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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

de profundis

  Eram dez da manhã do dia 7 de Maio de 1829 quando os padecentes deixaram a prisão a caminho do cadafalso. O macabro préstito abria com uma força militarizada. Um autor da época escreveu que a cena tinha mais de «auto-de-fé do que do cumprimento de uma sentença saída do tribunal secular...». Os irmãos da Misericórdia seguiam junto à bandeira da irmandade, desfraldada ao vento, e «ao lado da zumba pintada de negro com os símbolos que nos ficaram do paganismo - a ampulheta, a foice e a caveira...», como refere ainda o citado autor.

  Mais ou menos a meio do tétrico cortejo ia içado ao alto o crucifixo, com a figura do crucificado voltada para os condenados.

  Toda a cidade do Porto assistiu na rua, horrorizada, ao desfilar desta verdadeira procissão canibalesca.

  Misturados no meio da tropa, dos irmãos da Misericórdia e dos meirinhos seguiam numerosos padres e frades que interrompiam de tempos a tempos o salmodear monocórdico do latim com estridentes gritos de «miserere...miserere...miserere...».

  O cortejo atravessou o amplo Largo do Olival, o tal que depois se chamaria dos Mártires da Pátria, meteu pela Rua da Natividade, actual Rua dos Clérigos, e entrou na Praça Nova. As forcas eram de construção muito simples (...). « Ao redor dos patíbulos estavam os condenados à morte metidos nas suas alvas com a cabeça descoberta e os pés nus e dois ou três frades confessandos-os e absolvendo-os em nome do céu próximo, dependente de um nó corrido na garganta...» (...) O espectáculo no amplo logradouro da Praça Nova era de arrepiar: a um lado perfilavam-se os meirinhos e escrivães da justiça « de capa e batinas negras, calção, meia e sapato afivelado, como manda a Ordenação»; a outro canto os clérigos, que em coro acompanhavam o rufar surdo dos tambores clamando « de profundis clamav ad te...». Junto aos patíbulos, nos primeiros degraus da escada, os carrascos esperavam. Todo este aparato era guarnecido pela tropa enfileirada que formava um amplo e luzido quadrado. De espaço a espaço um meirinho gritava um nome e o carrasco apoderava-se do condenado. Vinha sempre seguido de um frade que lhe rezava baixo ao ouvido. O carrasco metia-lhe na cabeça o capuz branco que o preso trazia suspenso nas costas, passava-lhe o nó da corda na garganta, suspendia-a a seguir na trave da forca e consumava-se o acto.

  Enforcar um homem demorava meia hora e como naquele primeiro diz eram dez, as cerimónias da Praça Nova acabaram pela uma da tarde.

  Às execuções assistiram divertidos e no meio de grande gáudio os frades lóios e os dos Congregados. Os respectivos conventos davam para a praça (...) Enquanto assistiam aos enforcamentos dos liberais, os frades davam vivas a D. Miguel e à santa religião e brindavam com vinho do Porto.

  Terminadas as execuções, os cadáveres dos enforcados foram decapitados, como se ordenava na atroz sentença. Os corpos foram levados pelos irmãos da Misericórdia para enterrar no adro dos enforcados, que ficava em terrenos onde hoje se situam as traseiras do Hospital de Santo António. As cabeças, espetadas em longas varas, ficaram durante vários dias expostas em frente às casas dos familiares das vítimas, na Foz, na Cordoaria, na Vila da Feira, em Aveiro e Coimbra. Os dois carrascos, o célebre João Branco e um outro que viera de Lisboa, no final das execuções foram displicentemente lavar as mãos tintas de sangue no tanque da Natividade que havia na Praça Nova e que ficava onde está agora a filial do Banco de Portugal  (...) Logo a seguir à entrada no Porto das tropas liberais, em 1832, sob o comando do rei D. Pedro IV, o povo foi à Praça Nova e derrubou as forcas que ainda ali estavam erguidas. Depois correu à Cadeia da Relação, arrombou a porta e abateu a tiro o sanguinário João Branco, carrasco dos liberais. Tudo isto acontecia enquanto os miguelistas fugiam espavoridos da cidade com medo de represálias. Só que os liberais foram muito mais condescendentes do que os miguelistas se haviam mostrado antes (...) Em 18 de Junho de 1878, as ossadas dos doze liberais foram solenemente transladadas para um mausoléu, especialmente construído para o efeito, e que está colocado no cemitério privativo que a Santa Casa da Misericórdia tem no Prado do Repouso.

  Em 1914, a Câmara Municipal do Porto mandou colocar no sopé da estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, placas de bronze com os nomes dos doze mártires, para honrar a sua memória no mesmo local onde padeceram a pena máxima por amor da sua causa.

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

«Se, na nossa cidade, há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão»

Almeida Garrett

 

 

bücherverbrennung

Bücherverbrennung é um termo alemão que significa queima de livros. É, muitas vezes, associado à ação propagandística dos nazistas, organizada entre 10 de maio e 21 de junho de 1933, poucos meses depois da chegada ao poder de Adolf Hitler. Em várias cidades alemãs, foram organizadas, nesta data, queimas de livros em praças públicas, com a presença da polícia, bombeiros e outras autoridades.(...)

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Queima_de_livros_na_Alemanha_Nazista

 

 

Entre os livros queimados pelos nazistas estavam obras de Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Erich Kästner (que, anônimo, assistia a tudo), Robert Musil, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Nelly Sachs, Franz Werfel, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx e Heinrich Heine. (...) 

A opinião pública e a intelectualidade alemãs ofereceram pouca resistência à queima. A burguesia tomou distância, passando a responsabilidade aos universitários. Também os outros países acompanharam a destruição à distância, chegando a minimizar a queima como resultado do “fanatismo estudantil”. (...)

 

Certa vez, um dos queimados, Heinrich Heine (1797-1856), escreveu: “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”

 

in http://miltonribeiro.sul21.com.br/2014/05/10/hoje-faz-aniversario-a-queima-de-livros-a-bucherverbrennung-veja-fotos-e-filmes/

 

 

 

fátima

(...)

Então, quando essas palavras são publicadas, o segredo é libertado no mundo: mistura-se com o olhar dos outros. Por consequência, muda a forma como os outros veem e, também, a forma como os outros nos veem.

Foi justamente nos olhares dos outros que encontrei as primeiras questões. Ainda sem terem lido uma página, quando se mencionava o tema "Fátima", todas as perguntas eram formas explícitas ou subliminares de me colocarem uma única pergunta: acredita?

(...)

Em nenhuma ocasião respondi sim ou não. Por um lado, não creio que a resposta a essa pergunta seja apenas sim ou apenas não, a não ser que se simplifiquem as questões até ao seu elemento mais básico, tão básico que já não é sequer representativo do que se está a falar. Por outro lado, porque a minha intenção primeira, uma das que me levou à escrita do livro, foi justamente encontrar uma maneira de falar de Fátima que não passasse por esse separar de águas, esse muro divisor: acredita/não acredita.

Nem todas as pessoas que afirmam acreditar em algo comum o fazem da mesma forma. Acreditar não é preto e branco. Também me parece que nem todas as pessoas são cépticas da mesma forma. Há inúmeras gradações e particularidades no que toca à crença e/ou à fé. Não existe um interruptor para a fé ou o cepticismo.

(...)

Fátima é um tema multidimensional. Ao longo destes cem anos, assumiu uma enorme importância política e social. Em grande medida, pode dizer-se que houve uma certa sensibilidade acerca deste tema que foi paralela às próprias alterações políticas e sociais do país. Por tudo o que dizem sobre nós, essas são questões de grande interesse, que merecem ser levantadas, observadas e reflectidas.

 

Já no que toca à sua dimensão religiosa, Fátima é um assunto que está na esfera da sensibilidade íntima de cada um. A liberdade religiosa é uma conquista civilizacional. Não devemos estar dispostos a abdicar dela em nenhuma circunstância.

Nesse sentido, é fundamental que crentes e cépticos se saibam respeitar entre si, só assim poderá existir um diálogo edificante. Não vejo razões para duvidar que uns possam aprender algo com os outros. Se não estivermos de ouvidos fechados, de olhos fechados, podemos sempre aprender algo com os outros, podemos sempre descobrir algo novo. E os outros, claro, não são uma abstração. Os outros são aqueles que têm opiniões realmente diferentes das nossas.

