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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

cativações


Endechas a Bárbara escrava Aquela cativa Que me tem cativo, Porque nela vivo Já não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves molhos, Que pera meus olhos Fosse mais fermosa. Nem no campo flores, Nem no céu estrelas Me parecem belas Como os meus amores. Rosto singular, Olhos sossegados, Pretos e cansados, Mas não de matar. U~a graça viva, Que neles lhe mora, Pera ser senhora De quem é cativa. Pretos os cabelos, Onde o povo vão Perde opinião Que os louros são belos. Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocara a cor. Leda mansidão, Que o siso acompanha; Bem parece estranha, Mas bárbara não. Presença serena Que a tormenta amansa; Nela, enfim, descansa Toda a minha pena. Esta é a cativa Que me tem cativo; E. pois nela vivo, É força que viva. Luís de Camões

 

 

naufrágio de um barco rabelo

Foi um próspero comerciante e também um lavrador de vistas largas. Não limitou a sua actividade à exportação do vinho do Porto. Cultivou a vinha, plantou olivais e produziu azeite segundo conceitos vanguardistas; foi fabricante de vinagres e dedicou-se ainda ao linho, que aprendeu a «malhar, tascar,espadar e pentear». 

Trabalhava desde o romper do dia até à hora do jantar, que se fazia, naquela época, por volta das seis da tarde. 

Desenhou e ilustrou mapas da região vinhateira; e munido de um lápis ou pincel, recolheu e arquivou aspectos, tipos, usos e costumes da nossa terra e da nossa gente (...) 

Joseph Forrester viveu na sua casa da Ramada Alta, onde recebia as figuras de maior relevo na vida política, económica e social do seu tempo. Por via disso, exerceu uma grande influência na sociedade portuense dessa época. O Governo português distinguiu-o, em 1855, com o título de barão de Forrester, como recompensa pelos relevantes serviços prestados à causa do Douro vinhateiro. Pois este homem da lavoura duriense, este comerciante do vinho do Porto, este artista e fidalgo, impulsionador da economia e da geografia agrária do Douro, este artista de rara sensibilidade e de aguda inteligência, veio a morrer no naufrágio de um barco rabelo, ocorrido na manhã de domingo do dia 12 de Maio de 1861. 

O desastre verificou-se no Cachão da Valeira, curiosamente um dos sítios mais traiçoeiros que havia no Douro e que Forrester estudara minuciosamente. Regressava à Régua de uma visita à Quinta do Vesúvio, de que eram proprietários Francisco José da Silva Torres e sua mulher, D. Antónia Adelaide Ferreira, a célebre Ferreirinha. Viajavam no barco, além do barão e deste casal, a condessa e o conde de Azambuja, respectivamente filha e genro de D. Antónia; o juiz Aragão Mascarenhas e ainda dois criados da Quinta do Vesúvio. O naufrágio ocorreu porque o barco não conseguiu vencer a corrente impetuosa das águas, que haviam engrossado desmesuradamente devido às fortes bátegas que tinham caído nos dias anteriores. Morreram no acidente o barão de Forrester e os dois serviçais da família Torres. Uma versão popular do naufrágio diz que o barão foi rapidamente ao fundo por causa do peso das libras que trazia com ele para a compra de vinho e porque usava umas botas altas, que se encheram de água e lhe tolheram os movimentos, impossibilitando-o de nadar. Outra versão, e esta mais aceitável, diz que quando o rabelo se voltou o barão de Forrester foi atingido na cabeça pelo mastro do barco, tendo, com a pancada, perdido os sentidos, afundando-se. Na esteira da primeira narrativa popular, surge uma outra que atribui o salvamento de D. Antónia Ferreira ao facto de ela usar uma ampla saia rodada que em contacto com a água se abriu e terá servido de bóia, contribuindo para que a Ferreirinha flutuasse facilmente. Mas isto são apenas narrativas lendárias. Uma coisa é certa: o corpo do malogrado negociante de vinho do Porto, não obstante as intensas e exaustivas buscas que se fizeram, nunca mais apareceu. 

 

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

 

 

 

ambivalência atávica

Sobre o acaso, a necessidade e o mérito 

1. Não sei se a natureza lusitana integra uma "cultura do fatalismo", mas sei sabemos todos que abundam, na história do pensamento e das outras artes nacionais, registos individuais e colectivos exemplares de um pendor generalizado e ambivalente: ora para a contemplação da vida como sucessão de fatalismos irremediáveis; ora como convocação para o afrontamento de desafios irrenunciáveis. 

