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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

muñecas

Tirar algo, lo que fuera, no encajaba con su forma de ser. Encontró también todas sus muñecas, cuya curiosa particularidad era que no iban vestidas; estaban todas en bragas.

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

 

 

de profundis

  Eram dez da manhã do dia 7 de Maio de 1829 quando os padecentes deixaram a prisão a caminho do cadafalso. O macabro préstito abria com uma força militarizada. Um autor da época escreveu que a cena tinha mais de «auto-de-fé do que do cumprimento de uma sentença saída do tribunal secular...». Os irmãos da Misericórdia seguiam junto à bandeira da irmandade, desfraldada ao vento, e «ao lado da zumba pintada de negro com os símbolos que nos ficaram do paganismo - a ampulheta, a foice e a caveira...», como refere ainda o citado autor.

  Mais ou menos a meio do tétrico cortejo ia içado ao alto o crucifixo, com a figura do crucificado voltada para os condenados.

  Toda a cidade do Porto assistiu na rua, horrorizada, ao desfilar desta verdadeira procissão canibalesca.

  Misturados no meio da tropa, dos irmãos da Misericórdia e dos meirinhos seguiam numerosos padres e frades que interrompiam de tempos a tempos o salmodear monocórdico do latim com estridentes gritos de «miserere...miserere...miserere...».

  O cortejo atravessou o amplo Largo do Olival, o tal que depois se chamaria dos Mártires da Pátria, meteu pela Rua da Natividade, actual Rua dos Clérigos, e entrou na Praça Nova. As forcas eram de construção muito simples (...). « Ao redor dos patíbulos estavam os condenados à morte metidos nas suas alvas com a cabeça descoberta e os pés nus e dois ou três frades confessandos-os e absolvendo-os em nome do céu próximo, dependente de um nó corrido na garganta...» (...) O espectáculo no amplo logradouro da Praça Nova era de arrepiar: a um lado perfilavam-se os meirinhos e escrivães da justiça « de capa e batinas negras, calção, meia e sapato afivelado, como manda a Ordenação»; a outro canto os clérigos, que em coro acompanhavam o rufar surdo dos tambores clamando « de profundis clamav ad te...». Junto aos patíbulos, nos primeiros degraus da escada, os carrascos esperavam. Todo este aparato era guarnecido pela tropa enfileirada que formava um amplo e luzido quadrado. De espaço a espaço um meirinho gritava um nome e o carrasco apoderava-se do condenado. Vinha sempre seguido de um frade que lhe rezava baixo ao ouvido. O carrasco metia-lhe na cabeça o capuz branco que o preso trazia suspenso nas costas, passava-lhe o nó da corda na garganta, suspendia-a a seguir na trave da forca e consumava-se o acto.

  Enforcar um homem demorava meia hora e como naquele primeiro diz eram dez, as cerimónias da Praça Nova acabaram pela uma da tarde.

  Às execuções assistiram divertidos e no meio de grande gáudio os frades lóios e os dos Congregados. Os respectivos conventos davam para a praça (...) Enquanto assistiam aos enforcamentos dos liberais, os frades davam vivas a D. Miguel e à santa religião e brindavam com vinho do Porto.

  Terminadas as execuções, os cadáveres dos enforcados foram decapitados, como se ordenava na atroz sentença. Os corpos foram levados pelos irmãos da Misericórdia para enterrar no adro dos enforcados, que ficava em terrenos onde hoje se situam as traseiras do Hospital de Santo António. As cabeças, espetadas em longas varas, ficaram durante vários dias expostas em frente às casas dos familiares das vítimas, na Foz, na Cordoaria, na Vila da Feira, em Aveiro e Coimbra. Os dois carrascos, o célebre João Branco e um outro que viera de Lisboa, no final das execuções foram displicentemente lavar as mãos tintas de sangue no tanque da Natividade que havia na Praça Nova e que ficava onde está agora a filial do Banco de Portugal  (...) Logo a seguir à entrada no Porto das tropas liberais, em 1832, sob o comando do rei D. Pedro IV, o povo foi à Praça Nova e derrubou as forcas que ainda ali estavam erguidas. Depois correu à Cadeia da Relação, arrombou a porta e abateu a tiro o sanguinário João Branco, carrasco dos liberais. Tudo isto acontecia enquanto os miguelistas fugiam espavoridos da cidade com medo de represálias. Só que os liberais foram muito mais condescendentes do que os miguelistas se haviam mostrado antes (...) Em 18 de Junho de 1878, as ossadas dos doze liberais foram solenemente transladadas para um mausoléu, especialmente construído para o efeito, e que está colocado no cemitério privativo que a Santa Casa da Misericórdia tem no Prado do Repouso.

  Em 1914, a Câmara Municipal do Porto mandou colocar no sopé da estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, placas de bronze com os nomes dos doze mártires, para honrar a sua memória no mesmo local onde padeceram a pena máxima por amor da sua causa.

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

«Se, na nossa cidade, há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão»

Almeida Garrett

 

 

imaginação em movimento

 

 in http://kidcrave.com/scoop/home-library-slide/

 

 

O momento que mais conta para mim é o que antecede a leitura. Às vezes é o título que basta para acicatar em mim o desejo de um livro que se calhar não existe. Às vezes é o incipit do livro, as primeiras frases... Resumindo: se para vocês basta pouco para pôr a imaginação em movimento, a mim basta-me ainda menos: a promessa da leitura.

