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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

portugal fica para depois e os portugueses também

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

nasceram (13.06.2017)

 

Nascer é vir a este mundo

não é ainda chegar a ser.

Nascer é feito dos outros.

O nosso é depois de nascer.

 

 

José de Almada Negreiros, AS QUATRO MANHÃS - Primeira Manhã

Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

madonna em lisboa *

porque os Portugueses nunca se denunciam na maneira de melhor servir a sua terra

 

almada - Lx. Abril 1922

 

 

Ainda não vi em Lisboa o Fassbender, a Madonna, o Cantona, muito menos a Belluci. Mas vi o Almada Negreiros na Gulbenkian.

@JoseDePina

José de Pina@JoseDePina

 

 * http://museudearteantiga.pt/exposicoes/madonna

stream of consciousness

 

 A CENA DO ÓDIO

De José de Almada-Negreiros

Poeta Sensacionista e Narciso do Egipto 

 

Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis. 

(...)

Tu, que te dizes Homem! 

Tu, que te alfaiatas em modas

e fazes cartazes dos fatos que vestes

pra que se não vejam as nódoas de baixo! 

Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,

as Políticas, as Artes e as Leis, 

e outros quebra-cabeças de sala

e outros dramas de grande espectáculo...

Tu, que aperfeiçoas a arte de matar... 

Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança

e o Caminho Marítimo da Índia

e as duas Grandes Américas, 

e que levaste a chatice a estas terras 

e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui 

e qu'inda por cima cantaste estes Feitos... 

Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,

e que farto de te chateares no chão 

te foste chatear no ar, 

e qu'inda foste inventar submarinos 

pra te chateares também debaixo d'água... 

Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas

e que nunca descobriste que eras bruto,

e que nunca inventaste a maneira de o não seres...

Tu consegues ser cada vez mais besta

e a este progresso chamas Civilização! 

(...)

(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!

e esta gente distraída em guerras!)

(...)

Oh! Se eu soubesse que o Inferno

não era como os padres mo diziam -

uma fornalha de nunca se morrer - ,

mas sim um Jardim da Europa

à beira-mar plantado...

(...) 

E inda há quem faça propaganda disto: 

a pátria onde Camões morreu de fome

e onde todos enchem a barriga de Camões!

 

 

Com a data de 14 de Maio de 1915

 

 

vidas que não calham

Raiva de não ter a ideia de resolver 

Espasmo-indiferença das lutas de não-ganhar 

Sonolência perversa das vidas que não calham 

 

 

José de Almada Negreiros, MIMA-FATAXA,Sinfonia Cosmopolita e Apologia do Triângulo Feminino (LXA.18 Mar.16)

 

Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

 

eu amo a lua do lado que eu nunca vi

Canção da Saudade 

 

    Se eu fosse cego amava toda a gente. 

    Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade. 

    Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste. 

    Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos. 

    Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. 

    Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. 

    Eu amo os cemitérios - as lajens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim. 

    Eu amo a noite, porque na luz fugidia as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi. 

    Se eu fosse cego amava toda a gente. 

 

 

José de Almada Negreiros

 

 

 

Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

dizem os que sabem muito

Quem tudo quer tudo perde

dizem os que sabem muito

e eu punha-me a chorar

porque eu só queria tudo 

  

José de Almada Negreiros, O Menino D'Olhos De Gigante (Serra de Sintra, outubro de 1921)

 


Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

 Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais