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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

não és bom, nem és mau


Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando num vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

 

Olavo Bilac

 

 

post mortem

 

... em descansos breves do trabalho, e podiam tão-só rir. Estavam vivos e juntos, pensavam. Estavam vivos e juntos. A felicidade poderia ser aquilo. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 

 

27.11.2017

B.

03.11.1982 - 27.11.2017

 

  

A Canção do Suicida


Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.

 

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"

 

 

sair

Piccadilly Circus (1912)

Charles Ginner 

 

 

 

 

- Caralho - disse ele -, estou farto de pintar. Vamos sair. Estou cansado do fedor dos óleos, estou cansado de ser grande. Estou cansado de esperar pela morte. Vamos sair. 

 

 

Charles Bukowski in Menos delicado do que o gafanhoto - Música para Água Ardente (1983)
Antígona (2015)

 

 

arte do desapego

 

 

 

Declarou: saí à floresta para te matar. Arrebatado por esse sentimento, saí. Mas o juízo sobrevém à raiva. Esperei o suficiente para que me rendesse à amenidade de sempre ou à decrepitude. Foi o melhor. A tua vida morre de qualquer maneira. E eu guardo-me de remorsos ou cansaço. Itaro novamente lhe perguntou: de verdade que outro me tocou na floresta. E o oleiro respondeu: de verdade. Podes partir com o meu ódio mas sem a minha condenação. Haverás de condenar-te sozinho. Porco. 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

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