Entre os polos desta ambivalência atávica se desenvolvem os comportamentos característicos da nossa matriz genética: a rendição ao desalento alimentado pela "força do destino", ou a motivação de contornos quase místicos (ou míticos?), que é fonte do potencial criativo, da determinação e da coragem para enfrentar os desafios mais exigentes. Dito de outro modo: a submissão às arbitrariedades do destino, que espelham as virtudes do acaso; ou o engenho e a determinação, que superam as carências de que é feita a necessidade. 

2. Tenho para mim que esta natureza "bipolar" do ser português é a chave para a compreensão de algumas singularidades do nosso comportamento histórico; mas é ainda, e sobretudo, o modelo a partir do qual poderia ser mais enriquecedor o exercício de pensarmos o nosso presente para melhor projectarmos o nosso futuro. 

Acontece que o raciocínio estratégico não é uma prática habitual, nem sequer ocasional, da nossa natureza. Somos muito melhores cronistas (ralatores do que foi) e demagogos (especulando acerca do que, e de como, outros deveriam ter feito) do que actores rsponsáveis pela construção, hoje, do futuro que é já amanhã - coisa entretanto bem diferente do que é sermos visionários: pecadilho mais oriundo da paixão que da lucidez. 

 

 

José de Oliveira Guia - Presidente da Direção da ANEME

in Editorial CINFormando nº 61 - 1º trimestre de 2017 

 

 

 

soluções automotivas

 

" Os operários portugueses foram recebidos à porta da fábrica da Dura Automotive, que produz componentes eletrónicos para automóveis, na cidade de Plettenberg, por colegas alemães munidos de cartazes, panfletos em português e um tradutor oficial.

Os folhetos explicavam que entre 850 a 900 trabalhadores alemães da fábrica de Plettenberg serão despedidos, segundo disse à agência Lusa Fabian Ferber, representante local do maior sindicato da indústria metalúrgica na Alemanha, o Industriegewerkschaft Metall.

“Há cerca de 11 meses a sede [da multinacional], nos Estados Unidos, anunciou o despedimento de cerca de 850 a 900 pessoas, de um total de 1300″, da fábrica de Plettenberg, explicou Fabian Ferber, acrescentando que até hoje os trabalhadores alemães estão à espera de informação sobre compensações sociais e reformas antecipadas.

Não estamos contra os trabalhadores portugueses, eles não são nossos inimigos. A Dura é que é a nossa inimiga. Nós estamos a lutar pelos nossos empregos”, garantiu. (...) 

“A Dura queria que fizéssemos horas extra para terminar uma encomenda. A empresa tem de gerir as encomendas durante as horas de serviço normais, por isso, a comissão de trabalhadores tem direito a recusar o pedido de horas extra. Foi o que fizemos e, então, trouxeram os trabalhadores portugueses”, afirmou.

O sindicato recorreu aos tribunais que, inicialmente, deram razão aos trabalhadores alemães, mas a empresa apresentou um novo plano de trabalho aos juízes e conseguiu garantir a permanência dos operários portugueses na Alemanha.

O plano da empresa diz que durante a semana a fábrica pertence à Dura Alemanha, ao passo que aos fins de semana a fábrica passa a ser Dura Portugal. A fábrica troca de mãos por dois dias, algo completamente novo”, segundo Ferber." 

 

 

in http://24.sapo.pt/economia/artigos/operarios-portugueses-recebidos-com-protesto-de-colegas-locais-em-fabrica-na-alemanha

 

 

 

espalhem a estória

" Os jacalupis eram praticamente incapazes de arranjar comida para si próprios. Primeiro eram os pais que tinham de subir às árvores a colher frutas para eles. Mais tarde, quando os jacalupis cresceram em tamanho e em número, foi preciso que todos os lupis recolhessem as frutas e deixassem uma parte para eles. Mas os jacalupis, com o tempo, iam ficando cada vez mais agressivos e exigentes. Bastava uma banana estar ligeiramente amassada para a recusarem. E ameaçavam os próprios pais lupis."

 

" No fundo, os jacalupis só ameaçavam e insultavam. (...) Os jacalupis adormeciam ao sol e como tinham memória de jacaré, quando acordavam já tinham esquecido o mambo e tinham masé fome. A comida abundava e por isso os problemas não se agravavam. (...)

