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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

24
Mar22

caros & doces erros

Cecília

Entenderemos melhor a relação entre preconceito racial e racismo se olharmos para a forma como ambos se juntam para produzir a discriminação e violência daquele que racializa sobre aquele que é racializado. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

24
Mar22

livramentos (ou adiamentos...)

Cecília

Sou agora um adulto; enfrento o sol e a chuva de cabeça erguida. Tenho de me deixar cair com a força de uma machadinha e cortar o carvalho com um único golpe, pois, se não o fizer, se me desviar e perder tempo a olhar de um lado para o outro, cairei como se fosse um floco de neve, derretendo-me. 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

24
Mar22

vírus imortais

Cecília

Pertencente a uma faixa etária muito mais baixa, Marcelo sentiu directamente os efeitos da pandemia no campo profissional, ficando com esse lado virado do avesso. Estando a trabalhar sem contrato na área de restauração, hotelaria e turismo, era de esperar que à calamidade de saúde pública se juntasse a calamidade laboral, carregada de dificuldades. «Perdi o meu emprego no restaurante, nunca mais tive clientes na minha experiência da Airbnb... fiquei sem rendimentos e fui forçado a fazer uns extras na construção civil.» Um mundo novo e desconhecido, no qual entrou por necessidade [...] Passados estes meses, Marcelo dá voz a uma frustração que vai um pouco mais além das contrariedades ao nível do trabalho e do ganhar a vida de todos os dias. «O que me magoa mais neste processo é o agravar da desigualdade social que já existia antes desta covid-19.» Sem grandes perspectivas no futuro imediato, de uma coisa Marcelo está convicto: «A incerteza e o medo são os piores vírus da nossa sociedade.»

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

24
Mar22

colored lights can hypnotize

Cecília

E por vezes, quando prestamos um bom serviço, acabamos por ser apanhados de surpresa com algumas propostas, enfim...» Marcelo cede um sorriso malandro. «Uma vez,  no By The Wine, tivemos um grupo de oito americanas que se fartaram de beber, estavam eufóricas, adoraram a comida. E começaram a flirtar um bocado com o pessoal. No final, deram-me uma gorjeta de 50 euros e disseram-me "Se quiseres vir connosco para o nosso hotel, damos-te mais 100", e eu fiquei à rasca. O que é que um gajo... Disse-lhes que era comprometido, que tinha mulher, e elas não se ficaram: "Traz a tua mulher e recebes outros 100."» Marcelo garante que não foi. 

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

23
Mar22

pa[ssá]ssemos a borracha na ausência

Cecília

O desejo de estarmos separados fez com que sublinhássemos os nossos erros e tudo o que nos é próprio.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

23
Mar22

formações tesas

Cecília

Como diria o pai do Calvin, da série Calvin & Hobbes, as dificuldades formam o carácter. O problema é que no sector terciário, e mais especificamente nas lojas - dentro e fora dos shopping centers -, o carácter formado ajuda pouco a pagar as contas.

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

22
Mar22

estantes

Cecília

Coleccionei loucos, como imagino que aconteça com toda a gente que atende ao público; apanhei vários ladrões de livros em flagrante, mas fui enganado por muitos mais; tentei despistar stalkers, que faziam por decorar os turnos de algumas colegas mulheres (como pudemos perceber pelas entrevistas, elas continuam a ser um alvo preferencial das atitudes mais condenáveis); disse muitas vezes «Esse livro está esgotado», disse muitas menos «Esse livro é incrível». Tirei satisfação genuína (e a espaços mesquinha) dos erros nos pedidos por parte de inúmeros clientes. «O Gato Marado e a Andorinha Sei Lá», de Jorge Amado. «A Sida e a Arte», de Hermann Hesse. «O Processo Civil», de Franz Kafka. «Portugal Hoje, o Medo de Existir», do professor José Cid.

