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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

31.07.19

as cerimónias do medo e do orgulho


Cecília

Então, Manoel solta os freios das cerimónias, agarra-a pela cintura e, antes de a beijar, diz-lhe que as doidices de Lisboa não são nada, ao pé da doidice que ele tem por ela. Olha que estás a desfazer-me o chignon... Pois desfaço-to mesmo!

Acabam por comer a canja fria, o Manoel de camisa esgargalada e fora das calças, a Juliana de cabeleira desfeita e chambre chinês 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

30.07.19

vã soberba


Cecília

Antecede o conhecimento a vagabundagem 

 

 

Paulo da Costa Domingos in Violeta Náutica

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

A Negação de Pedro, 1610

Caravaggio

 

Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se, envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre homem ríspido e resoluto (...) ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências dolorosas de seus irmãos em humanidade (...) Foi aí que o antigo pescador refletiu mais austeramente, lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia: - “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!. . .“

in http://www.doutrinaespirita.com.br/?q=node/920

 

29.07.19

arGOLAdaS


Cecília

Vai apreensivo com o destino do Lourenço (...) O homem tem cinco filhos e deve estar a esta hora a arrepelar-se para inventar com que lhes dar de comer. 

Põe-se Frei Pedro a arquitectar planos para tirar o Lourenço da encrenca e ocorre-lhe que a solução poderá passar pelo padre Sepúlveda (...) 

Santas tardes, senhor abade. E vá de lhe trinar a miséria do Lourenço, da mulher e dos cinco filhos, com acordes trágicos e tons patrióticos. Pois, que se há-de fazer... É a vida - conforma-se o cura. Frei Pedro simula espanto e indigna-se, que não se pode cruzar os braços e deixar à fome o mártir do despotismo jacobino! E, na embalagem, avança a sugestão. E se, este ano, o senhor padre Sepúlveda abdicasse do abadágio e, em seu lugar, se procedesse à recolha dos géneros pelas famílias, para acudir ao Lourenço, até se achar remédio mais duradouro? O cura empalidece, e estaca junto aos rebentos das tronchudas, fulminado. Ó Frei Pedro, o abadágio é uma tradição secular! Então quer que eu dê esse desgosto aos meus paroquianos?! Frei Pedro põe os olhos em alvo. Só este ano... O abade retoma o passeio, a fugir àquele raio que siderou o seu sossego, àquele apelo que o mói. Bom, bom, bom... Deixe lá isso comigo - diz, iluminado pela disposição de esfolar a paróquia. - Cá me arranjarei para que haja peditório para o Lourenço. E abadágio. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

26.07.19

yeah, so


Cecília

Ela cala-lhe os protestos com um beijo e quer que ele lhe diga se a ama verdadeiramente. Ele jura-lhe que sim e para sempre. E os amores que teve por esse mundo fora?... Amores não, mulheres. Nunca lhe falou nisso porque foram coisas sem rasto e, para casar, escolheu-a a ela. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

22.07.19

pedro(a)s


Cecília

Conheci a maturidade infantil

das crianças, mas também não é isso 

(...)

fartei-me de tentativas.

 

Desejo antes a ferida sólida

que não sara, o enigma, essa coisa

que se transporta inteira pelo Universo

como o irreprimível grito

do sangue no vento avisando

o futuro de que não ficámos ilesos

à espessa rede do Amor 

(...)

Aperta-me esse mitigado anel tão alto

(...)

porque a angústia, doce angor, e a esperança

informam o meu sangue

do regresso da tua ausência.

 

Barbeio a infâmia do nosso desencontro,

o homem pode punir-se numa higiene

precária, pode pintar-se e eu

cumpro imenso os rituais

do disfarce.

 

Fumo a tirania do meu medo, para mim

é sede de ser tarde

a vinda do teu húmido oásis

sotto voce e eu,

eu reduzido a nada.

 

A morte avança, ama-me sob a luz

da tua voz

cobrindo a terra elementar onde prometidos

potros de crinas soltas e alma leve

se opõem ao vazio. 

 

Paulo da Costa Domingos in Cabeças

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

 

18.07.19

encontrões na vala comum


Cecília

Queria

Que me levasses no coração pelo Universo 

(...)

«Que nenhum filho da puta se me 

          [atravesse nos teus versos como a multidão aos 

                                                                         [encontrões»

 

 

Paulo da Costa Domingos in Vala Comum

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

O Jardim das Delícias Terrenas (1504)

Hieronymus Bosch

 

 

 

17.07.19

i.


Cecília

O capitão de Intendência Octave Rigault é um maníaco das cifras. O Palácio-Convento tornou-se para ele um desafio e uma guloseima. Andou dois dias de nariz no ar, a rondá-lo, contornando-o lentamente, a determinar numericamente a sua vastidão imponente e desengraçada, calculando a passos, com pequena margem de erro, 40 000 metros quadrados monumentais e contando, como maior cuidado e interesse, as suas 4500 portas e janelas (...)

Estando excluído o interesse do curioso capitão da Intendência pela pureza dos mármores e pela perfeição clássica das colunas jónicas do vestíbulo, dos capitéis corínticos e das admiráveis figuras esculpidas por Bernini, Corsini, Ludovici e Bracci, imagina-se facilmente o prazer que ele teria se pudesse alinhar outros números no seu caderno de notas, que acrescentassem à avaliação de tanta monumentalidade os 50 000 trabalhadores que ali se esforçavam em 1729 pela grandeza do voto d'El Rei dom João V. Para não falar dos 1300 bois, dos 7000 soldados que mantinham a ordem nessa cidade artificial paga com o ouro do Brasil, e dos 1383 operários mortos, durante os primeiros 13 anos da obra de agradecimento ao Sublime Arquitecto por ter dado um filho a Sua Majestade. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

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