.03.18

arcas e caixas


Cecília

Como os homens se mostrassem cada vez mais sórdidos, as mulheres mais desavergonhadas, e como aparecessem os primeiros sintomas de deliquência juvenil (É bem conhecido o caso de David, jovem «teddy-boy» que matou à fisga um venerável ancião chamado Golias) pensou-se, com exagerado optimismo, que a solução estava numa grande barrela.

Num longínquo dia de Outubro, à hora do almoço, (havendo o Serviço Meteorológico Nacional previsto tempo seco) abriram-se as celestes comportas e a água veio em tal abundância que os bombeiros registaram o maior número de chamadas de toda a sua história. Esta lavagem à escala universal destinava-se (como os leitores versados em textos sacros já perceberam) a fazer desaparecer da face da Terra a pouca vergonha, a podridão, os vícios e o genococos que então proliferavam à rédea solta. (Esquecia-se que, para lavar tais e tantas poucas vergonhas, a água, (mesmo com Tide) era insuficiente e o problema só podia ser resolvido a Napalm) [...] Só à custa da requintada imaginação dos redactores do Velho Testamento, foi possível conservar a seco, dentro de uma arca, um grande número de pessoas e animais própriamente ditos. Embora certos parágrafos bíblicos nos informem que eles foram escolhidos de entre o melhor comportados da Criação, estamos convencidos de que se tratava, sim, de indivíduos com muitas cunhas pois o ingresso na barcaça salvadora era pelo menos tão difícil como um lugar na Sacor ou na Fundação Gulbenkian. (Muitos leitores irão admirar-se como foi possível caber tanta espécie de animal dentro de uma arca. Lembrem-se, todavia, quantos hoje cabem numa caixa ainda mais pequena - de TV (...) Além disso nessa época o número de bestas era muito menos do que hoje em dia pois ainda não existia a publicidade comercial esse eficaz meio de animalização em massa). 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

09.11.17

sagradas famílias


Cecília

e o meu pai, descalço, a exilar-se no sofá da sala de membros encolhidos como um gafanhoto numa haste a protestar

- Quase não há dia que não fique para aqui senhores 

a coçar a nuca com as patas de cima, a minha mãe 

- Hoje estás impossível

e até o sol me trazer de novo mais nada, apenas resmungos parecidos com um tractor em ponto morto ele que de manhã em calças de pijama se barbeava a cantarolar, de bocadinho de algodão colado à bochecha porque se cortou, por baixo do algodão um traço vermelho que teimava em não secar e a minha mãe na cozinha a aquecer o leite de costas para toda a gente, abrindo e fechando gavetas com força 

- Onde pára o teu babete? 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

 

30.06.17

portugal fica para depois e os portugueses também


Cecília

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

27.04.17

bulir com imaginações e vontades


Cecília

Era a primeira aula de «História Local». Eu procurava, como costumo fazer, um tema que despertasse a atenção dos meus alunos e os lançasse numa animada troca de ideias. « Digam-me lá que imagens, que estereótipos, que histórias associamos normalmente à cidade do Porto?»

Algum embaraço inicial foi rapidamente superado: «cidade do trabalho», «cidade da liberdade», «o granito», «a chuva», «o cinzento», «Não! Cinzento não! É o contrário! As casas coloridas!», «a Cidade Invicta», «os tripeiros». Com uma pequena ajuda minha - a pedagogia não directiva tem os seus limites... -, acabámos o quadro: «o bairrismo», «a solidariedade», «o carácter». Já havia muito por onde começar. Tentei pôr alguma ordem no caos: «A chuva e granito são dados objectivos! A chuva mede-se e o granito está lá! A qualificação de "Invicta" tem uma história (...) o professor continuava ali, disciplinando as intervenções objectando para suscitar maior consistência nos argumentos; mas o observador, o «amador» do Porto distanciava-se com alguma incomodidade: quanta banalidade, Deus meu!, o trabalho, o granito, a liberdade... Em que momento do caminho é que o meu Porto ficou prisioneiro de um punhado de lugares-comuns, que, repetidos até à exaustão, perderam qualquer capacidade de bulir com imaginações, quanto mais com vontades? (...) Quanto mais gosto do Porto e melhor o conheço, mais díficil me é escrever sobre ele.

 

 

Luís Miguel Duarte, Prefácio

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

 

 

 

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