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

22
Mar22

cassetes [que funcionavam]

Cecília

Em meados dos anos de 1990, quando era estudante e frequentava en passant as já referidas cadeiras de Marketing, costumava arriscar uma imitação tosca das intervenções sibilantes de Carlos Carvalhas, então secretário-geral do Partido Comunista Português, martelando as mesmas teclas que o Comité Central gostava de tocar à época: «O Governo destruiu o aparelho produtivo nacional, sacrificou a nossa agricultura, as nossas pescas e os mais importantes sectores industriais, tudo isto num cenário de dificuldades para os portugueses; eis-nos então perante um ministro das Finanças feito mestre-escola comunitário, a quem cabe distribuir o cacete, reservando a cenoura para o primeiro-ministro». Em suma, os critérios de Maastricht e as decisões políticas condenaram-nos a ser um país servil, de empregados de mesa, com um paninho de loiça pendurado no braço [...] (já a referência explícita ao cacete está documentada nas actas da Assembleia da República de 13 de Fevereiro de 1992), mas, enfim, percebe-se a ideia. Nessa altura, o país dava mesmo os primeiros passos em direcção a uma terciarização acelerada. 

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

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in https://m.facebook.com/umempregadodemesatambemchora/

 

21
Mar22

World Poetry Day

Cecília


 

 

 

THE MUSHROOMS OF DONBAS
In spring Donbas disappears in the fog, and the sun hides behind heaps of earth.
So you need to know where you’re going,
you need to know the man who can make the arrangements.

This man was a worker in the former pumping station
worn down by alcohol.
When we met, he said, “We, the workers of the pumping station,
were always considered the elite of the proletariat, yeah, the elite.
When everything fell the fuck apart, many
just put their hands down. But not the workers
of the pumping station, not us.
We organized an independent mining union,
we took over three buildings of the former plant
and started to grow mushrooms there.”

“Mushrooms?” I couldn’t believe it.
“Yes. Mushrooms. We wanted to grow cactus with mescaline, but
cactus won’t grow here in Donbas.

You know what’s important when you grow mushrooms?
It’s important to get high, that’s right, friend – it’s important to get high.
We get high, believe me, even now we have to get high, maybe it’s because
we are the elite of the proletariat.

And so – we take over three buildings and start our mushrooms.
Well, there’s – the joy of work, elbow grease,
you know – the heady feeling of work and accomplishment.
And what’s more important – everyone gets high! Everyone’s high even without mushrooms!

The problems began a few months later. This is gangland
territory, you know, recently a gas station was burnt down,
they were so eager to burn it down, they didn’t even manage to
fill up, so of course the police caught them.
And so, one gang decides to take us on, decides to take away
our mushrooms, can you believe it? I think in our place anyone else
would have bent over, that’s the way it is – everyone bends over here,
according to the social hierarchy.

But we get together and think – well, mushrooms – this is a good thing,
it’s not a matter of mushrooms, or elbow grease,
or even the pumping station, although this was one of the arguments.
We just thought – they are coming up, they will grow
our mushrooms will grow, you could say they’ll ripen to harvest
and what are we going to tell our children, how are we going to look them in the eye?
There are just things you have to answer for, things
you can’t just let go.
You are responsible for your penicillin,
and I am responsible for mine.

In a word, we just fought for our mushroom plantations. There we
beat them. And when they fell on the warm hearts of the mushrooms
we thought:

Everything that you make with your hands, works for you.
Everything that reaches your conscience beats
in rhythm with your heart.
We stayed on this land, so that it wouldn’t be far
for our children to visit our graves.
This is our island of freedom
our expanded
village consciousness.
Penicillin and Kalashnikovs – two symbols of struggle,
the Castro of Donbas leads the partisans
through the fog-covered mushroom plantations
to the Azov Sea.

“You know,” he told me, “at night, when everyone falls asleep
and the dark land sucks up the fog,
I feel how the earth moves around the sun, even in my dreams
I listen, listen to how they grow –

the mushrooms of Donbas, silent chimeras of the night,
emerging out of the emptiness, growing out of hard coal,
till hearts stand still, like elevators in buildings at night,
the mushrooms of Donbas grow and grow, never letting the discouraged
and condemned die of grief,
because, man, as long as we’re together,
there’s someone to dig up this earth,
and find in its warm innards
the black stuff of death
the black stuff of life.

 

The Mushrooms of Donbas

Serhiy Zhadan

2007, Serhiy Zhadan
From: Maradona
Publisher: Folio, Kharkiv, 2007


© Translation: 2011, Virlana Tkacz and Wanda Phipps
Publisher: First published on PIW, 2011

 

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