Quando os primeiros jacalupis chegaram à idade de casar, aumentaram os problemas. Nenhum dos outros queria casar com um jacalupi, fosse macho ou fêmea.

- O quê? - protestava uma cambutinha - Para ser espremida por aquele jacabruto? E passar o dia todo a ouvir exigências de comida, comida... Nem morta! (...)

Coisa diferente das outras qualidades acontecia também com os casais de jacalupis. Só tinham filhos jacalupis. E raramente. Como os pais eram incapazes de arranjar comida para si próprios, também não o fariam para os filhos. O conjunto dos lupis tinha pois esse encargo. Felizmente os jacalupis eram poucos e não se reproduziam muito, senão...

- Já viram o que seria da nossa sociedade? - dizia o lupi-pensador para os amigos. - Seríamos escravos deles, a ter de fazer todo o trabalho que eles desconseguem."

 

" ... é sabido que os poetas são os seres mais irritáveis quando os resultados lhes não agradam."

 

" Os lupis gostavam muito da prudência e sabedoria do cágado. (...) tinham conversas profundas com ele, a tentar descobrir sentidos escondidos na desordem babélica deste mundo."

 

" Há um tanque novo, só para vocês. Dentro de dois dias está quase cheio e já podem vir usá-lo.

- São mesmo uns lupis fixes - disse o coelho.

- Mas isto tudo custou trabalho - disse o lupi-advogado. - E o trabalho deve ser recompensado, claro. Portanto, quem quiser vir tomar banho tem de trazer fruta para nós. É correcto, não?

- É correcto, sim - concordou o Kandimba. - Na planície não se faz nada sem ser pago. São novas formas inventadas lá pelos sábios. Anda toda a gente à procura de um nome para isso...

- Podia ser economia de mercado - disse o lupi-comerciante. - Mas para inventar nomes, o lupi mais forte é o poeta.

Este encolheu os ombros, como quem diz essa não é a minha área de interesse."

 

" Assim, a montanha se foi animando com os clientes que apareceram para tomar banho, carregados de cestas de frutas. Uns traziam mais que outros, mas a quantidade ainda não estava regulamentada. O lupi-comerciante não teve a genialidade para descobrir nome bem apropriado para essas constantes excursões dos bichos para a montanha. E os restantes lupis andavam distraídos com outros interesses. Só essa distracção explica o muito tempo que teve de se esperar até a palavra turismo ser inventada."

 

" [Aqui é necessária uma explicação que avô Bento não introduzia no relato: a hiena foi escolhida porque ela era muito astuciosa e falsa. Parecia que estava sempre a rir, quando arquitectava malandrices do tamanho de um imbondeiro. E tinha a mania de querer saber tudo o que se passava com os outros, usando agentes e informadores. Foi de facto a hiena o primeiro organizador de serviços secretos, embora os historiadores neguem essa evidência.]"

 

" O argumento era convincente para quem só apreciava a razão da força."

 

" - Atulhem as cabaças todas, mas vamos vender só às metades - recomendou o lupi-comerciante. - Eles refilam mas aceitam na mesma e ganhamos mais. Até porque o costume faz a lei. Lupi-advogado, prepara os argumentos."

 

" No entanto, havia uma mudança operada nos jacalupis, possivelmente por acção da água lilás: começaram a ter mais filhos, os quais cresciam mais depressa que os pais. Sempre jacalupis. E o apetite deles tinha aumentado. Não só o apetite de devorar comida, também o apetite de ter coisas.

 Um dia, o lagarto azul trouxe uns ossos roídos ao jacalupi-capitão.

- Isto agora é a grande moda na planície, foram os javalis que inventaram. Põe esses ossos nas orelhas.

Os jacalupis ficaram tão entusiasmados que obrigaram o lupi-comerciante a trocar água lilás também por ossos roídos. Todos os jacalupis passaram a usar ossos nas orelhas, depois pendurados no nariz. O lupi-comerciante achava ridículo, mas não se importava. Assim, os jacalupis andavam satisfeitos com ele e podia fazer outros negócios. (...) Como os lupis não tinham cauda e os jacalupis sempre invejaram as belas caudas dos macacos, amarraram os ossos a barbas de mulemba e fizeram caudas de ossos que levavam a arrastar pelo chão, todos vaidosos. Aos lupis que os gozavam, eles diziam, cheios de empáfia:

- Ignorantes, jac-jac-jac! Não seguem a última moda da planície.