 

in http://www.joseluispeixoto.net/respeito-124560

 

 

 

bulir com imaginações e vontades

Era a primeira aula de «História Local». Eu procurava, como costumo fazer, um tema que despertasse a atenção dos meus alunos e os lançasse numa animada troca de ideias. « Digam-me lá que imagens, que estereótipos, que histórias associamos normalmente à cidade do Porto?»

Algum embaraço inicial foi rapidamente superado: «cidade do trabalho», «cidade da liberdade», «o granito», «a chuva», «o cinzento», «Não! Cinzento não! É o contrário! As casas coloridas!», «a Cidade Invicta», «os tripeiros». Com uma pequena ajuda minha - a pedagogia não directiva tem os seus limites... -, acabámos o quadro: «o bairrismo», «a solidariedade», «o carácter». Já havia muito por onde começar. Tentei pôr alguma ordem no caos: «A chuva e granito são dados objectivos! A chuva mede-se e o granito está lá! A qualificação de "Invicta" tem uma história (...) o professor continuava ali, disciplinando as intervenções objectando para suscitar maior consistência nos argumentos; mas o observador, o «amador» do Porto distanciava-se com alguma incomodidade: quanta banalidade, Deus meu!, o trabalho, o granito, a liberdade... Em que momento do caminho é que o meu Porto ficou prisioneiro de um punhado de lugares-comuns, que, repetidos até à exaustão, perderam qualquer capacidade de bulir com imaginações, quanto mais com vontades? (...) Quanto mais gosto do Porto e melhor o conheço, mais díficil me é escrever sobre ele.

 

 

Luís Miguel Duarte, Prefácio

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

 

 

 

Dia Internacional para a Tolerância

O Dia Internacional para a Tolerância foi instituído pela ONU como sendo o dia 16 de Novembro de cada ano, em reconhecimento à Declaração de Paris, assinada no dia 12 deste mês, em 1995, tendo 185 Estados como signatários. Foi instituído pela Resolução 51/95 da UNESCO.

 

A Declaração da ONU fez parte do evento sobre o esforço internacional do Ano das Nações Unidas para a Tolerância. Nela os estados participantes reafirmaram a "fé nos Direitos Humanos fundamentais" e ainda na dignidade e valor da pessoa humana, além de poupar sucessivas gerações das guerras por questões culturais, para tanto devendo ser incentivada a prática da tolerância, a convivência pacífica entre os povos vizinhos.

 

Foi então evocado o dia 16 de Novembro, quando da assinatura da constituição da UNESCO em 1945. Remetia, ainda, à Declaração Universal dos Direitos Humanos que afirma:

1) Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião (Artigo 18);
2) Todos têm direito à liberdade de opinião e expressão (Artigo 19)
3) A educação deve promover a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações, grupos raciais e religiosos (Artigo 26).

 

 in https://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_Internacional_para_a_Toler%C3%A2ncia

 

(.........)

 

O Gueto de Varsóvia foi o maior gueto judaico estabelecido pela Alemanha Nazista na Polônia durante o Holocausto, ao tempo da Segunda Guerra Mundial. Nos três anos da sua existência, a fome, as doenças e as deportações para campos de extermínio reduziram a população estimada de 380.00 para 70.000 habitantes. (...) O distrito de Varsóvia era governado pelo oficial nazista Ludwig Fischer. A população do gueto atingiu a marca de 380.000 pessoas, cerca de 30% da população de Varsóvia. Em contrapartida, ocupava apenas 2,4% do território da cidade. Os judeus de Varsóvia foram obrigados a se deslocarem para o gueto, e os nazistas providenciaram a construção de um muro ao seu redor em 16 de novembro de 1940, segregando completamente os judeus.

 

in http://www.ricardoorlandini.net/hoje_historia/ver/6508/os-nazistas-fecham-acesso-ao-gueto-de-varsovia-construindo-um-muro-ao-redor

 

 

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