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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

ler significa despir-se

 

 

Para esta mulher (...) ler significa despir-se de todas as intenções e de todos os preconceitos, para ficar pronta a acolher uma voz que se faz ouvir quando menos se espera, uma voz que não se sabe donde vem, de um lugar qualquer para além do livro, para além do autor, para além das convenções da escrita: do não dito, do que o mundo ainda não disse de si e ainda não tem palavras para dizer.

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

musas

No hay edad para empezar a ejercer de musa 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

não parar: escutar e seguir

era una mujer a quien apetecía escuchar y seguir, de un carisma que nunca resultaba agresivo 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

batacazos

Se trata de una intriga amorosa bastante peculiar entre un bibliotecario y una joven de cuerpo espectacular. Un cuerpo del que esta es víctima, por decirlo de alguna manera, como si la belleza estuviera maldita. Vida, que así se llama la protagonista, cuenta que un hombre se mató al volante por culpa suya; subyugado por aquella transeúnte pasmosa, sencillamente se olvidó de que iba conduciendo. Tras el batacazo, la joven echó a correr hacia el coche. Al conductor, ensangrentado y agonizante, solo le dio tiempo a decir, antes de morir: «Qué guapa es usted, señorita» 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)

Titulo original: Le Mystère Henri Pick

Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

 

saudade

A mulher não é só casa

mulher-loiça, mulher – cama

ela é também mulher-asa,

mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer

dessa antiga condição

a mulher soube trazer

a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar

e ordenado à cozinha

e impôs a trabalhar

a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto

mas também de construção

para um filho crescer farto

para um filho crescer são

A posse vai-se acabar

no tempo da liberdade

o que importa é saber estar

juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem

naquilo que a gente quer

é igual dizer meu homem

ou dizer minha mulher

 

José Carlos Pereira Ary dos Santos

(7 de Dezembro, 1937 — 18 de Janeiro, 1984)

 

 

 

 

 

 

eterno Zeca sempre

"… de facto, os jovens por vezes não se destacam do sistema. Limitam-se a constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são eles que a têm de modificar. Se for preciso partir a loiça, escavacar tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente, eles que o façam. Partam mesmo a loiça. Mas são eles que o têm de fazer. Não são os homens da minha geração. Os homens e as mulheres. Aliás, sem as mulheres não se pode fazer nada. Pressinto que, de facto, as mulheres vão ter um papel muito importante na futura sociedade, contanto que não tentem imitar os homens no que eles têm de mau…"

 

 

 

 

José Afonso 

( 2 de agosto, 1929 - 23 de fevereiro, 1987)

 

 

 

 

fonte: http://www.aja.pt/eu-dizia/

 

 

 

armamento e munições

"Tinha duas obrigações a cumprir: a discrição, que devia elevar-se ao nível da invisibilidade, e o número de reparações a efectuar (...). 

O Champ-de-Mars era um terreno de caça excelente. Podiam ali encontrar-se, a qualquer hora do dia ou da noite, casais de apaixonados de todas as nacionalidades. 

Decidi observar antes de agir, registando tudo num bloco-notas. 

Durante a elaboração deste inventário de reparações possíveis, apercebi-me de que os sentimentos exerciam sobre mim uma atracção irresistível, pelo que decidi, com o acordo dos meus superiores hierárquicos, especializar-me na reparação da tristeza. 

Graças a esta escolha, a minha viagem à capital tornou-se uma sorte grande: os problemas amorosos contemporâneos são apaixonantes e, embora isso possa denotar um certo snobismo da minha parte, a verdade é que estava radiante por fazer o meu estágio no centro do problema, na confluência do imaginário colectivo e dos mitos contemporâneos, na capital alegórica do Amor, Paris. 

Era formidável verificar até que ponto os homens e as mulheres comunicavam mal e tinham deixado de se ouvir a si próprios. 

Os casos de tristeza mais frequentes deviam-se a variados estados de solidão profunda e infinita. O medo, a incapacidade de concretizar aquilo que se imagina, de transformar os desejos em faculdades através da força de vontade pareceram-se ser sintomas muito correntes. 

Vigilante e curioso, ia anotando tudo no meu bloco, desde a mais vil das traições à mais banal das frustrações. Nenhum problema de coração deve ser descurado; para se desempenhar funções como as minhas, é importante estar-se consciente de que a infelicidade é relativa. Um arranhão na alma pode ser tão doloroso e perigoso como uma ferida grave. Certos desgostos amorosos podem destruir uma vida e, em contrapartida, alguns verdadeiros dramas podem construir uma existência. 

A verdade é que, à força de tanto observar, elaborei de forma bastante rápida as bases teóricas da técnica que ia adoptar: conseguir alterar a percepção da vida por parte do sujeito sofredor. 

A partir do momento em que vemos a vida de outra maneira, é-nos possível transformar a realidade.

Isto pode parecer simplista, mas funciona sempre, basta que tenhamos coragem.

Infelizmente, os humanos não desenvolveram essa arma (....)."

 

 

Hélène Guétary  – O Homenzinho Azul (1999 by Librairie Arthème Fayard)

Tradução de Fernanda Soares 

 

Printer Portuguesa para Círculo de Leitores (Dezembro,2001)

 

 

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