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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

#principiovasoscomunicantes

Foi, realmente, em contacto com senhores da maior respeitabilidade (daqueles que vêm no jornal sem precisar de bater na mulher ou roubar uma gabardina), que Branca de Neve apurou os reflexos e fez a sua performance técnica. 

Embora política, religiosa e socialmente eles professassem opiniões idênticas e inapelavelmente conservadoras, divergiam de maneira profunda, quando, na intimidade do apartamento lilás, davam largas aos seus recônditos anseios. Com efeito, se, quanto ao direito de propriedade privada, fé em Deus, confiança nos chefes e bordoada em grevistas, eram de uma unanimidade total, cada um deles fazia de Branca de Neve um uso muito pessoal, quando dela se ocupava para descansar de uma vida inteiramente sacrificada ao bem da sociedade e da grei. 

Então, no elegante apartamento onde ela encontrara o conforto que fora obrigada a procurar longe da casa paterna, davam livre curso à imaginação, deixando correr, infatigavel e indisciplinada, a fantasia. Vinham ali à superfície os mais íntimos desejos; por vezes recalcadas tendências e inconfessadas aberrações (...) Branca de Neve tinha para com essas inclinações dos seus protectores, para com essas pequenas loucuras que os traziam tão felizes, uma paciência toda evangélica. Calculando que da sua hábil colaboração, dependia a felicidade de tão altas personagens, o bem-estar dos seus lares cristãos e o pão de alguns milhares de operários, servos e funcionários, prestava-se às fantasias com paciência de aluna, resignação de mártir e uma imaginação toda fatalista, à mistura, é certo, com um profundo sentido prático da vida. É que, se por um lado ela acreditava estar a fazer alguma coisa pela paz social e pela perenidade das instituições, por outro lado via subir a sua conta na Caixa Geral de Depósitos, à medida que as suas inibições baixavam, o que mais uma vez confirma o velho príncipio físico dos vasos comunicantes. 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

suor e pão (sobreaquecidos)

É a hora em que a multidão dos funcionários deixa os gabinetes sobreaquecidos, abotoa os casacos de peles de imitação e se encafua nos autocarros.

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

 

 

sabrás

Matsu nunca prometeria parar de chorar. Acalmara, mas sabia bem que a felicidade se compunha da soma de muita tristeza também. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 Sabrás que he cumplido firmemente,
Tú sabrás, mi promesa de quererte hasta el final,
Que he esperado tanto tiempo,
Y aún puedo más.
Sabrás que yo he sido la primera,
Tú sabrás, en escribirte una canción que te recuerde aquella vez,
En que mi cuerpo temblaba,
Porque tus manos en cada abrazo,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.
Y tus besos, a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.

Quizás no he encontrado la manera hoy,
Quizás de hacer de tripas corazón,
De conformarme con vivir anclada
A un sueño que amaba
Porque tus manos en cada abrazo,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.
Y tus besos, a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.

Quiero que comprendas que sin ti no tengo nada,
Que aposté toda mi vida, y que a lo hecho pecho,
Siento que te marches aunque nunca digas nada,
Aunque no tenga derecho a recibir mañana.
Puede que el futuro no me lleve hasta tu casa,
Pero sigo decidida a no ceder por hoy.
Si tus manos a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.
Y tus besos, a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.

post mortem

 

... em descansos breves do trabalho, e podiam tão-só rir. Estavam vivos e juntos, pensavam. Estavam vivos e juntos. A felicidade poderia ser aquilo. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 

 

sem impedimentos

A criada Kame gritava: musumé, onde estás tu. E a jovem Matsu respondia: no teu coração. A criada voltava a gritar: e mais onde. Matsu respondia: ao sol. Estou aqui encostada ao sol. Era como se o sol se estendesse até tocar o corpo ao abandono da jovem. A criada juntava-se-lhe e culpava-se de parar os trabalhos por um instante. Por vezes, escolhiam a fome em troca de um mínimo de sossego. A felicidade podia acontecer num ínfimo instante, ainda que a fome se mantivesse e até a sentença para sofrer. O sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 Le semeur au soleil couchant

Vincent Van Gogh

 

 

primeiro sono 2018

Esperaram pelo sono para se mudarem para o dia seguinte. Havia sempre esperança na travessia nocturna. Cada deus revia a criação no quieto da noite. Acender os dias era sempre a possibilidade de uma nova criação. Era importante dormir com esperança. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

pelos dias fora

passavam-lhe os azeites e trancava-se no quarto a chorar 

- A minha maior asneira foi o casamento contigo

o meu pai umas palmadinhas amigas 

- Apesar de tudo não temos sido infelizes 

e se calhar não eram ou eram mas não mais que os restantes, quem é feliz neste mundo, falta sempre algo não é, saúde, dinheiro, mas a vida continua a tropeçar mais ou menos pelos dias fora, empenada e contudo girando, o meu pai para a minha mãe

- Dá cá uma beijoca 

ela apesar de sobrazinhas de ciúme a estender a bochecha, nessa noite o crucifixo umas pancadas curtas mas pancadas mesmo assim e ambos melhor a seguir, o meu pai para a minha mãe 

- Atrevidota 

e a minha mãe corada a apontar-me o nariz e todavia no fundo contente, não muito no fundo, via-se cá de cima, eu para eles 

- Namoram outra vez 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

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