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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

sagradas famílias

e o meu pai, descalço, a exilar-se no sofá da sala de membros encolhidos como um gafanhoto numa haste a protestar

- Quase não há dia que não fique para aqui senhores 

a coçar a nuca com as patas de cima, a minha mãe 

- Hoje estás impossível

e até o sol me trazer de novo mais nada, apenas resmungos parecidos com um tractor em ponto morto ele que de manhã em calças de pijama se barbeava a cantarolar, de bocadinho de algodão colado à bochecha porque se cortou, por baixo do algodão um traço vermelho que teimava em não secar e a minha mãe na cozinha a aquecer o leite de costas para toda a gente, abrindo e fechando gavetas com força 

- Onde pára o teu babete? 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

 

dias a sim

 

a crítica (...) expressa numa ausência de elogios

 

 

há pessoas que necessitam de um baloiço para o raciocínio

 

 

sempre me fizeram sonhar os comboios

 

 

 

me esqueci da professora mas as vírgulas ficaram, vírgula, segundo ela eram sempre úteis mesmo ao conversar

- Com uma pausazinha na altura certa fica tudo mais claro

 

 

 

muito se morre em Portugal de facto

 

 

o avô do meu marido a abrir a tampa do relógio do colete

- Nove horas

e a fechá-la num estalinho que lhe agradava, se lho emprestasse abria e fechava-o duzentas vezes porque lhe apetecia comer aquele som

 

 

 

apesar de estarmos no outono e uma chuvinha parva, dessa que não molha nem se sente, nos convida ao suicídio apenas, a vizinha triste, a minha mãe triste por contágio que a infelicidade pega-se

 

 

 

o som do pêndulo do relógio da sala, de dia quase mudo e à noite enorme porque no escuro tudo aumenta

 

 

 

não se falavam há anos que o tempo separa as pessoas e depois o esquecimento começa o seu trabalho

 

 

 

- Tenho cinquenta e nove anos caramba

tombaram-lhe como tijolos os cinquenta e nove anos em cima

 

 

 

até um grilo uma tarde na bancada que expulsei com um piparote para o quintal onde mais tarde ou mais cedo uma lagartixa o arrastaria por uma das patas na direcção de uma falha de muro, tudo come tudo neste mundo, é assim, até o mar devagarinho vai comendo os penedos, a nós come-nos a idade

 

 

 

por ser vasta era mais paciente, sempre nervosas, as magras

 

 

 

porque na vida não existem certezas e até Deus muda de humor

 

 

as pessoas são tantas dentro das pessoas que são

 

 

 

adivinhava que me miravam porque um peso em mim, sentimos sempre um peso quando nos olham

 

 

espanta-me que haja pessoas ingénuas capazes de acreditarem nas mentiras das ondas

 

 

 

há coisas que nos agradam ao princípio e o tempo torna sinistras

 

 

que pena as pessoas não se aceitarem como são

 

 

 

e eu calada a engolir-me a mim mesma, como é complicado engolirmo-nos a nós mesmos

 

 

 

derivado ao sol, levo esta luz, esta felicidade, esta paz (...) até nos dissolvermos na luz

 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

vida cartoon [1+(x2)]

... como todas as mães: às vezes vestida de supermulher - alegre, corajosa e entusiasmada - ; outras vezes, desconsolada, frustrada e à procura do seu lugar no mundo. 

 

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« todos sabem como a maternidade deve ser... as mães sabem como ela é.» 

 

 Ana Sílvia Agostinho - Mamã cartoon - verdadeira, divertida e apaixonada (2016)

Alma dos livros (fevereiro 2017)

 

 

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