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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

03
Mar21

a saúde está no coração

Cecília

Sebastião (...) ao despedir-se do pai prometeu-lhe, diante da mãe, que iria contar ao mundo a história da atitude heroica do cônsul de Bordéus em 1940. E assim o fez. Em agosto de 1945 instalou-se na Califórnia, e com o irmão Carlos Francisco Fernando começou a divulgar o gesto de rebeldia praticado pelo pai, que tantas vidas tinha salvado, e que era uma verdadeira proclamação dos direitos humanos. Escreveu vários rascunhos (...)

Mas nos anos que se seguiram ao apocalipse que foi a Segunda Guerra Mundial, a Humanidade não estava preparada para ler histórias de morte, destruição e iniquidade. As pessoas queriam olhar para um futuro menos escuro, menos duro. Acabavam de sair do inferno, queriam esquecê-lo, queriam aproveitar o que a vida tinha de bom para lhes oferecer, e deixar para trás os anos de luta e desesperança. É verdade que havia filmes sobre a guerra, e as pessoas iam ao cinema vê-los, mas era difícil o processamento, de um ponto de vista mais racional, mais intelectual, de um horror como a carnificina que foi o Holocausto. Era muito penoso, como coletivo, termos de nos interrogar sobre as razões que permitiram que tal monstruosidade acontecesse. 

Teriam de passar 70 anos para que os países que participaram na Segunda Guerra Mundial se voltassem para esse período da História, fizessem eles parte dos vitoriosos ou dos derrotados. Essa já era uma história que tinha sido vivida pelos nossos avós, duas gerações tinham nascido e crescido depois daquele horror, e agora desejavam compreender minimamente aquilo que pais e avós não puderam entender. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

02
Mar21

(recuperando)

Cecília

um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora 

[...]

É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos.

[...]

o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

25
Fev21

cada uno con su devenir

Cecília

Em França, os crimes contra a Humanidade não prescrevem, e em 1997 começou o célebre Processo Papon, justamente em Bordéus. No termo deste processo, Maurice Papon, secretário-geral da Gironda entre 1942 e 1944 sob o regime de Vichy, foi considerado responsável pela deportação de milhares de franceses por serem judeus. Na sua defesa diz que «cometeu os "tais crimes" apenas porque obedeceu a ordens superiores [...] portanto devia ser considerado inocente». É então que aparecem observadores, entre eles o Père Bernard, que vêm clamar que na mesma cidade de Bordéus, em 1940, houve um cônsul que desobedeceu às ordens dos seus superiores para não colaborar em «chacinas». Maurice Papon foi condenado em 1998 pela justiça francesa a dez anos de prisão por cumplicidade em crimes contra a Humanidade, pois devia ter tido em consideração o aspeto moral das ordens recebidas, e devia ter desobedecido.

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

22
Fev21

humanovid

Cecília

De facto, o ser humano adapta-se facilmente a novas situações. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

22
Fev21

momento que vem

Cecília

Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

https://lyricstranslate.com/pt-br/limitason-limita%C3%A7%C3%A3o.html

 

21
Fev21

assim é

Cecília

Quem bem faz sempre bem espera.

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

18
Fev21

haja samba e axé

Cecília

É pesada a pedra desta vida

que a morte enterra a cada passo

mas quem vive a luz da nova vida

senão a palavra que levanta a pedra 

 

António Ramos Rosa in  À MEMÓRIA DE VÍTOR MATOS E SÁ  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

18
Fev21

o teu rosto

Cecília

Se as palavras corressem como as nuvens

respirando

dir-te-ia as palavras que desejo.

 

Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto. 

 

António Ramos Rosa in  NA MORTE DE CELESTINO ALVES - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

18
Fev21

falta de ar

Cecília

O casamento de Clotilde estava marcado para 17 de dezembro de 1939, em Cabanas de Viriato, com receção e "copo-de-água" na Casa do Passal. Porque não antecipar para outubro o regresso a Portugal dos filhos, ficando apenas Aristides e Angelina em Bordéus, com José António para ajudar no consulado e Pedro Nuno para continuar as aulas na Faculdade de Direito de Bordéus? Decidido e feito. Fernanda Dias - a "petiza" ou Fernandita, a jovem criadinha - deixou um relato dessa viagem, numa entrevista publicada na revista do Expresso de 9 de novembro de 1996, assinada por Carlos Magno: «Fernanda viajava sentada entre o condutor e a sua esposa, Angelina, quando o carro, superlotado, capotou perto de Salamanca. Ao volante vinha Aristides de Sousa Mendes, nervoso, com o coração aos saltos e a alma no acelerador. Tinha de chegar rapidamente à fronteira portuguesa. Não queria que Salazar soubesse que ele se ausentara por três dias do seu posto consular / diplomático para pôr os filhos a salvo.» A "petiza" caracterizou o meu avô Aristides como «o mais justo e sofredor de todos os santos». Em contraste com esta admiração e amizade profunda de Fernandita a Aristides e Angelina, vem-me à ideia a senhora doutoranda da Universidade de Coimbra, já por mim citada, que se tivesse sabido deste episódio poderia muito bem ter dito: «Aristides, mais uma vez a prevaricar!»

Por um lado, temos um coração humano, simples e verdadeiro, por outro, temos um julgamento político e de carácter sob a capa de uma tese de doutoramento pela Universidade de Coimbra, com tese defendida em 2013, em que no último parágrafo se escreve a respeito de Aristides: «Estamos, portanto, diante de um funcionário prevaricador. Se bem que jamais se considerasse como tal.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

17
Fev21

perdoar e avançar OU esquecer e passar à frente

Cecília

A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro. 

 

António Ramos Rosa in  AS MUSAS - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

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