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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

25
Nov20

pau para toda a reciclagem

e começa a trabalhar como marçano, que significa, mais ou menos, ser-se pau para toda a obra. Um marçano atende ao balcão de uma mercearia, faz limpezas e arrumações, e anda com cabazes de vime às costas, para entregar em casa dos fregueses a batata, o arroz, o feijão catarino, o cartuxo de açúcar, a barra de sabão azul e branco, a medida de azeite, o quilo de farinha, o pacote de sal, a embalagem dos ovos. Sem horário de trabalho - os estabelecimentos estavam abertos desde madrugada até noite alta (...) Mas afinal em que consistia ser-se marçano? Em 1984, um pequeno artigo de jornal, recorda os marçanos como uma das profissões «em vias de extinção» 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

Pierre Carrier-Belleuse
Les livreurs de farine
1885

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18
Nov20

velho sistema instagram

Na cidade, as propostas para mobilar as casas estão recheadas de produtos fantásticos. Frigoríficos cheios de comida pronta a ser confeccionada. Aspiradores, que permitem que a dona de casa rodopie pelo seu lar, limpando-a como quem brinca. Máquinas de lavar roupa, que evitam a canseira dos tanques onde à força de braços e mãos que esfregam, torcem, batem, na faina das barrelas domésticas, se lavam as roupas da casa. Panelas de pressão, que conseguem amaciar o mais rijo naco de carne, enquanto o diabo esfrega um olho. Na cidade, as tarefas domésticas diárias, a acreditar nos maravilhosos anúncios, são meros passatempos que lindas mulheres praticam alegremente. E toda a gente parece resplandecer de asseio. Já no campo, um luxo chama-se telefonia. Um sonho chama-se telefone. Visitas extemporâneas e de última hora... não existem. Visitas só a do padre ou a do médico. Não costumam ser bom sinal. Vizinhos? Ajudam-se, mutuamente, quando é preciso, mas ninguém entra pela casa de ninguém a pedir comida e a reclamar jantares: era só o que mais faltava. E os gestos quotidianos - varrer, limpar, cozinhar, arar os campos, pensar o gado, mondar, ceifar, enxertar as árvores, colher os frutos, apanhar caruma, acender a lareira -, são obrigações. Implicam muitas horas de trabalho esforçado, e não se pensa nelas como passatempos. Ter comida para cozinhar, isso sim, é uma alegria. Matar a fome a todos, aí está o verdadeiro prazer. 

Na cidade, famílias ostensivamente felizes têm crianças, quase sempre louras e inevitavelmente lindas, que adoram pudim Royal e «gostam e necessitam de Milo», o fortificante mágico sem o qual as suas pobres cabecinhas encaracoladas tombam de exaustão sobre imaculados cadernos e livros da escola. Mas as cabecinhas das crianças louras ou morenas dos campos, não tombam sobre cadernos e livros imaculados. Se tombarem, uma palmada do professor ou da professora fornece toda a energia de que precisam para se levantarem imediatamente. Portanto, ali o Milo não faz falta nenhuma a ninguém. Até porque o dinheiro não chega para esses luxos... finalmente, no campo, não se fala em beleza o tempo todo, nem se evocam vocábulos como elegância por dá cá aquela palha. De resto, o mais elementar sentido de decência tornaria impensável que as mulheres corressem de braços no ar ao encontro dos seus homens, quando estes chegam a casa, suados, sujos de terra, exaustos de trabalhar, para lhes servirem algo de tão insípido como um estupendo caldo Maggi. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

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A refeição do menino

Júlio Pomar 

 

27
Out20

o estado da arte e da cultura - da praxe

Aristides e César eram grandes defensores das praxes académicas, um tema agora muito em voga e envolto em bastante polémica. O jornal Público fez uma investigação sobre estas práticas estudantis, e descobriu que já no início do século XX as praxes eram consideradas uma forma de cativar os jovens estudantes e assim os integrar na vida universitária, desde que se baseassem em atividades ligadas às artes e à cultura: provas de poesia e criação literária, teatro, pintura, exibições de canto e de música, entre outras disciplinas.

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

27
Jul20

falar e dizer

amigos que falavam sem freio como o Nélson e por amigos como o Samuel, cujo silêncio dizia mais. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

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PAR Impar 1 2 1 (1915-16)

Amadeo de Souza Cardoso 

 

15
Jul20

voltar a nascer

quando envelhecem as pessoas aproximam-se de voltar a nascer, choram por nada, falam do que não aconteceu, coleccionam ideias que não há 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

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Composition ou Pim! Pam! Poum! (1934)

Maria Helena Vieira da Silva 

https://gulbenkian.pt/museu/works_cam/composition-ou-pim-pam-poum-147112/

 

 

12
Mai20

perceber um boi

Em geral, os bois na corte por baixo do meu quarto faziam-me muita companhia. Era um mugido longo e sincero, profundo (...) O mugido franco e despretensioso desses animais contrastava com a voz do avô, que passava os dias no quarto a falar sozinho. Quem parecia que falava eram os bois, tal a serenidade com que mastigavam a palha e assistiam a este espectáculo. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

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Paturages

Julien Dupré

 

18
Mar20

frontes que persistem

 

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,

uma carta que segue, um bom dia que chega,

hoje, amanhã, ainda, a vida continua,

no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,

nas mãos que se dão, nos punhos torturados,

nas frontes que persistem. 

 

António Ramos Rosa in NÓS SOMOS - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

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L'échappée belle

Brigitte Sanchez

 

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