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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

para te ver e para não chorar

 

 a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.

não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.

aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.

 

mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho

tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

 

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os

teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver

e para não chorar

 

 

José Luís Peixoto  - A Casa, a Escuridão (2002)

Quetzal Editores (2014)

 

dores e confusões

A par da angústia afectiva, existe uma angústia intelectiva,

Embora de sabor absolutamente desigual (...)

Com os dedos gelados, pego no giz.

Nesse gesto, começo a sair da confusão que não consola. 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

 

portugal fica para depois e os portugueses também

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

rugas (II)

Às crianças contamos histórias,

E limpeza, ordem e fala lhes pedimos. Aos adultos falamos

De afectos e vamos prevenindo que será uma desgraça.

Aos velhos apresentamos o resultado. 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

 

 

palavra a existências demasiado ocupadas em existir

   

 

escritor negro 8.jpg

 

 

créditos imagem: http://www.ivettedurancalderon.com/articulos/Reportajes/Escritores-fantasmas-escritores-por-encargo-escritores-sin-firma-escritores-negros-o-negros-de-la-literatura-quienes-son-a-que-se-dedican.../213

 

 

 

Declara-se indignado por alguém poder fazer uso indevido do meu nome, e pronto a ajudar-me a acabar com a fraude, mas acrescenta que afinal de contas não há motivo para me escandalizar, porque na sua opinião a literatura só é válida pelo seu poder de mistificação, tem na mistificação a sua verdade; portanto uma falsificação, enquanto mistificação de uma mistificação, equivale a uma verdade elevada à segunda potência. 

    Continuou a expor-me as suas teorias, segundo as quais o autor de cada livro é uma personagem fictícia que o autor existente inventa para a tornar o autor das suas ficções. Muitas das suas afirmações até as compartilho, mas evitei dar-lho a entender. Diz que se interessa por mim sobretudo por duas razões: primeiro, porque sou um autor falsificável; segundo, porque pensa que tenho os dotes necessários para ser um grande falsificador, para criar apócrifos perfeitos. Poderei pois encarnar o que para ele é o autor ideal, ou seja, o autor que se dissolve na nuvem de ficções recobre o mundo com o seu espesso invólucro. E como o artifício para ele é a verdadeira substância de tudo, o autor que inventar um sistema de artifícios perfeito conseguirá identificar-se com o todo. (...)

    Pensando bem, este escritor total poderia ser uma pessoa muito modesta: o que na América se chama o ghost-writer, o escritor fantasma, uma profissão de reconhecida utilidade embora não de muito prestígio: o anónimo redactor que dá forma de livro ao que têm para contar outras pessoas que não sabem ou não têm tempo para escrever, a mão escrevedora que dá a palavra a existências demasiado ocupadas em existir. Se calhar a minha verdadeira vocação era essa e falhei-a. Podia ter multiplicado os meus eus, anexar eus alheios, fingir os eus mais opostos a mim e mais opostos entre si. 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

revolução e novos tempos

Com a revolução há pessoas que mudam tanto que ficam irreconhecíveis e pessoas que se sentem iguais a si mesmas ainda mais do que antes. Deve ser o sinal de que já estão prontas para os novos tempos. 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

De maneira que quem quiser, vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui.

 

 

 

engrenagens

Berlín (...) Deambulando por aquella ciudad a un tiempo moderna y llena de cicatrices del pasado, había asumido que era posible dejar atrás los destrozos, no olvidándolos sino aceptándolos (...) Pero resultaba más fácil decirlo que vivirlo y los seres humanos disponían de menos tiempo que las ciudades para volver a edificarse a sí mismos. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017) 

 

 

 

 Ôôô, boi

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

(...)

 

"Admirável Gado Novo"
Zé Ramalho

 

cronometragens

o sobrinho do meu marido para o médico

- No meio de frases acertadas vai dizendo tolices

(...)

o médico para o sobrinho do meu marido

- O nosso mal é durarmos demais 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 Jacek Yerka

Walking lesson

 

serviço de entregas

- Tenho um sonho para te entregar - anunciou-lhe

Seu futurante.

- Agora, não tenho tempo. Deixa-o aí. 

- Não é um recado. É um sonho. 

- Deixa-o aí, já disse. Agora, tenho de ir. Estou atrasada. 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

Marc Chagall

Le Rêve (1927)

 

 

david

David-Mourão Ferreira.jpg

 

E por vezes

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
... nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

David Mourão-Ferreira

( 24 de fevereiro, 1927 — 16 de junho, 1996)