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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

o preço do destino

Que fazer então? Matar a enteada com gás da Companhia ficava caríssimo e os tempos que correm exigem a mais apertada economia. Para tirar as dúvidas, puxou de papel e lápis e fez as contas: Tendo a sua casa 185 m3 e custando 40$00 cada metro do referido gás, a vingança importar-lhe-ia em cerca de sete contos e quinhentos. Impossível!... (E aqui deixo o meu protesto para ser exarado em acta na próxima reunião de vereadores. Que porcaria de cidade é esta, onde morrer fica quase tão caro como viver?!) 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

conversar com a cidade

Le parecía una extravagancia esa forma que tienen los seres humanos de citarse para pasarse una hora o dos contándose un resumen de su vida. Prefería conversar con la ciudad, es decir, andar. Tras escribir por las mañanas, recorría las calles intentando observarlo todo y, sobre todo, a las mujeres. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

 

aquilo que se vê

 

 

fecho os olhos. vejo luzes de cidades distantes. a noite

distante. vejo o brilho de um sonho tão impossível.

 

a escuridão é absoluta. a escuridão é infinita.

todos os cegos sabem que a escuridão é a morte.

 

fecho os olhos. vejo aquilo que se vê com os

olhos fechados.

 

 

José Luís Peixoto in OLHOS FECHADOS  - A Casa, a Escuridão (2002)

Quetzal Editores (2014)

 

 

Edgar Cardoso: engenheiro na verdadeira acepção da palavra

 Edgar António de Mesquita Cardoso

(11 de Maio, 1913 — 5 de Julho, 2000)

 

 

Considerado um dos maiores engenheiros portugueses do século XX, grande parte das pessoas que conheceram Edgar Cardoso lembram-no como um homem de grande tenacidade e capacidade inventiva. Com um espírito aberto, o “engenheiro das pontes”, como ficou conhecido, procurou sempre a inovação, tentando ultrapassar tudo aquilo que já estava feito. “Eu não faço uma ponte igual à outra”, dizia, “porque cada obra é um momento de inovação e de busca de novas soluções mais racionais e económicas”.
Uma das características mais marcantes da sua obra é talvez a recusa das soluções padrão, fáceis e já testadas. Edgar Cardoso procurava sobretudo a inovação, chegando a inventar ou a adaptar aparelhos e objectos para fabricar os modelos reduzidos com que trabalhava. Ele próprio afirmava: “o que não faço com a cabeça faço com as mãos”.(...)

Para uns, um homem de feitio difícil e intempestivo, por vezes arrogante. Para outros, essa seria talvez a única forma de fazer frente a invejas e ao conservadorismo com que sempre se deparou.
Mas Edgar Cardoso foi sobretudo um homem que esteve à frente do seu tempo, tornando-se por isso mesmo alvo fácil da incompreensão de muitos. “Eu inovei em todas as obras e, por isso, nunca fui compreendido”, afirmava

 

in https://jpn.up.pt/2004/03/25/engenhocas-de-edgar-cardoso-na-alfandega/

 

 

 

 

 

 

 

 

engrenagens

Berlín (...) Deambulando por aquella ciudad a un tiempo moderna y llena de cicatrices del pasado, había asumido que era posible dejar atrás los destrozos, no olvidándolos sino aceptándolos (...) Pero resultaba más fácil decirlo que vivirlo y los seres humanos disponían de menos tiempo que las ciudades para volver a edificarse a sí mismos. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017) 

 

 

 

 Ôôô, boi

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

(...)

 

"Admirável Gado Novo"
Zé Ramalho

 

lisboa

 

 ________________ nas traseiras da habitação antiga

Que pouco a pouco foi ruindo, os galos, os pintos

E as galinhas ficaram soterrados no espaço vago

Da devastação urbana. Fruto de escavadeiras,

Lisboa espera agora por mais um prédio

Magalómano de cimento, e por filas e filas de janelas

Sem ovos, tão tem galos são depressivas as 

Auroras. Grasnam patos bravos, coitados

Dos humanos. Perderam o rasto à caixa das almas

Sua antiquíssima ferramenta de convívio. 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

teorema do porto

Fui sempre fiel ao Porto, a que pertenço e sempre pertenci, que me pertence como uma roupa do corpo que me veste por dentro, como uma pele imemorial em que o tempo conta muito e não conta nada. Como um espelho em que me revejo e identifico e em que me poderei finalmente reconciliar comigo próprio. 

O Porto, para mim, na clareza lapidar e fulgurante da Sophia é a pátria dentro da pátria (...). 

Não conheceu o destino imperial de Lisboa nem o seu culto do aparato e da aparência - aqui dizemos p'ra inglês ver - o Porto nunca teatralizou a sua existência nem se espanta e espaventa com facilidade. 

Povo de gente rija habituada à humidade e à poluição, à poupança, à contenção e a fazer contas à sua moda, à insatisfação e a subir na vida a pulso, aos engarrafamentos, aos bloqueios, às mentiras dos governos, o seu carácter sempre foi a sua virtude através dos tempos difíceis ou dos outros que também nunca lhe foram servidos de bandeja. Cada cidade tem o seu teorema, só que é quase sempre impossível demonstrá-lo. Ou será que as raízes das palavras são quadradas como ironicamente questionava Ionesco? (...)

O carácter do Porto é a sua verticalidade, é a sua frontalidade imbuída de uma rudeza franca e leal.

 

Miguel Veiga 

 in Espírito do Porto - Aguarelas de Vasco d'Orey Bobone
2004 QN - Edições e Conteúdos SA

 

 

 

 

 

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