Mais tarde o lagarto azul, que era um grande espertalhão, veio com penas de pavão.

- Um chefe, na planície, tem de ter um distintivo. Um grande chefe, claro.

E o jacalupi-capitão obrigou o lupi-comerciante a comprar penas de pavão. (...)

Os outros jacalupis se conformaram à sua vontade. E foi assim que o jacalupi-capitão, cada vez mais forte e vaidoso, passou a usar os símbolos da sua autoridade. Penas de pavão na cabeça. Assim era muito mais fácil distinguir onde estava o grande chefe dos lupis.

Chefe, claro, só aceite pelos jacalupis. Os outros riam-se da sua estupidez. A excepção era o lupi-comerciante, que os negócios tinham tornado muito manhoso e prudente. (...) Pouco a pouco, os lupões também deixaram de rir.

Estas pequenas transformações inquietavam o lupi-pensador. Um dia levou o lupi-poeta para o alto de uma mafumeira, para conversarem à vontade. (...)

- Engordaram todos. E as partilhas são cada vez mais desiguais."

 

 

" ... e os cambutas começaram também a engordar e a ficar mais preguiçosos (...) A paz voltou a reinar na montanha. Menos para o pensador e para o poeta. (...)

- Esses dois são criminosos. Como diz o lupi-eremita, eles ofenderam o lupi-deus. (...)

- Quem não aceita as ordens do jacalupi-chefe ofende o lupi-deus que fala pela boca dele.

A lupi-professora e os outros cambutinhas ficaram muito perturbados. Nunca tinham ouvido falar de um lupi-deus, conceito criado pelos lupões, ao que parece."

 

" A sabedoria até pode resolver, mas depois os outros utilizam o resultado da sabedoria ao contrário e a coisa vira prejudicial."

 

" E foi assim que os elefantes beberam um líquido verde-rosa e ficaram insensíveis a todas as armas feitas a partir da água lilás. Desde então nem a podiam cheirar sem ter soluços.

Convocaram reunião geral de todos os bichos. (...) Os elefantes explicaram que também tinham uma arma terrível, que os imunizava das armas deles. Que os outros tivessem juízo. Por fim falou o cágado, tirando as conclusões:

- Fica pois decidido que ninguém pode ousar tomar a fonte de água lilás. Os elefantes são a garantia disso. (...) Os leões mandaram logo a serpente-gingona como emissária para dizer que subscreviam o acordo. As onças miaram de raiva, derrotadas já tão perto da vitória, mas tiveram de aceitar. Os rinocerontes apoiaram também, ainda lembrados do que sofreram na montanha (...)

E assim se chegou á paz armada e contra-armada na planície."

 

" Com a paz encontrada, parecia a calma ia voltar à montanha, não é?

Nada.

Os lupões engordavam e todos os trabalhos eram feitos apenas pelos cambutas."

 

" Como as necessidades aumentavam constantemente, pois a população crescia e os jacalupis e lupões cada vez queriam mais coisas da planície, geralmente inutilidades concebidas para eles, o lupi-comerciante e o contabilista trocavam frases preocupadas. Não havia suficiente água lilás para todos esses gastos. Já o jacalupi-capitão mostrava a sua insatisfação pela forma como eles geriam os negócios. Daí à desconfiança era só um passo. O lupi-comerciante foi falar ao lupi-sábio, tens de inventar qualquer coisa.

- Inventar mais o quê? Farto-me de inventar coisas, mas vocês não aproveitam. Só ainda não inventei juízo para vos dar.

- Ora, só inventas coisas disparatadas. Como esse líquido feito a partr de água lilás que dá para fazer colchões. Os hervíboros vendem-nos bons colchões de palha e sumaúma. E os avestruzes vendem-nos as penas que fazem uns colchões maravilhosos. Para que ia servir a tua descoberta de colchões líquidos?

Era verdade. Os lupis agora dormiam sobre fofos colchões comprados na planície. O jacalupi-capitão tinha um enorme de penas de avestruz. Caríssimo, o preço de três dias de água lilás.

- Ficava muito mais barato utilizar o meu líquido.

O lupi-comerciante muxoxou e nem lhe respondeu."

 

 

" O lupi-pensador e o poeta juntaram-se aos outros, à espera de começar a reunião. (...) Finalmente apareceu o lupi-diplomata a dizer que o jacalupi-capitão não autorizava a reunião.

