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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

mar

Um certo dia, chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar. 

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito. Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas. 

A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o Tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime. 

- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!

 

 

Mia Couto (texto) e Danuta Wojciechowska (ilustração) – O Beijo Da Palavrinha  (2008)
LEYA | CEM (março 2016)

 

 

 

 

 

 

 

(...)

Diz o meu nome 

pronuncia-o 

como se as sílabas te queimassem 

                                                        [ os lábios 

sopra-o com suavidade 

de uma confidência 

para que o escuro apeteça 

para que se desatem os teus cabelos 

para que aconteça 

 

Porque eu cresço para ti 

sou eu dentro de ti 

que bebe a última gota 

e te conduzo a um lugar 

sem tempo nem contorno 

 

Porque apenas para os teus olhos 

sou gesto e cor 

e dentro de ti 

me recolho ferido 

exausto dos combates 

em que a mim próprio me venci 

 

Porque a minha mão infatigável 

procura o interior e o avesso 

da aparência 

porque o tempo em que vivo 

morre de ser ontem 

e é urgente inventar 

outra maneira de navegar 

outro rumo outro pulsar

para dar esperança aos portos 

que aguardam pensativos 

 

No húmido centro da noite 

diz o meu nome 

como se eu te fosse estranho 

como se fosse intruso 

para que eu mesmo me desconheça 

e me sobressalte 

quando suavemente 

pronunciares o meu nome 

 

Mia Couto in Confidência (agosto 1979)

 

"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Editorial Caminho - novembro de 1999

 

 

 

áfrica

 

Margareth Menezes

(13 de outubro de 1962)

 

"Recentemente, o escritor Mia Couto esteve de volta ao Brasil para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e mais uma vez me surpreendeu com uma simples frase: “Deixem a África contar sua própria história”. Isso bateu em mim como uma bigorna! Se pararmos pra pensar, o que realmente conhecemos sobre o continente africano, se não as informações trazidas de lá pelos povos que se meteram a colonizar o não colonizável? O que realmente se revelou da gigante e misteriosa África que pode nos dar alguma base real da sua verdadeira história? Partindo da informação de que são 61 países eterritórios, todos independentes, cada um dividido por várias etnias com dialetos, idiomas, histórias de formação e reinados muito mais antigos do que o Brasil e alguns países da Europa, ainda há muito o que se saber.

Ainda hoje, muitos pensam a África como um grande deserto. Eles existem, mas além do Saara e da Namíbia, existem muitas belezas nas savanas africanas, montanhas e rios maravilhosos, existem cidades modernas, como asque já vi. A África Oriental é riquíssima e cheia de colaborações para a formação da cultura ocidental. Existem povos na África que não têm o menor interesse em interagir com o ocidente e se bastam. Tudo o que sabemos da África são dados trazidos para nosso conhecimento de forma convencional. A partir dessas ideias, vejo como perdemos tempo na insistência em alimentar a discriminação no solo do nosso país. Uma ação fora de propósito, já que seríamos muito mais ricos se fosse incentivada a inclusão de todos os cidadãos. Penso que na atual situação do mundo, o país que tiver seu povo unido e melhor preparado garantirá seu futuro mais soberano." 

 

Margareth Menezes - "A história da África por ela mesma" - coluna, Revista Raça Brasil nº 183

 

 

 

 

 

 

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