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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

então diante de mim

Eu perdi a vez de ser simples, 

perdi a vez feliz de ignorar,

perdi a sábia ignorância,

perdi a graça de não saber.

Deixei passar a vez de ir na corrente 

e de ser como toda a gente 

às carambolas da sorte. 

 

Eu perdi a vez de ser analfabeto,

esse segredo para não ser doutor 

e para não saber também

o que as letras sabem 

do mundo e de mim. 

 

(...) ser ignorante não dói 

não dói tanto como não ignorar!

 

Eu deixei passar a vez de ir na onda 

e de ter o entendimento repartido pelos mais, 

começaram por ensinar-me as letras 

e as letras acabaram por dar comigo 

e eu vi-me então diante de mim 

despegado da onda e da corrente 

diferente de toda a gente 

independente da multidão. 

 

 

José de Almada Negreiros, SEGUNDA MANHàin AS QUATRO MANHÃS
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

 

 

 

Edgar Cardoso: engenheiro na verdadeira acepção da palavra

 Edgar António de Mesquita Cardoso

(11 de Maio, 1913 — 5 de Julho, 2000)

 

 

Considerado um dos maiores engenheiros portugueses do século XX, grande parte das pessoas que conheceram Edgar Cardoso lembram-no como um homem de grande tenacidade e capacidade inventiva. Com um espírito aberto, o “engenheiro das pontes”, como ficou conhecido, procurou sempre a inovação, tentando ultrapassar tudo aquilo que já estava feito. “Eu não faço uma ponte igual à outra”, dizia, “porque cada obra é um momento de inovação e de busca de novas soluções mais racionais e económicas”.
Uma das características mais marcantes da sua obra é talvez a recusa das soluções padrão, fáceis e já testadas. Edgar Cardoso procurava sobretudo a inovação, chegando a inventar ou a adaptar aparelhos e objectos para fabricar os modelos reduzidos com que trabalhava. Ele próprio afirmava: “o que não faço com a cabeça faço com as mãos”.(...)

Para uns, um homem de feitio difícil e intempestivo, por vezes arrogante. Para outros, essa seria talvez a única forma de fazer frente a invejas e ao conservadorismo com que sempre se deparou.
Mas Edgar Cardoso foi sobretudo um homem que esteve à frente do seu tempo, tornando-se por isso mesmo alvo fácil da incompreensão de muitos. “Eu inovei em todas as obras e, por isso, nunca fui compreendido”, afirmava

 

in https://jpn.up.pt/2004/03/25/engenhocas-de-edgar-cardoso-na-alfandega/

 

 

 

 

 

 

 

 

bücherverbrennung

Bücherverbrennung é um termo alemão que significa queima de livros. É, muitas vezes, associado à ação propagandística dos nazistas, organizada entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, poucos meses depois da chegada ao poder de Adolf Hitler. Em várias cidades alemãs, foram organizadas, nesta data, queimas de livros em praças públicas, com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades.(...)

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Queima_de_livros_na_Alemanha_Nazista

 

 

Entre os livros queimados pelos nazistas estavam obras de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Kästner (que, anônimo, assistia a tudo), Robert Musil, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Nelly Sachs, Franz Werfel, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx e Heinrich Heine. (...) 

A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. A burguesia tomou distância, passando a responsabilidade aos universitários. Também os outros países acompanharam a destruição à distância, chegando a minimizar a queima como resultado do “fanatismo estudantil”. (...)

 

Certa vez, um dos queimados, Heinrich Heine (1797-1856), escreveu: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”

 

in http://miltonribeiro.sul21.com.br/2014/05/10/hoje-faz-aniversario-a-queima-de-livros-a-bucherverbrennung-veja-fotos-e-filmes/

 

 

 

eu amo a lua do lado que eu nunca vi

Canção da Saudade 

 

    Se eu fosse cego amava toda a gente. 

    Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade. 

    Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste. 

    Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos. 

    Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. 

    Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. 

    Eu amo os cemitérios - as lajens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim. 

    Eu amo a noite, porque na luz fugidia as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. 

    Se eu fosse cego amava toda a gente. 

 

 

José de Almada Negreiros

 

 

 

Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

engrenagens

Berlín (...) Deambulando por aquella ciudad a un tiempo moderna y llena de cicatrices del pasado, había asumido que era posible dejar atrás los destrozos, no olvidándolos sino aceptándolos (...) Pero resultaba más fácil decirlo que vivirlo y los seres humanos disponían de menos tiempo que las ciudades para volver a edificarse a sí mismos. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017) 

 

 

 

 Ôôô, boi

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

(...)

 

"Admirável Gado Novo"
Zé Ramalho

 

as pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes

De matar galinhas

Porém são capazes

De comer galinhas

 

O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo

Aquela roupa

Que depois da chuva secou sobre o corpo

Porque não tinham outra

O dinheiro cheira a pobre e cheira

A roupa

Que depois do suor não foi lavada

Porque não tinham outra

 

" Ganharás o pão com o suor do teu rosto"

Assim nos foi imposto

E não:

" Com o suor dos outros ganharás o pão".

 

Ó vendilhões do templo

Ó construtores

Das grandes estátuas balofas e pesadas

Ó cheios de devoção e de proveito

 

Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem. 

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen in Livro Sexto