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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

maciça inconveniência

Este livro cínico e despudorado revela uma ousadia que bem se pode qualificar de desafio às Autoridades, pois que abertamente as ataca, e apresenta textos em que todos os assuntos indesejáveis são largamente exibidos.

Assim, faz abertamente propaganda comunista, achincalha com diatribes dissolventes a Família, a ordem social e a religião católica, é escrito com linguagem desbragada, tem passagens da mais baixa obscenidade, ilustrações imorais, e, tão maciça é a sua inconveniência, que ocioso se torna fazer citações.

Acresce que anuncia as obras já proibidas do mesmo autor e a próxima continuação de uma delas.

Julgo portanto que este livro não pode deixar de ser proibido de circular no País.

 

O leitor:

José de Sousa Chaves

Maj.

 

 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões  (1962)

Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

 

retângulo dos pequenitos

Numa esplendorosa manhã de Verão, sob aquele sol com que Deus brinda o povo português com a ingénua intenção de o distrair de tanta miséria

 

 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões  (1962)

Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

 

 

 

dias a sim

 

a crítica (...) expressa numa ausência de elogios

 

 

há pessoas que necessitam de um baloiço para o raciocínio

 

 

sempre me fizeram sonhar os comboios

 

 

 

me esqueci da professora mas as vírgulas ficaram, vírgula, segundo ela eram sempre úteis mesmo ao conversar

- Com uma pausazinha na altura certa fica tudo mais claro

 

 

 

muito se morre em Portugal de facto

 

 

o avô do meu marido a abrir a tampa do relógio do colete

- Nove horas

e a fechá-la num estalinho que lhe agradava, se lho emprestasse abria e fechava-o duzentas vezes porque lhe apetecia comer aquele som

 

 

 

apesar de estarmos no outono e uma chuvinha parva, dessa que não molha nem se sente, nos convida ao suicídio apenas, a vizinha triste, a minha mãe triste por contágio que a infelicidade pega-se

 

 

 

o som do pêndulo do relógio da sala, de dia quase mudo e à noite enorme porque no escuro tudo aumenta

 

 

 

não se falavam há anos que o tempo separa as pessoas e depois o esquecimento começa o seu trabalho

 

 

 

- Tenho cinquenta e nove anos caramba

tombaram-lhe como tijolos os cinquenta e nove anos em cima

 

 

 

até um grilo uma tarde na bancada que expulsei com um piparote para o quintal onde mais tarde ou mais cedo uma lagartixa o arrastaria por uma das patas na direcção de uma falha de muro, tudo come tudo neste mundo, é assim, até o mar devagarinho vai comendo os penedos, a nós come-nos a idade

 

 

 

por ser vasta era mais paciente, sempre nervosas, as magras

 

 

 

porque na vida não existem certezas e até Deus muda de humor

 

 

as pessoas são tantas dentro das pessoas que são

 

 

 

adivinhava que me miravam porque um peso em mim, sentimos sempre um peso quando nos olham

 

 

espanta-me que haja pessoas ingénuas capazes de acreditarem nas mentiras das ondas

 

 

 

há coisas que nos agradam ao princípio e o tempo torna sinistras

 

 

que pena as pessoas não se aceitarem como são

 

 

 

e eu calada a engolir-me a mim mesma, como é complicado engolirmo-nos a nós mesmos

 

 

 

derivado ao sol, levo esta luz, esta felicidade, esta paz (...) até nos dissolvermos na luz

 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

ta(ma)ncos

Troc…  troc…  troc…  troc…

ligeirinhos, ligeirinhos,

troc…  troc…  troc…  troc…

vão cantando os tamanquinhos…

 

Madrugada.   Troc…  troc… 

pelas portas dos vizinhos

vão batendo, Troc…  troc… 

vão cantando os tamanquinhos…

 

Chove.  Troc…  troc…  troc… 

no silêncio dos caminhos

alagados, troc…  troc…

vão cantando os tamanquinhos…

 

E até mesmo, troc…  troc…

os que têm sedas e arminhos,

sonham, troc…  troc…  troc…

com seu par de tamanquinhos…

 

 

Cecília Meireles, A canção dos Tamanquinhos

 

 

 

 

 

 

portugal fica para depois e os portugueses também

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

madonna em lisboa *

porque os Portugueses nunca se denunciam na maneira de melhor servir a sua terra

 

almada - Lx. Abril 1922

 

 

Ainda não vi em Lisboa o Fassbender, a Madonna, o Cantona, muito menos a Belluci. Mas vi o Almada Negreiros na Gulbenkian.

@JoseDePina

José de Pina@JoseDePina

 

 * http://museudearteantiga.pt/exposicoes/madonna

ambivalência atávica

Sobre o acaso, a necessidade e o mérito 

1. Não sei se a natureza lusitana integra uma "cultura do fatalismo", mas sei sabemos todos que abundam, na história do pensamento e das outras artes nacionais, registos individuais e colectivos exemplares de um pendor generalizado e ambivalente: ora para a contemplação da vida como sucessão de fatalismos irremediáveis; ora como convocação para o afrontamento de desafios irrenunciáveis. 

Entre os polos desta ambivalência atávica se desenvolvem os comportamentos característicos da nossa matriz genética: a rendição ao desalento alimentado pela "força do destino", ou a motivação de contornos quase místicos (ou míticos?), que é fonte do potencial criativo, da determinação e da coragem para enfrentar os desafios mais exigentes. Dito de outro modo: a submissão às arbitrariedades do destino, que espelham as virtudes do acaso; ou o engenho e a determinação, que superam as carências de que é feita a necessidade. 

