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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

falar e dizer

Cecília, 27.07.20

amigos que falavam sem freio como o Nélson e por amigos como o Samuel, cujo silêncio dizia mais. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

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PAR Impar 1 2 1 (1915-16)

Amadeo de Souza Cardoso 

 

silêncio que se vai contar um fado (II)

Cecília, 23.07.20

- São rosas, senhor! - grunhia a dona Maria da Conceição.

Quem ouvia a história sem ter tomado o pequeno-almoço pensava no desperdício de transformar pão em flores, que enchem os olhos mas deixam a barriga a dar horas. Na fila dos muito bons, a coisa ainda se arranjava com leite ao pequeno-almoço. Na dos bons, havia pão sem nada. Mas à medida que se avançava para a dos mais ou menos, piorava bastante. E na outra ponta, no canto dos burros, a fome grassava a olhos vistos. Esse antro era povoado por quatro ou cinco criaturas que aproveitavam o tempo de aula para descansar.

- Deixem-no estar na paz do Senhor - dizia a professora quando alguém apontava para o João Pedro. 

Com a cabeça pousada nos braços, repousava no sono dos justos, pouco importado com reis, rainhas e outras peripécias que não dão de comer a ninguém. E os braços dele eram um mistério. Não trazia lanche, mas não emagrecia. Enquanto o meu pai gastava o salário na mercearia do senhor Júlio, o Zé Tractorista, pai dele, gastava-o lá também, mas em vinho. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

silêncio que se vai contar um fado (I)

Cecília, 23.07.20

- São rosas, senhor - grunhia a dona Maria da Conceição. - São rosas!

Dizia-o com os olhos tão abertos que conseguíamos ver o trapo em que a rainha transportava o pão abrir-se. O pão para os pobres. E de lá de dentro saltavam flores.

- Flores vermelhas - continuava. - Vermelhas como o sangue com que se fez a nação.

De maneira que era tudo muito bem explicado. Voltávamos para casa cheios de pensamentos acerca dessa rainha, que se metia em alhadas por causa dos pobres. Os pobres que o rei, o rei mauzão, não queria ajudar. E a história de Inês de Castro: «Poupai ao menos os meus filhos, eles não têm culpa, senhor», dizia a professora. Mas a melhor parte era quando D. Pedro dava caça aos assassinos da sua amante, que nos era descrita como sua esposa. Legítima esposa. «E arrancou-lhes o coração pelas costas!», dizia a professora. Sobre o facto, também, de os filhos de D. Inês e D. Pedro serem ilegítimos, nem uma palavra. Acerca do embaraço que isso colocava à coroa, muito menos. Sobre os problemas com Castela, muito menos ainda. Nada. Silêncio.

Os reis desfilavam à nossa frente, seguidos pelos seus séquitos, sempre prontos a partir para a guerra. Havia comandantes a rezar à Virgem Maria atrás de uma pedra antes de a batalha começar. Reis que iam voltar numa manhã de nevoeiro que acabaria por chegar. D. Afonso Henriques, que tinha mentido ao papa acerca da doação de uns quantos sacos de ouro ao ano e por isso estava no inferno.

Depois vinham as perguntas. Quem foi o terceiro rei da dinastia de Avis? Como se chamavam os pretendentes ao trono durante o interregno que perdurou de mil trezentos e oitenta e três a mil trezentos e oitenta e cinco? Por quantas embarcações era constituída a armada portuguesa que partiu nesse saudoso ano de mil quatrocentos e quinze à conquista de Ceuta? 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

cenários requentados

Cecília, 22.07.20

Num cenário de miséria e escândalos de corrupção nos organismos corporativos, o descontentamento de Norte a Sul, do interior ao litoral, das cidades e às aldeias, era generalizado [...] Até a classe média, a «almofada do regime», se sentia esmagada e espoliada das suas pequenas regalias, a tal ponto que a crispação social se tornou quase insustentável. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

sóbria fusão

Cecília, 16.07.20

Sóbrio o teu corpo me pede 

penetração: nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.

 

Sóbrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os de terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros. 

 

António Ramos Rosa in ANIMAL OLHAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

haja dó

Cecília, 16.07.20

A porta que se escancarava para os que se haviam portado de acordo com o que se sabia que estava correcto. Os antigos. De acordo com o que eles já diziam. 

Era o medo de não estar certo que se via nos olhos dele. 

Só que não era possível que se andasse há dois mil anos a ensinar uma doutrina errada. Esse era o argumento. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

voltar a nascer

Cecília, 15.07.20

quando envelhecem as pessoas aproximam-se de voltar a nascer, choram por nada, falam do que não aconteceu, coleccionam ideias que não há 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

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Composition ou Pim! Pam! Poum! (1934)

Maria Helena Vieira da Silva 

https://gulbenkian.pt/museu/works_cam/composition-ou-pim-pam-poum-147112/

 

 

gente assim ao de leve

Cecília, 13.07.20

A poucos metros, o Vila Galé, ocupado por gente com dinheiro para quartos de hotel e festas sunset, cuspia para a ruína. Ou, pior, parecia indiferente, sobranceiro ao sítio que, abandonado, vivia muito mais do que os capados que alugam suítes, bebem cocktails, fodem assim ao de leve e trabalham em matadouros de alma como a Deloitte ou a PWC. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

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