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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

portugal fica para depois e os portugueses também

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

Tão Cedo Passa Tudo quanto Passa

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

 

Ricardo Reis, in "Odes"

 

 

O tempo é um relógio sem ponteiros, só DEUS sabe a hora certa das coisas acontecerem. 

waste of blood and sweat

Dactilografia

 

 Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Formo o projecto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou. 

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tic-tac estalado das máquinas de escrever. 

 

Que náusea de vida!

Que abjeção esta regularidade!

Que sono este ser assim!

 

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavalerias 

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do sul, opulentos de verdes. 

 

Outrora... 

 

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, 

O tic-tac estalado das máquinas de escrever. 

 

Temos todos duas vidas: 

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão. 

 

Na outra não há caixões, nem mortes. 

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde. 

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.

Neste momento, pela náusea, vivo só na outra...

 

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

Se, desmeditando, acordo,

Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever. 

 

Álvaro de Campos

(19.12.1933)

 

 

Fernando Pessoa - Poemas de Álvaro de Campos 
Cleonice Berardinelli, Editora Nova Fronteira ( São Paulo, agosto de 1999)

 

 

 

 

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