Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

lei feroz na história e na vida


Cecília

18.04.19

Na história e na vida parece às vezes vislumbrar-se uma lei feroz, segundo a qual «dar-se-á a quem tiver; tirar-se-á a quem não tiver». No Lager, onde o homem está só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial, a lei iníqua está abertamente em vigor, é reconhecida por todos. Com os aptos, com os indivíduos fortes e astutos, os próprios chefes gostam de manter contactos, que chegam a ser de quase camaradagem, pois esperam poder tirar, talvez mais tarde, algum proveito. Mas (...) aos homens em fase de degradação, não vale a pena dirigir a palavra, pois já se sabe que começariam a queixar-se e a contar o que costumavam comer em casa. Muito menos vale a pena ser-se amigo deles, pois não têm conhecimentos importantes no campo, não comem nada extra-ração, não trabalham em Kommandos vantajosos e não conhecem nenhuma forma secreta de organização. E, finalmente, sabe-se que estão aqui de passagem e dentro de poucas semanas deles ficará apenas um punhado de cinzas num campo não muito longe daqui, e um número de matrícula riscado num livro de registo. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

a manha teimosa


Cecília

18.04.19

Nem os sessenta anos de domínio castelhano puderam domar a manha teimosa que tem aguentado Portugal como Estado de geografia absurda. O episódio francês será passageiro. Devemos, portanto - diz ela - vergar como vimes em vez de nos erguermos como robles. Dom António admite intimamente que tal imagem faz jus a nobres e pueris sentimentos e, na sua paciente sageza, acha que o puro patriotismo da mulher é, além de ingénuo, conveniente. Como ter um filho a preparar guerrilhas, outro no exército real e um terceiro na roda do partido francês. O balanço dos interesses parece-lhe equilibrado, confortável. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

tempo da cura


Cecília

08.04.19

e eu de olhos fechados e nuca apoiada na parede a rezar uma Avé Maria que tinha obrigação de pôr as coisas em ordem e não punha 

 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

 

 

os russos


Cecília

08.04.19

 

todos os dias ladram as sirenas do Fliegeralarm; os russos estão a oitenta quilómetros. A central eléctrica está parada, as colunas do Metanol já não existem, três dos quatro gasómetros do acetileno foram pelos ares. Ao nosso Lager afluem todos os dias sem qualquer ordem os prisioneiros «recuperados» de todos os campos da Polónia oriental; uma minoria segue para o trabalho, a maioria segue directamente para Birkenau e para a Chaminé. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

Cecília (chimpanzé)


Cecília

05.04.19

cecilia2-800x746.jpg

Cecília (Argentina, 1998) é uma chimpanzé argentina.

Ela é notória pois foi o primeiro ser vivo não-humano a receber um habeas corpus, que autorizou a transferência do seu cativeiro em Mendoza, na Argentina, para o Brasil. Em 5 de abril de 2017, ela chegou em seu novo lar, na cidade de Sorocaba, para viver no Santuário de Primatas de Sorocaba.

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_(chimpanz%C3%A9)

 

A adaptação de Cecília foi muito boa e alguns meses depois de sua chegada já começou a conviver com um companheiro, o chimpanzé Marcelino.

Segundo a equipe do santuário que acompanha Cecília, ela está muito bem de saúde e se encontra totalmente adaptada à vida no Santuário (...)

“Ela se alimenta muito bem e gosta de vários tipos de frutas e folhas. Continua convivendo com seu companheiro Marcelino, que gosta muito dela e está sempre por perto. Em algumas ocasiões em que foi preciso separá-los momentaneamente, ambos ficaram preocupados um com o outro e Marcelino chega a vocalizar para chamá-la. 

 

in http://www.projetogap.org.br/noticia/gap-brasil-noticias-de-cecilia-a-primeira-chimpanze-a-desfrutar-do-direito-de-habeas-corpus-no-mundo/

 

 

o último


Cecília

04.04.19

Todo este aparato, este cerimonial meticuloso não são novos para nós. Desde que estou no campo, já tive de assistir a treze enforcamentos públicos; mas das outras vezes tratava-se de crimes comuns (...)

Hoje trata-se de outra coisa. 

No mês passado, um dos fornos crematórios de Birkenau foi mandado pelos ares. Nenhum de nós sabe (e talvez nunca ninguém venha a saber) exactamente como é que a iniciativa foi levada a cabo (...) 

O homem que irá morrer hoje diante de nós tomou parte de qualquer forma na revolta (...) todos ouvimos o grito do condenado; ele penetrou as espessas barreiras de inércia e de remissão, percutiu o centro vivo do homem dentro de cada um de nós:

- Kameraden, ich bin der Letzte! - (Camaradas, eu sou o último!)

Queria poder contar que entre nós, rebanho abjecto, uma voz se levantou, um murmúrio, um sinal de concordância. Mas nada aconteceu. Ficámos de pé, curvados e cinzentos, de cabeça baixa, e só descobrimos a cabeça quando o alemão o ordenou. O alçapão abriu-se, o corpo contorceu-se atrozmente; a banda recomeçou a tocar, e nós, de novo formados em coluna, desfilámos diante dos últimos estremecimentos do justiçado. 

