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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

29
Jul16

prato da semana: MEA CULPA requentada

Cecília

" Os homens nunca se contentam... E eu, a falar franco, fartei-me deste Imprevisto Anárquico do Sonho em que vivi e agora apetece-me voltar a provar aquilo a que chamamos Realidade...Além disso... Ouve: vou dizer-te um segredo... mas promete-me que não o revelas a ninguém... Prometes? Na verdade, o fito principal do meu regresso talvez seja o de tentar revolucionar Chora-Que-Logo-Bebes... endireitar as espinhas dorsais das pessoas... secar as lamentações covardes dos Choraquelobebenses... pregar a reorganização viril da vida em novas bases... (...) E assim, com a mesma facilidade de quem fura nuvens, João Sem Medo coou-se como um espectro através da Muralha, a esfarrapá-la com as botas até alcançar a terra santa de Chora-    -Que-Logo-Bebes que pisou com comoção feliz onde se misturava o prazer do obstáculo vencido, a vaidade próxima de poder enfim contar proezas da viagem aos amigos ( e porventura também, já timidamente esboçado, o arrependimento do regresso). (...) Mas enriqueceste, ao menos? Trazes dinheiro  para me fazeres um enterro decente quando chegar a minha horinha? 

    - Não, minha mãe. Nem é necessário. Porque a vida da nossa aldeia vai modificar-se radicalmente.

E com ímpeto de sentir um comício na garganta, galgou até ao cimo de um penedo e desatou a discursar aos chorincas que o rodeavam:

    - Cidadãos! Precisamos de organizar uma conspiração urgente contra as lágrimas mal choradas. E rasgar o musgo das faces. E tirar o verdete das bocas. (...)

Mas, pouco a pouco, a um e um, os Crolaquelogobebenses, apavorados com estas palavras que perturbavam a vocação geral para mortos e a paz podre das longas digestões da Fome, começaram a esquivar-se à sorrelfa (...)

    - Deixa essas ideias, meu filho... Não estragues o nosso rico sossego, a nossa aprendizagem para cadáveres. E chora, chora, chora como nós. Derrete-te em lágrimas e desiste. 

     - Não, não desisto, Mãe - berrou teimoso e temerário (por fora).

 Mas ao mesmo tempo (...) foi murmurando à mãe com certa prudência prática de homem cansado:

   - Não desisto, Mãe. Não desisto, percebe?... Mas provisoriamente, para restaurar as forças, sabe o que me apetecia agora?... Um jantarinho cá dos nossos... (...) Mas não cuide que desisto da luta! Não! Jamais!... É só um apetite... 

(...) E a pobre lá foi cozer o bacalhau demolhado em lágrimas. 

Então, João Sem Medo, sempre à espera de não sabia bem de quê... talvez do milagre que um dia o ajudasse a secar aquelas lágrimas da Terra... talvez esperançado na chegada do outro João Sem Medo que, afinal, apenas o procurava de noite, durante o sono...

.... Então, João Sem Medo, provisoriamente, sempre provisoriamente, vendo tantos olhos a chorar... montou uma fábrica de lenços e enriqueceu. 

( Ah! Mas um dia, um dia!...) " 

 

José Gomes Ferreira  – Aventuras de João Sem Medo (1963)

 

Licença Editorial por cortesia de Publicações Dom Quixote para Círculo de Leitores (Dezembro,2003)

 

 

Dedicatória da Primeira Edição (1963)

 

 

Para os meus dois filhos:

Para ti, Raul José, homem há muito - e homem autêntico - , que aprendeste à tua custa que

a verdadeira coragem é a força do coração... 

 

Para ti, Alexandre, ainda criança, mas já com todas as tendências para não te tornares num desses falsos adultos que sujam o mundo e odeiam a Imaginação... 

 

Para os meus dois filhos - o homem e a criança - este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem. 

 

29
Jul16

saudade do frio que aconchega

Cecília

Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo
Um dia triste
Toda fragilidade incide
E o pensamento lá em você
E tudo me divide

 

Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo
Um dia triste
Toda fragilidade incide
E o pensamento lá em você
E tudo me divide

 

Longe da felicidade e todas as suas luzes
Te desejo como ao ar
Mais que tudo
És manhã na natureza das flores

 

Mesmo por toda riqueza dos sheiks árabes
Não te esquecerei um dia
Nem um dia
Espero com a força do pensamento
Recriar a luz que me trará você

 

E tudo nascerá mais belo
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris

E tudo nascerá mais belo
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris

 

Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo
Um dia triste
Toda fragilidade incide
E o pensamento lá em você
E tudo me divide

 

Mesmo por toda riqueza dos sheiks árabes
Não te esquecerei um dia
Nem um dia
Espero com a força do pensamento
Recriar a luz que me trará você

E tudo nascerá mais belo
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris

E tudo nascerá mais belo
O verde faz do azul com o amarelo
O elo com todas as cores
Pra enfeitar amores gris

 

 

 

Djavan, " Nem um dia"

Malásia (1996)

29
Jul16

paleta excessiva

Cecília
Vincent van Gogh
 
30 de março, 1853 - 29 de julho, 1890
 

s-l500.jpg

 L'HOMME EST EN MER

Painted in Saint-Rémy in October 1889

 

 

 

"O pobre homem

não me pode fazer isto.

Perante a sua paleta grosseira

dissipa-se

em mim qualquer bela

perspectiva de vida. (...)

Pintava com correção excessiva."

 

Robert Walser in Histórias de imagens” (Editora Cotovia, Portugal), Tradução de Pedro Sepúlveda

 

 

créditos imagem: http://www.sothebys.com/en/auctions/ecatalogue/2014/impressionist-modern-art-evening-sale-l14002/lot.39.html

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