- Vai lá dizer-lhes que acabou esse costume atrasado de se discutir para tudo e para nada. Quem manda agora sou eu. (...)

Os cambutas protestaram. Que as grandes decisões deviam ser colectivas, como até aí. Mas o jacalupi-capitão mandou o grupo de vigilância dispersar o grupo, porque as reuniões estavam proibidas, eram subversivas."

 

" - Então, viram no que deu a vossa fraqueza? Aceitaram, aceitaram, agora já nem têm direito de dizer qual é a vossa vontade. É preciso não aceitar, é preciso lutar.

Os outros ouviram um pouco envergonhados, mas queriam sobretudo paz e calma. (...)

- Assim está-se bem. O jacalupi-capitão agora decide sozinho com o lupi-comerciante. Mas não decide mal. Nós queríamos a reunião, no fundo, no fundo, por uma questão de hábito. Mas novos tempos, novos hábitos. (...)

- Ingénuos! - Gritou o lupi-pensador. - Ficaram uns moles (...) Vocês não compreendem? A água lilás é um bem que é preciso saber utilizar. Com ela podíamos fazer muitas coisas que o lupi-sábio inventou. E gastá-la correctamente. Mas os jacalupis não querem, porque dá trabalho.(...)

Qualquer dia vão vender-nos os colchões com o líquido que o lupi-sábio inventou. E vamos comprar aquilo que podemos fazer sozinhos."

 

" Quando os lupis estavam todos juntos a cavar o furo da água lilás, os dois amigos tentavam convence-los:

- Só estão a engordar os jacalupis, mais nada. E eles vão aumentar a opressão.

O lupi-poeta declamava poemas em que gozava a estupidez dos jacalupis e a cobiça dos que jacalupizavam. Até que o jacalupi-capitão soube dos discursos que os dois andavam a fazer por todos os lados da montanha.

Ficou muito ofendido. Furisoso, declarou:

- Acabou a amnistia. Esses agitadores perigosos (...) São castigados com o exílio perpétuo. Nunca mais podem pôr o pé no chão."

 

" Cada vez mais irritado com a lupilagem atrevida, que colocava em rídiculo todas as medidas que tomava, o jacalupi-capitão passou a pressionar o lupi-sábio para inventar uma arma contra eles. Mas o sábio resistia. Atrasava, atrasava, ainda não consegui, é mais difícil do que pensa (...)

- É a coisa mais fácil do mundo inventar a tal arma. Mas não posso fazer isso contra os nossos. E o jacalupi-capitão vai ter a certeza que não quero inventá-la e então vou ser castigado. Porque não se calam de uma vez e voltam a ter uma amnistia? Assim desconseguem de convencer alguém. (...) Os dois amigos diziam não iam calar, os lupis tanto ouviriam que acabavam por entender. Nós podemos libertar-nos todos se ficarmos juntos, nós é que temos de facto a força, repetiam. Mas os cambutinhas não compreendiam ou não queriam compreender. "

 

" Um dia acordaram com uma notícia horrível. A água lilás parou de sair dos dois furos. Nem uma gota. (...)

A fome apertou. Os lupis já não sabiam subir às arvores para colher a fruta que estava lá em cima. (...)

Os leões e as onças, furiosos por não terem mais água, agora que tinham feito grandes progressos na descoberta de aplicações miraculosas, avançaram pela montanha, porque pensavam que aquilo era um truque dos lupis para aumentarem os preços. O cágado, avisado da calamidade acontecida na montanha, teve de intervir com os elefantes:

- Ninguém faz mal aos nossos amigos em desgraça. Ficou combinado que ninguém ia invadir a montanha. Com água lilás ou sem água lilás.

Os carnívoros acabaram por recuar e não fizeram mal aos lupis. Mas com oestes já não tinham nada para comer e na montanha só havia fruta em cima das árvores, agora inacessíveis, tiveram de se espalhar pela planície. Os dois amigos ainda tentaram manter os cambutas na montanha.

- Fiquem, que nós atiramos as frutas para baixo. Até reaprenderem a subir às árvores.

Mas os outros, dobrados pela desgraça colectiva, nem os ouviram. Ou foi vergonha? Ou por não quererem ficar dependentes dos dois que eles no fundo ajudaram a exilar? Não se sabe. O certo é que foram com os lupões e os jacalupis para a planície.

