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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

mar

Um certo dia, chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar. 

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito. Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas. 

A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o Tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime. 

- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!

 

 

Mia Couto (texto) e Danuta Wojciechowska (ilustração) – O Beijo Da Palavrinha  (2008)
LEYA | CEM (março 2016)

 

 

 

 

 

 

 

antena afinada

Se quer ver o progresso duma cidade, vá aos bairros pobres - mas se quer ver a segurança de uma época, vá espreitar pelas grades dos bairros opulentos. Pobre duma terra quando começa a ser abandonada pelos ricos» - disse o jornalista. «O burguês rico é o único da espécie humana que tem a antena afinada para prever o derramamento de sangue sobre uma terra». 

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

sanções e sermões

"(...) porque ele se tinha recusado nas suas instâncias senis a tomar qualquer determinação sobre o destino da pátria depois dele (...) e, no entanto, era tão lúcido e teimoso que não tínhamos conseguido nada dele (...) pois dizia que pensarmos no mundo depois de nós próprios era uma coisa tão nefasta como a própria morte que catano, se ao fim e ao cabo, quando eu morrer, hão-de voltar os políticos para repartir esta merda como no tempo dos godos, vocês vão ver, dizia, hão-de voltar a repartir tudo entre os padres, os gringos, e os ricos, e nada para os pobres, claro, porque esses hão-de estar sempre tão fodidos que no dia em que a merda tiver algum valor os pobres hão-de nascer sem cu (...)"

 

 

Gabriel García Márquez  – O Outono do Patriarca (1975)

 

Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

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