Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

30 Jan, 2018

se não sim

no outono consentiu um beijo, uma desilusão mole e húmida que lhe deu ímpetos de apagar no cotovelo, o meu pai feliz - Não foi bom? e ela com vontade que ele morresse ou ela morresse (...) à medida que uma voz dentro de si  - Têm paciência senão ficas sozinha  e o pavor de ficar sozinha depois da morte dos pais      António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016) Publicações D. Quixote | Leya (2016)        
22 Jan, 2018

some

      Meu Deus (...) Aqui em baixo, porém, sentimo-nos todos demasiado abandonados      George Sand – Diário Íntimo Antígona  (2004)
Não és bom, nem és mau: és triste e humano… Vives ansiando, em maldições e preces, Como se a arder no coração tivesses O tumulto e o clamor de um largo oceano. Pobre, no bem como no mal padeces; E rolando num vórtice insano, Oscilas entre a crença e o desengano, Entre esperanças e desinteresses. Capaz de horrores e de ações sublimes, Não ficas com as virtudes satisfeito, Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: E no perpétuo ideal que te devora, Residem juntamente no teu peito (...)
09 Jan, 2018

sabrás

Matsu nunca prometeria parar de chorar. Acalmara, mas sabia bem que a felicidade se compunha da soma de muita tristeza também.      Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos Porto Editora (2016)        Sabrás que he cumplido firmemente, Tú sabrás, mi promesa de quererte hasta el final, Que he esperado tanto tiempo, Y aún puedo más. Sabrás que yo he sido la primera, Tú sabrás, en escribirte una canción que te recuerde aquella vez, En que mi cuerpo temblaba, (...)
08 Jan, 2018

abraço

Num abraço, pensava, as pessoas deixavam de se poder ver. Como se, num abraço, fosse indiferente quem estava mas importasse apenas a convicção com que era dado.      Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos Porto Editora (2016)        
02 Jan, 2018

sem impedimentos

A criada Kame gritava: musumé, onde estás tu. E a jovem Matsu respondia: no teu coração. A criada voltava a gritar: e mais onde. Matsu respondia: ao sol. Estou aqui encostada ao sol. Era como se o sol se estendesse até tocar o corpo ao abandono da jovem. A criada juntava-se-lhe e culpava-se de parar os trabalhos por um instante. Por vezes, escolhiam a fome em troca de um mínimo de sossego. A felicidade podia acontecer num ínfimo instante, ainda que a fome se mantivesse e até a (...)
06 Nov, 2017

arte do desapego

      Declarou: saí à floresta para te matar. Arrebatado por esse sentimento, saí. Mas o juízo sobrevém à raiva. Esperei o suficiente para que me rendesse à amenidade de sempre ou à decrepitude. Foi o melhor. A tua vida morre de qualquer maneira. E eu guardo-me de remorsos ou cansaço. Itaro novamente lhe perguntou: de verdade que outro me tocou na floresta. E o oleiro respondeu: de verdade. Podes partir com o meu ódio mas sem a minha condenação. Haverás de condenar-te (...)
24 Out, 2017

condição

Mas dormia apoquentado com a solidão e o crescente tamanho do amor. O amor, na perda, era tentacular. Uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. Até tudo em volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. Que humilhante a solidão do amante. O oleiro disse assim: que humilhante o coração que sobra. O amor deixado sozinho é uma condição doente.     Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos Porto Editora (2016)