Para comer, os lupis alugaram-se aos carnívoros e grandes hervíboros. O jacalupi-capitão passou a servir de tambor nas feiras, porque ele tinha uma grande bunda onde as onças batiam, marcando o rítimo das danças. Outros serviam de palhaços, com as caudas de ossos a arrastar. O lupi-sábio e os seus adjuntos ficaram escravos das cobras, inventando coisas para elas. O lupi-comerciante era escravo dos hipopótamos, para fazer trocas com os jacarés, os quais o mordiam quando não gostavam do negócio. Todos os outros se alugaram para trabalhos que os bichos da planície recusavam fazer. "

 

 

" O lupi-pensador e o lupi-poeta continuaram na montanha, comendo as frutas das árvores. (...) Tinham agora uma vida livre pela montanha, como nos velhos tempos, mas tinham saudades dos outros lupis. Tinham sobretudo pena deles, escravos de si próprios. "

 

 

" O lupi-pensador (...) Disse:

- Lupi-poeta, tens que contar tudo isso que passou. Para que os lupis não se esqueçam dos seus erros.

O lupi-poeta fez então muitos poemas. (...) para transmitirmos às gerações vindouras.

Aprenderão eles com a estória? "

 

 

 

Pepetela - A Montanha da Água Lilás

Fábula para todas as idades (2000)

Leya, BIS

 

 

 

 

 

 

5 de outubro de 1910

" Mas, depois que vi e examinei essa proposta, reconheci com pasmo que ela de nada serviria a bem da Nação, nem contra os tais famosos costumes de administração.

As consequências desses costumes, que o Sr. Ministro não quis denunciar-nos como devia, são no entanto bem frisantes e dolorosas, e definem-se em duas palavras: uma dívida pública de perto de 800.000.000$000 réis; uma dívida flutuante que vai até 72.000.000$000 réis; impostos que têm sempre aumentado, até quase quintuplicarem, de 1852 para cá; e, por outro lado, o País sem instrução, nem exército, nem defesa das costas, e fronteiras, nem marinha, nem, auxílio aos operários, nem nada do que se pede e precisa, porque nem sequer temos estradas, já que as existentes, que nos custaram dezenas de milhares de contos de réis, destruiu-as a triste iniciativa e casmurrice do Sr. João Franco num dos seus Ministérios anteriores, não consentindo nas reparações necessárias, e inutilizando assim um importante capital nacional que, pelo contrário, era mister valorizar e aumentar.

Nós não temos absolutamente nada.

Os costumes de administração foi o que deram: o País à beira da ruína; o desgraçado consumidor a braços com o imposto de consumo, que o leva à tuberculose e à miséria; o contribuinte cada dia mais incapacitado de panar as contribuições sempre crescentes; o proprietário disposto a abandonar as suas terras; o viticultor impossibilitado cie colocar os seis vinhos.

Sr. Presidente: é a situação mais ruinosa e mais miseranda que se pode encontrar percorrendo a história, ainda mesmo dos povos que mais têm descido na sua economia e nas suas finanças.

(...)

Que espécie de contas são essas, que é preciso tanto tempo para as liquidar, e são precisos créditos especiais para as regularizar e encerrar?

A quem respeitam essas contas? Quando foram abertas? Que conhecimento se deu delas à Câmara? Onde está o relatório do Sr. Ministro da Fazenda explicando que contas são essas? Que enigma ouguet apens é este, armado à ingenuidade da Câmara, ou à desejada cumplicidade de uma parte dela, para lhe arrancar o voto de aprovação, que constituirá o encobrimento de crimes, por isso que se dará poderes para, pelos créditos autorizados, se desviar dinheiro da sua legal aplicação

(...)

E por isso insisto em perguntar:

Para quem foram esses dinheiros? Quem autorizou essas despesas ilegais? Por que razão são precisos créditos especiais para o encerramento das respectivas operações?"

 

Discurso de Afonso Costa, deputado republicano, na Câmara dos Deputados

em 20 de Novembro de 1906.

 

 

 

Afonso Costa, ainda hoje, é o único presidente do Governo e ministro das Finanças português que, em contexto democrático, obteve dois superavites 1912-13 e 1913-14

 

(cf. Nuno Valério - Os Orçamentos no Parlamento Português, 2001) 

 

in https://www.publico.pt/politica/noticia/afonso-costa-e-o-revisionismo-em-historia-1701826

 

 

 

 

 

supercouraçados

" - E s'a guerra continuar?

