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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

pergunta sem literatura

08.01.17

Em certa altura, chegou ao limite das terras até onde se aventurara sozinho. Dali para diante começava o planeta Marte, efeito literário de que ele não tem responsabilidade, mas com que a liberdade do autor acha poder aconchegar a frase. 

Dali para diante, para o nosso menino, será só uma pergunta sem literatura: 

«Vou ou não vou?» 

 

(...)

 

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?

Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar? 

 

 

José Saramago - A Maior Flor do Mundo 

Herdeiros de José Saramago, Fundação José Saramago, André Letria e Porto Editora , 2015 

 

cântico da mulher grávida

06.01.17

Mexes-te no meu ventre. Estarás satisfeito ou impaciente, meu filho? Quem me dera saber!

Serás belo, belo como o teu pai. Terás o corpo esbelto como os pinheiros nos montes e os olhos meigos como as corças da floresta.

A tua bondade será cristalina como a água das fontes e a tua inteligência vigorosa como a brisa que vem do mar.

Mas ai! se não fores perfeito?...Ai! se te faltarem as mãos, um braço, ou a luz dos olhos?...Ai! se te olharem com desprezo ou com fingida piedade...

Chorarei então, meu filho, mas amar-te-ei ainda mais. O meu coração só velará por ti e encontrará sempre palavras para te confortar.

Plantei no meu jardim macieiras, pessegueiros, graminha verde, flores garridas.

Procurei enfeites de cor e de alegria, agasalhos macios, tecidos leves e transparentes.

Meu filho, como eu te amo já! Como quero a tua felicidade! Hei-de ensinar-te lindos versos; inventar histórias maravilhosas e embalar-te com as mais doces canções.

Doem-me os seios! Dor abençoada! É o leite que tu beberás!

Brilha sol! Abri-vos rosas! Macieiras, pessegueiros, árvores todas do meu jardim, flori!

Pássaros, cantai! Rasgai a terra, águas das fontes! Alma, coração, rejubilai!
O meu filho vai nascer!

 

 

 

Ilse Losa

(20 de março, 1913 — 6 de janeiro, 2006)

ecos

05.01.17

A leitura é uma necessidade biológica da espécie. Nenhum ecrã e nenhuma tecnologia conseguirão suprimir a necessidade de leitura tradicional.

 

 

As pessoas nascem sempre sob o signo errado, e estar no mundo de forma digna significa corrigir dia a dia o próprio horóscopo.

 

 

A arte só oferece alternativas a quem não está prisioneiro dos meios de comunicação de massas.

 

 

Há livros que só falam de sexo. Outros, como os meus, falam de conspirações. Quando um autor escreve muito sobre um tema é porque sente falta disso na vida, ou seja, os que escrevem muito sobre sexo, não o praticam. Os que escrevem sobre conspirações, não conspiram nem são paranoicos.

 

 

A nossa vida está cheia de espaços vazios.

 

 

É um mito dos editores que as pessoas queiram ler coisas fáceis.

 

 

 

Umberto Eco

(5 de janeiro, 1932 — 19 de fevereiro, 2016)

waste of blood and sweat

04.01.17

Dactilografia

 

 Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Formo o projecto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou. 

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tic-tac estalado das máquinas de escrever. 

 

Que náusea de vida!

Que abjeção esta regularidade!

Que sono este ser assim!

 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavalerias 

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do sul, opulentos de verdes. 

 

Outrora... 

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 

O tic-tac estalado das máquinas de escrever. 

 

Temos todos duas vidas: 

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão. 

 

Na outra não há caixões, nem mortes. 

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. 

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.

Neste momento, pela náusea, vivo só na outra...

 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

Se, desmeditando, acordo,

Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever. 

 

Álvaro de Campos

(19.12.1933)

 

 

Fernando Pessoa - Poemas de Álvaro de Campos 
Cleonice Berardinelli, Editora Nova Fronteira ( São Paulo, agosto de 1999)

 

 

 

 

girls

04.01.17

The tree has entered my hands,
The sap has ascended my arms,
The tree has grown in my breast -
Downward,
The branches grow out of me, like arms.

Tree you are,
Moss you are,
You are violets with wind above them.
A child - so high - you are,
And all this is folly to the world.

 

Ezra Pound - A Girl

 

 

a água vai escorrendo

03.01.17

Já é noite e o frio
Está em tudo que se vê
Lá fora ninguém sabe
Que por dentro há vazio
Porque em todos há um espaço
Que por medo não se viu
Onde a ilusão se esquece
Do que o tempo não previu

Já é noite o chão
É mais terra para nascer
A água vai escorrendo
Entre as mãos a percorrer
Todo o espaço entre a sombra
Entre o espaço que restou
Para refazer a vida
No que o tempo não matou

Onde tudo morre tudo pode renascer

Em ti vejo o tempo que passou
O sangue que correu
Vejo a força que moveu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar

Já é noite e a sombra
Está em tudo que se vê
Lá fora ninguém sabe
O que a luz pode fazer
Porque a noite foi tão fria
Que não soube acordar
A noite foi tão dura
E difícil de sarar

E onde tudo morre tudo pode renascer

Em ti vejo o tempo que passou
Vejo o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar

Porque eu descobri a casa onde posso adormecer
Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
É tudo é mais forte e há mais cor no céu maior
É Aqui tudo é tão novo tudo pode ser amor

E onde tudo morre tudo volta a nascer

Em ti vejo o tempo que passou
Vejo o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar

Já é dia e a luz
Está em tudo que se vê
Cá dentro não se ouve
O que lá fora faz chover
Na cidade que há em ti
Encontrei o meu lugar
É em ti que vou ficar.

 

Tiago Bettencourt - O Lugar 
Álbum: O Jardim
Data de lançamento: 2007