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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

mar

Um certo dia, chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar. 

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito. Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas. 

A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o Tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime. 

- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!

 

 

Mia Couto (texto) e Danuta Wojciechowska (ilustração) – O Beijo Da Palavrinha  (2008)
LEYA | CEM (março 2016)

 

 

 

 

 

 

 

portugal fica para depois e os portugueses também

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

marear

Resta-nos ser mareantes e marear (...) Em «nós»

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

Somos a fachada de uma coisa morta
E a vida como que a bater à nossa porta

Quando formos velhos
Se um dia formos velhos
Quem irá querer saber quem tinha razão
De olhos na falésia
Espera pelo vento
Ele dá-te a direcção


Ninguém é quem queria ser
Eu queria ser ninguém


A idade é oca e não pode ser motivo
Estás a ver o mundo feito um velho arquivo

Eu caminho e canto pela estrada fora
E o que era mentira pode ser verdade agora
Se o cifrão sustenta a química da vida
Porque tens ainda medo de morrer
Faltará dinheiro
Faltará cultura
Faltará procura dentro do teu ser


Ninguém é quem queria ser
Eu queria ser ninguém

 

Diz-me se ainda esperas encontrar o sentido
Mesmo sendo avesso a vê-lo em ti vestido
Não tens de olhar sem gosto
Nem de gostar sem ver

Ninguém é quem queria ser
Ninguém é quem queria ser
Eu queria ser ninguém

 

 Manuel Cruz - Ninguém É Quem Queria Ser

 

serviço de entregas

- Tenho um sonho para te entregar - anunciou-lhe

Seu futurante.

- Agora, não tenho tempo. Deixa-o aí. 

- Não é um recado. É um sonho. 

- Deixa-o aí, já disse. Agora, tenho de ir. Estou atrasada. 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

Marc Chagall

Le Rêve (1927)

 

 

Rio de Janeiro, Lisboa, Luanda, Agronomia e Silvicultura

Talvez seja necessário retomar o sonho. Há muitos anos que tenho uma ideia para um livro sobre sonhos. Há uns dias, li uma entrevista com um meganeurologista brasileiro, professor na universidade em Natal, e fiquei muito impressionado porque ele falava na necessidade de recuperar os sonhos. Durante milénios, estes foram fundamentais para a sobrevivência, os homens levavam o sonho muito a sério. Ele dizia que, se um caçador sonhasse que naquele lago onde ele ia beber estava um tigre, ia tomar mais cuidado. Muito recentemente na História da Humanidade, o sonho deixou de ter importância, as pessoas substituíram o sonho por sonhos já construídos, como a televisão - adormecem a ver tv, sonham com as coisas que veem lá... O sonho merece mais atenção.

in http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2013-06-15-Jose-Eduardo-Agualusa-O-sonho-merece-mais-atencao-1

 

José Eduardo Agualusa

 (13 de Dezembro, 1960)