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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

o melhor que pudermos

Temos de aceitar o que a vida nos dá e temos de tentar fazer com ela o melhor que pudermos. Era o que o velho dele lhe dizia.

 

Charles Bukowski in Noite Fria - Música para Água Ardente (1983)
Antígona (2015)

 

 

 

 

sagradas famílias

e o meu pai, descalço, a exilar-se no sofá da sala de membros encolhidos como um gafanhoto numa haste a protestar

- Quase não há dia que não fique para aqui senhores 

a coçar a nuca com as patas de cima, a minha mãe 

- Hoje estás impossível

e até o sol me trazer de novo mais nada, apenas resmungos parecidos com um tractor em ponto morto ele que de manhã em calças de pijama se barbeava a cantarolar, de bocadinho de algodão colado à bochecha porque se cortou, por baixo do algodão um traço vermelho que teimava em não secar e a minha mãe na cozinha a aquecer o leite de costas para toda a gente, abrindo e fechando gavetas com força 

- Onde pára o teu babete? 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

 

1 de outubro, dia mundial da música

Reunimo-nos para ensaiar um programa de quartetos do século xx - Bartók, Chostakovitch, Britten - , mas tudo isso ficou para trás. Há meia hora que discutimos se havemos de aceitar ou não a proposta da Stratus.

Helen não tira os olhos de Billy. Billy começa a sentir-se mal. O problema para o qual Billy acabou de chamar a atenção é fácil de constatar e difícil de resolver. Para a Arte da Fuga ser interpretada por um quarteto de cordas na prevista chave de ré menor - porque Billy não põe outra hipótese -, algumas das passagens da segunda voz mais alta (tocada por mim) ficarão abaixo do compasso do violino. Posso tocá-las numa viola normal, o que não põe problemas de maior. Mas, além disso, uma série de passagens para a terceira voz mais alta (tocada por Helen) fica uma quarta abaixo do compasso da viola. E aí é que está o busílis.

- Não posso afinar uma quarta abaixo, Billy. Deixa-te de idiotices. Se insistes na mesma chave, teremos simplesmente de transpor fragmentos para uma oitava acima.

- Não - diz o inflexível Billy. - Já falámos disto tudo. Não é uma opção. Isto tem que ficar bem feito.

- Então em que é que ficamos? - pergunta Helen desesperada.

- Bem - diz Billy, olhando para ninguém em particular -, podíamos arranjar um violoncelista para estes contrapontos específicos e tu fazias o resto.

Caímos todos em cima do Billy.

- Nem pensar - digo eu.

- Ridículo - diz Piers.

- Estás doido? - pergunta Hellen.

O filho de Billy, Jango, está a brincar sozinho num canto da sala de Helen. Sente que o pai está a ser atacado e aproxima-se. Volta e meia a mulher de Billy, Lydia, que é fotógrafa por conta própria, deixa Jango com ele e quando é dia de ensaio Billy e nós todos arranjamo-nos como podemos. Jango é um miúdo giro e muito musical. Billy diz que quando está a ensaiar Jango fica a ouvi-lo horas sem fim e às vezes põe-se a dançar. Mas nunca nos perturba durante os ensaios, apesar das dissonâncias do nosso século.

Mas agora Jango fita-nos, preocupado.

- Upa! - diz Billy, pegando nele e montando-o no seu joelho (...)

- E se a gente.... - sugere Billy, hesitante. - Antes do ensaio, quero dizer...

- Antes do ensaio o quê? - interrompe Piers, exasperado.

- Prometi ao Jango que tocávamos Bach se ele se portasse bem.

- Pelo amor de Deus - diz Piers (...)

- E porque não? - diz Helen, para espanto de toda a gente. - Só um bocadinho.

De maneira que afino rapidamente e tocamos o primeiro contraponto da Arte da Fuga (...) Billy tem os olhos postos no filho, sentado à frente dele, de cabeça inclinada. Que pensa ele disto tudo, com a sua tenra idade, não sei, mas pela expressão que tem no rosto é óbvio que está a gostar.

 

 

Vikram Seth – Uma música constante (1999)

Impresso e encadernado para Círculo de Leitores por RODESA (outubro, 2001)

 

 

 

 

dias a sim

 

a crítica (...) expressa numa ausência de elogios

 

 

há pessoas que necessitam de um baloiço para o raciocínio

 

 

sempre me fizeram sonhar os comboios

 

 

 

me esqueci da professora mas as vírgulas ficaram, vírgula, segundo ela eram sempre úteis mesmo ao conversar

- Com uma pausazinha na altura certa fica tudo mais claro

 

 

 

muito se morre em Portugal de facto

 

 

o avô do meu marido a abrir a tampa do relógio do colete

- Nove horas

e a fechá-la num estalinho que lhe agradava, se lho emprestasse abria e fechava-o duzentas vezes porque lhe apetecia comer aquele som

 

 

 

apesar de estarmos no outono e uma chuvinha parva, dessa que não molha nem se sente, nos convida ao suicídio apenas, a vizinha triste, a minha mãe triste por contágio que a infelicidade pega-se

 

 

 

o som do pêndulo do relógio da sala, de dia quase mudo e à noite enorme porque no escuro tudo aumenta

 

 

 

não se falavam há anos que o tempo separa as pessoas e depois o esquecimento começa o seu trabalho

 

 

 

- Tenho cinquenta e nove anos caramba

tombaram-lhe como tijolos os cinquenta e nove anos em cima

 

 

 

até um grilo uma tarde na bancada que expulsei com um piparote para o quintal onde mais tarde ou mais cedo uma lagartixa o arrastaria por uma das patas na direcção de uma falha de muro, tudo come tudo neste mundo, é assim, até o mar devagarinho vai comendo os penedos, a nós come-nos a idade

 

 

 

por ser vasta era mais paciente, sempre nervosas, as magras

 

 

 

porque na vida não existem certezas e até Deus muda de humor

 

 

as pessoas são tantas dentro das pessoas que são

 

 

 

adivinhava que me miravam porque um peso em mim, sentimos sempre um peso quando nos olham

 

 

espanta-me que haja pessoas ingénuas capazes de acreditarem nas mentiras das ondas

 

 

 

há coisas que nos agradam ao princípio e o tempo torna sinistras

 

 

que pena as pessoas não se aceitarem como são

 

 

 

e eu calada a engolir-me a mim mesma, como é complicado engolirmo-nos a nós mesmos

 

 

 

derivado ao sol, levo esta luz, esta felicidade, esta paz (...) até nos dissolvermos na luz

 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

reverso da data

(...) não devemos dar por sanado o que

Não tem remédio. E devemos dar por evidente

O que não se sabe?

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

Tout le monde sait comment on fait les bébés
Mais personne sait comment on fait des papas

 

"Papaoutai"
Stromae

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