2. Tenho para mim que esta natureza "bipolar" do ser português é a chave para a compreensão de algumas singularidades do nosso comportamento histórico; mas é ainda, e sobretudo, o modelo a partir do qual poderia ser mais enriquecedor o exercício de pensarmos o nosso presente para melhor projectarmos o nosso futuro. 

Acontece que o raciocínio estratégico não é uma prática habitual, nem sequer ocasional, da nossa natureza. Somos muito melhores cronistas (ralatores do que foi) e demagogos (especulando acerca do que, e de como, outros deveriam ter feito) do que actores rsponsáveis pela construção, hoje, do futuro que é já amanhã - coisa entretanto bem diferente do que é sermos visionários: pecadilho mais oriundo da paixão que da lucidez. 

 

 

José de Oliveira Guia - Presidente da Direção da ANEME

in Editorial CINFormando nº 61 - 1º trimestre de 2017 

 

 

 

dia internacional da língua materna

Desde 1999 que a UNESCO assinala o 21 de fevereiro como o “Dia Internacional da Língua Materna”, tendo o mesmo sido reconhecido formalmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que considerou 2008 como o Ano Internacional da Língua, com o intuito de promover o multilinguismo e a diversidade linguística e cultural

 

in http://portuguese.dlc.pt/

 

 

 

Vim do país da ternura
Orvalhado p'la maré
Trago mirras trago incenso
Trago no peito em suspenso
O futuro que ainda não há
O futuro que ainda não é

Trago sonhos da distância
Doutro sentir e outra gente
Sentada p'ra lá do mar
Gente de paz e saber
Tão igual e tão diferente
Tão urgente de inventar

Nesse sonho me anuncio
Desse sonho me sustento
Mantenho todo o que disse
Mesmo se hoje já sinto
Menos forças menos alento

Como dardos como setas
Privilégio dos poetas
Lanço palavras ao vento

 

Pedro Barroso - Palavras ao Vento

 

invasão indonésia de Timor-Leste

7 de Dezembro, 1975 - 1978

 

Em Agosto de 1975, a embaixada dos Estados Unidos em Jacarta enviou um documento "secreto" ao Departamento de Estado a relatar um encontro entre o embaixador dos Estados Unidos e o tenente general Yoga Sugomo, dos serviços secretos indonésios.

Neste encontro, Yoga delineou a situação em Timor-Leste e expressou frustração por não conseguir clarificar "o que o actual Governo português vê como as suas obrigações e responsabilidades no Timor português ou como é que os portugueses tencionam cumprir as suas responsabilidades".

(...)

Quando informado pelo embaixador norte-americano de que "os socialistas portugueses tendem a manter laços ideológicos com os socialistas europeus e não com Moscovo" e sobre como as "tendências" em Portugal eram "vistas como não comunistas e de dificuldades para os comunistas, o general Yoga repetiu meramente que, pelo que sabia, os "socialistas eram pró-Moscovo e os comunistas eram pró-chineses".

Interrogado pelo general indonésio sobre qual a posição dos Estados Unidos para com a situação em Timor-Leste, o embaixador respondeu que, "em primeiro lugar, o Governo dos Estados Unidos não está ansioso por se envolver de qualquer modo no Timor português", sendo o "principal interesse norte-americano o impacto de qualquer mudança no Timor português nas relações dos Estados Unidos com a Indonésia".

"Em segundo lugar, o Governo dos Estados Unidos não tem qualquer objecção à fusão de Timor português com a Indonésia, assumindo que é esse o desejo da população", acrescentou o diplomata, citado no documento.

O embaixador disse que poderia "haver problemas" se houver "uma tomada pela força" avisando que isso poderia pôr em perigo a ajuda militar à Indonésia.

No encontro, o general Yoga disse não acreditar que a fusão de Timor-Leste com a Indonésia pudesse angariar mais apoio entre a população timorense porque "só a Apodeti (Associação Popular Democrática de Timor) é que apoia isso".


A 5 de Dezembro de 1975, nas vésperas de uma visita do então Presidente Gerald Ford a Jacarta, o Departamento de Estado enviou uma nota "secreta" a Henry Kissinger a mencionar a informação sobre a decisão da Indonésia de invadir Timor entre "6 e 8 de Dezembro".

O documento sugere que - embora seja de esperar que a Indonésia não tome qualquer acção antes da partida de Ford de Jacarta, para evitar um "sério embaraço" - seja enviada uma "mensagem urgente" às autoridades indonésias "pedindo que os indonésios não façam qualquer anúncio e não tomem medidas militares até bem depois da partida do Presidente de Jacarta".

Documentos preparados por Kissinger para o Presidente Ford, para a sua visita a Jacarta, indicam, contudo que para Washington Timor-Leste não era uma prioridade.

 

in https://www.publico.pt/2005/11/29/mundo/noticia/portugal-disse-aos-eua-que-nao-se-oporia-a-invasao-de-timorleste-1240452

 

 

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Balibó, lugar onde foram assassinados os jornalistas australianos que faziam a cobertura das primeiras incursões das forças indonésias em Timor-Leste

Data: 1975

 

TIMOR LESTE MEMÓRIA