Ao pé da forca, os SS olham com indiferença para nós que desfilamos: a sua obra está cumprida, e bem cumprida. Os russos podem chegar; agora, já não há homens fortes entre nós, o último pende por cima das nossas cabeças, e, para os outros, poucas forcas foram suficientes. Os russos podem chegar : apenas nos encontrarão a nós, os vergados, os apagados, dignos da morte inerme que nos espera. 

Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os Alemães conseguiram-no. Desfilamos dóceis, debaixo dos seus olhares: da nossa parte nada mais têm a recear: nem actos de revolta, nem palavras de desafio, nem sequer um olhar de condenação. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

foi verdade neste dia


Cecília

01.04.19

 

 

António Mário Lopes Pereira Viegas

(Santarém, 10 de novembro de 1948 — Lisboa, 1 de abril de 1996)

 

 

Desiludido e revoltado decide encetar a carreira mais fácil, menos efémera e com reforma assegurada: PRESIDENTE DA REPÚBLICA de Portugal, Açores, Madeira, Macau e Timor-Leste.
As Sondagens dão-lhe 93,4% de intenção de voto.
Não sabe o que quer para o País, mas o País sabe o que quer dele!
Não quer ser o Presidente de todos os Portugueses!
Tem como Lemas da campanha a frase de Eduardo de Filippo:
“Os Actores vivem a sério no Palco, o que os outros na Vida representam mal”; e “Nesta Pátria onde a Terra acaba e o Mário começa!”.
Slogans da campanha:


“VIEGAS AMIGO ! O MÁRIO ESTÁ CONTIGO !!”

“MÁRIO SÓ HÁ UM ! O VIEGAS E MAIS NENHUM !”

“O MÁRIO QUE SE LIXE ! O VIEGAS É QUE É FIXE !”

 

in https://cineclubesantarem.wordpress.com/2011/11/06/biografia-de-mario-viegas-por-ele-proprio/

 

 

tocadas pela música


Cecília

25.03.19

método de ensino da música criado pelo compositor e pedagogo húngaro Zoltán Kodály (1882-1967), o responsável por todas as crianças húngaras aprenderem música na escola desde o infantário até ao fim do liceu (antes da entrada do país na União Europeia em 2004, as aulas de música eram diárias em mais de uma centena de escolas). E fazem-no ainda hoje através do canto do cancioneiro de música erudita e música tradicional do seu país. Essa que Kodály recolheu com o seu amigo próximo, e também compositor, Béla Bartók (...)

de a educação musical ser para todos, e não para uma elite. O que me fez gostar imenso do sistema da Hungria foram frases como a de Kodály, em que ele diz que "só os melhores professores e só a melhor música deve ser dada às crianças" (...)

"Se quiser, tudo o que seja levar a música às crianças e tê-las envolvidas a fazer musica, pode ser Kodály. Mas também é Orff, Dalcroze, Willems [compositores e pedagogos]. Na maior parte das pedagogias os princípios são muito parecidos, depois há uma ou duas técnicas que variam, mas o que estas pessoas querem é que todas as crianças sejam tocadas pela música, e de uma forma que também desenvolvam capacidades individuais e sociais. É curioso porque a primeira tranche de pedagogos é quase da mesma idade. Têm as ideias do seu tempo. O que esta geração que sobreviveu às duas guerras queria era paz. Os escritos do Kodály e do Bártok falam imenso da fraternidade entre os povos" (...) E reforça: "Para acabar com estes ciclos de líderes da Coreia do Norte, ou dos Estados Unidos, ou de pessoas desvairadas que usam uma metralhadora e matam dezenas de pessoas. Acho que não aprenderam a gostar dos outros, e a ter um objetivo comum."

in https://www.dn.pt/artes/interior/kodaly-ensinar-musica-as-criancas-e-evitar-um-novo-kim-il-sung-8860801.html

 

 

Béla Bartók

( 25 de março, 1881 – 26 de setembro, 1945)

 

 

 

the enemy is invisible, but the battle is real


Cecília

21.03.19

Toda manhã na africa, a gazela acorda. Ela sabe que precisa correr mais rápido que o mais rápido dos leões para sobreviver.

Toda manhã um leão acorda. Ele sabe que precisa correr mais rapido que a mais lenta das gazelas senão morrerá de fome.

Não importa se você é um leão ou uma gazela.

Quando o sol nascer, comece a correr.

 

Provérbio africano

 

 

Mu kanganhisse wa minssava
hinkwayo, yo kala yinga xiyi
Hi madimoni yawena la makulo,
a nala anga
vonakali kambe a yimpi i ya ntiyisso
Unga lá ndzita sathana hi ku ungamu zandza
Unga landzi sathana hiku Unga mu navela
Mati yo daha
Mati yo Hu luta

 

 

Deceiver from all over the world,
Dashing on earth with his mighty demons,
The enemy is invisible, but the battle is real.
Do not go after the Devil, because you may like it,
Do not go after the Devil, because you may need
(Come) with your healing water, water that saves, water that cleans,
The spirit, mind and body

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D