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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

mente de coração

28.11.20

Por vezes, um problema não se resolve pela sensatez da mente, mas antes pela sabedoria do coração. 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

 

sociedade penico

27.11.20

- Nunca compreenderei como uma sociedade fundada principalmente por devedores, criminosos e párias, pessoas que conhecem bem as dores da opressão - disse Colin - , adotou tão entusiasticamente uma instituição que oprime aqueles que não fizeram qualquer mal [...]

Em Londres, passo as noites com homens que se sentam num mesmo lugar e não se mexem durante horas a menos que tenham de ir urinar, e mesmo assim é possível que não vão mais longe do que até junto do penico que se encontra ao canto da sala para se aliviarem; e posso acrescentar que apontam mal porque é hilariante.

«Troçam uns dos outros como garotos de escola - continuou -, mas consideram-se inteligentes, importunam as criadas das tabernas e acham-se arrojados, enquanto soldados que deram um membro ou um olho pela segurança do reino andam imundos pelas ruas, a pedir esmola. 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

 

ou se imagina ou se lava as mãos

27.11.20

Chegaram a Bordéus mesmo no fim de setembro, na altura exata em que se desenrolavam os tristes célebres Acordos de Munique (29 e 30 de setembro de 1938), no âmbito dos quais os representantes de França e de Inglaterra acabariam por ceder periogosamente às pressões da Itália de Mussolini e, sobretudo, da Alemanha de Hitler, deixando que este último anexasse o território dos sudetas, na Checoslováquia. Não só não apaziguaram Hitler e o Reich, como, pelo contrário, lhe deram mais força e convicção para os seus avanços [...] E todos estavam muito longe de imaginar as consequências. O Anschluss, que anexou a Áustria à Alemanha, tinha sido consumado em março desse ano, e a Noite de Cristal iria acontecer daí a dois meses. Essa noite marcaria o início da ofensiva aberta contra os judeus, aos quais já tinham sido retirados os direitos cívicos, e que já estavam afastados da vida económica na Alemanha e nos territórios anexados [...]

Em Portugal, o governo e as autoridades que, claro, iam acompanhando os acontecimentos apesar da distância, iam definindo uma espécie de orientação no sentido de "afastar" possíveis problemas que certas "categorias de pessoas" pudessem vir a causar, em função dos interesses de Salazar e do regime. Assim, em outubro de 1938 (11 meses antes da declaração de guerra), Salazar introduz novas restrições aos vistos para judeus que quisessem entrar no nosso país, exigindo-lhes que adquirissem vistos de turismo por períodos de 30 dias, se precisassem de entrar no nosso território. Uma forma de limitar o acesso a Portugal e de travar assim eventuais planos de "certas pessoas". Surgiu, então, a célebre Circular 10, de outubro de 1938, que seria progressivamente endurecida por outras, até 11 de novembro de 1939, já em plena Segunda Guerra Mundial, com a Circular 14, e sob forte controlo da polícia política portuguesa, a então PVDE (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

volvendo (y partindo)

26.11.20

A vida é uma roda, a gente acaba por voltar ao ponto de partida. Eu dei a volta completa e a única saída, quando se ultrapassa tudo, é começar de novo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

emboscada

26.11.20

É uma fogueira disfarçada - observou ele, passando-lhe uma mão pelo cabelo. - Uma emboscada em forma de mulher 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

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Couple au chandelier

Marc Chagall (1887-1985)

pau para toda a reciclagem

25.11.20

e começa a trabalhar como marçano, que significa, mais ou menos, ser-se pau para toda a obra. Um marçano atende ao balcão de uma mercearia, faz limpezas e arrumações, e anda com cabazes de vime às costas, para entregar em casa dos fregueses a batata, o arroz, o feijão catarino, o cartuxo de açúcar, a barra de sabão azul e branco, a medida de azeite, o quilo de farinha, o pacote de sal, a embalagem dos ovos. Sem horário de trabalho - os estabelecimentos estavam abertos desde madrugada até noite alta (...) Mas afinal em que consistia ser-se marçano? Em 1984, um pequeno artigo de jornal, recorda os marçanos como uma das profissões «em vias de extinção» 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

Pierre Carrier-Belleuse
Les livreurs de farine
1885

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pão e água eternos

25.11.20

Não tenho a pretensão de entender os fingimentos dos cavalheiros [...]

- Nós não fingimos, Roz. Somos honrados e cívicos em todas as ocasiões. Somos cavalheiros.

Eram um bando de hipócritas, que afirmavam honrar as mulheres mas passavam metade da noite com prostitutas, que censuravam a morte de algum limpa-chaminés nos seus clubes - os limpa-chaminés encontravam constantemente mortes horríveis, tantas eram as chaminés de Londres - mas não faziam nada para alterar as leis que afetavam os pobres desgraçados. 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

 

é complicado

25.11.20

- Podes pedir desculpa a Lorde Colin, Win?

- Essa é a parte complicada. Um homem desculpa-se quando não errou, como gesto educado, e para manter as aparências. Quando errou, a questão torna-se mais complicada. 

Puro disparate masculino. 

- Foi isso que aprendeste em Oxford? 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

 

cadáveres há muitos

24.11.20

Em França, a editora Gallimard publica, em 2015, o romance Le Consul, escrito por um romancista de origem argelina, Salim Bachi, que faz uma análise muito fina da psicologia de Aristides. Salim Bachi, laureado com o prémio Goncourt - primeiro romance, cita São Francisco de Assis, antes do primeiro capítulo: «O homem obediente é como um cadáver que se deixa colocar, sem protestar, onde os outros quiserem.» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)