- Então emitimos votos onde, sem deixar de dar razão ao mais fraco, não negamos a razão do mais forte. E pedimos aos dois países em guerra que declarem solenemente que não fazem guerra um ao outro, mas que procedam a operações de ordem para regulação do conflito. É mais pacífico. Em geral, as operações militares sempre acabam por acabar. Admitimos então que a parte mais forte proceda a uma determinada tomada de território que lhe agrade, desde que não se pronuncie a palavra anexação. No referente à Etiópia fomos terríveis de início e não receámos protestar contra a atitude da Itália. Mas depois de termos desse modo provado o nosso apego ao ideal de justiça, tivemos mesmo que encarar a realidade de frente. É que, digam o que disserem os foliculários com falta de assunto, nós não somos utopistas. Por isso nos contentámos com dar aos Estados membros a liberdade de reconhecer ou não esta conquista. Bela táctica, não acham? Com efeito, as conveniências são respeitadas. Primo, a Sociedade das Nações permanece fiel ao seu ideal, visto que não reconhece, ao menos por agora, a conquista da Etiópia. Secundo, os Estados membros não infringem os seus deveres para com a Sociedade das Nações, uma vez que esta autoriza a reconhecer a conquista da Etiópia, se assim quiserem. Temos, como vêem, uma grande preocupação com a liberdade de pensamento e com a soberania dos Estados membros da Sociedade das Nações ainda não vencidos. Cada um dos Estados que faça o que quiser. Nos daí lavamos as nossas mãos. No fim de contas, o nosso papel é emitir votos prudentes, é votar resoluções hábeis que não desgostem ninguém. A nossa tarefa resume-se a isto: ser anódinos! Cumpriremos essa tarefa com um vigor cada vez maior. (Confidencial:) De resto, aquele négus é bastante antipático. Parece que nao está nada doente, que tudo aquilo é uma comédia. E, além disso, tenho ouvido dizer que vive com dificuldades. É claro que tudo aquilo é muito triste. Mas que se há-de fazer? O que a Etiópia tinha a fazer era servir-se de gases asfixiantes, e a verdade é que não temos culpa de ela ter um exército deplorável, não receio dizê-lo, deplorável. (Deu uma palmada na mesa.) Eis, num breve resumo, senhor ministro, a actividade da Sociedade das Nações. Mas não é tudo. Tenho dois grandes projectos que de certo modo são a carne da minha carne, filhos do meu pensamento e do meu coração, que concebi no silêncio e na meditação. Eis o primeiro projecto, que lhes conto confidencialmente. Se Sir John Cheyne estiver de acordo, pediremos aos grandes países que chamem Humanidade, Concórdia, Paz Internacional e assim por diante a todos os supercouraçados actualmente em construção. O meu segundo projecto consiste em suprimir os soldados e os canhões nas lojas de brinquedos. Desarmemos as crianças! Do ponto de vista moral, as crianças são mais importantes que os pais. O futuro! " 

 

 

Albert Cohen  – Trincapregos (1938)

Tradução de Pedro Tamen 

 

Contexto Editora, Lda., para Círculo de Leitores (outubro,1999)

 

 

 

TRINCAPREGOS

também chamado Dentolas e Olho de Satanás

e Lord High Life e Sultão dos Tossegosos

e Crânio-em-Sela e Pés Pretos

e Chapéu Alto e Bei dos Mentirosos

e Palavra de Honra e Quase Advogado

e Complicador de Processos e Médico de Clisteres

e Alma do Juro e Poço de Astúcia

e Devorador de Patrimónios e Barba de Forquilha

e Pai da Imundície e Capitão dos Ventos 

 

a carta para o correio da caixa

"Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...

Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
e tudo o que vejo...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é folha de papel
E nela te pinto nua, nua
numa chama minha e tua.
numa chama minha e tua.

Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tetos
cujos vidros vais pisando...

Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso ao teu gesto mimado
e à palma da tua mão...

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é folha de papel
E nela te pinto nua, nua
Numa chama minha e tua.
Numa chama minha e tua.

Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...

É que hoje acordei e lembrei-me
Que sou mago feiticeiro...

...E nela te pinto nua, nua
Numa chama minha e tua.
Numa chama minha e tua.

Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.
A mim... passou-me ao lado.

 

 

Toranja, a "Carta" 

 

Esquissos, Universal Music Portugal (2003)