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

rugas (I)

 Arrugas

Rugas

 

 

  • ¿ Quieren tomar algo? – preguntó acto seguido Madeleine.
  • Con mucho gusto.
  • ¿ Qué quieren?
  • Lo que haya – contestó Delphine, que ya se había dado cuenta de que más valía no llevarle la contraria. La mujer se fue a la cocina y dejó a los invitados en el salón. La pareja se miró en un silencio apurado. No tardó en volver Madeleine con dos tazas de té al caramelo.

Frédéric se tomó el té por cortesía, aunque lo que más asco le daba en el mundo era el aroma a caramelo.

(…)

  • Muchas gracias por haber sacado tiempo para atendernos.
  • Nada de gracias. ¿ Les ha gustado el té al caramelo?
  • Sí, gracias – contestaron Delphine y Frédéric a dúo.
  • Me alegro, porque me lo regalaron y no me gusta nada. Así que intento darle salida cuando tengo invitados.

Al ver la casa de asombro de los parisinos, Madeleine añadió que lo decía en broma. Según iba envejeciendo, se percataba de que nadie pensaba ya que fuera capaz de tener sentido del humor. Claro, los viejos no pueden por menos de convertirse en unas personas lúgubres que no entienden nada ni son capaces del menor ingenio.  

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

objetos, acessórios, pretextos

A conclusão a que cheguei é de que a leitura é uma operação sem objecto; ou que o seu verdadeiro objecto é ela própria. O livro é um suporte acessório ou inclusivamente um pretexto.

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

cecilia_a.jpg 

cecilia_b.jpgUm livro nunca deve ser deitado fora – há sempre que o possa ler pela primeira vez – mas, mesmo que esteja em mau estado e ilegível, há quem o consiga transformar noutro objecto. É o caso de Cecilia Levy, uma artesã sueca que pega nos livros e cadernos de banda desenhada em mau estado e

transforma-os em chávenas, copos, pires, pratos e tigelas.

Cecilia, que curiosamente já foi encadernadora, tem agora uma abordagem inversa à literatura. Ela arranca as páginas e une-as noutra forma. Para os amantes de livros este projecto pode ser um sacrilégio, mas mesmo esses não deixarão de admitir que o resultado final deste processo é interessante – mesmo que não seja especialmente prático.

 

in http://greensavers.sapo.pt/2017/05/07/como-transformar-livros-antigos-em-chavenas-copos-pires-pratos-e-tigelas/

 

 

  

1º Marquês de Dalí de Púbol

 

Let my enemies devour each other.


 

Salvador Dalí i Domènech, 1º Marquês de Dalí de Púbol

(11 de maio, 1904 — 23 de janeiro, 1989)

 

 

Salvador Dalí,

El Asno Putrefacto (1928)

Óleo, arena y grava sobre tabla,
61 x 50 cm
París, Collection André-Frangois Petit, ant. Collection Paul Éluard

Deus, sexo e as sociedades disfarçadas

O jornalista diz que é assim mesmo, que nas sociedades disfarçadas todo o entendimento é um crime, se possível um crime sexual. Ele diz que não tenho de me admirar, ele acha que eu devo saber que o sexo é como Deus - o sítio secreto da expressão secreta a que se atribui tudo o que não tem explicação.    

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

fátima

(...)

Então, quando essas palavras são publicadas, o segredo é libertado no mundo: mistura-se com o olhar dos outros. Por consequência, muda a forma como os outros veem e, também, a forma como os outros nos veem.

Foi justamente nos olhares dos outros que encontrei as primeiras questões. Ainda sem terem lido uma página, quando se mencionava o tema "Fátima", todas as perguntas eram formas explícitas ou subliminares de me colocarem uma única pergunta: acredita?

(...)

Em nenhuma ocasião respondi sim ou não. Por um lado, não creio que a resposta a essa pergunta seja apenas sim ou apenas não, a não ser que se simplifiquem as questões até ao seu elemento mais básico, tão básico que já não é sequer representativo do que se está a falar. Por outro lado, porque a minha intenção primeira, uma das que me levou à escrita do livro, foi justamente encontrar uma maneira de falar de Fátima que não passasse por esse separar de águas, esse muro divisor: acredita/não acredita.

Nem todas as pessoas que afirmam acreditar em algo comum o fazem da mesma forma. Acreditar não é preto e branco. Também me parece que nem todas as pessoas são cépticas da mesma forma. Há inúmeras gradações e particularidades no que toca à crença e/ou à fé. Não existe um interruptor para a fé ou o cepticismo.

(...)

Fátima é um tema multidimensional. Ao longo destes cem anos, assumiu uma enorme importância política e social. Em grande medida, pode dizer-se que houve uma certa sensibilidade acerca deste tema que foi paralela às próprias alterações políticas e sociais do país. Por tudo o que dizem sobre nós, essas são questões de grande interesse, que merecem ser levantadas, observadas e reflectidas.

 

Já no que toca à sua dimensão religiosa, Fátima é um assunto que está na esfera da sensibilidade íntima de cada um. A liberdade religiosa é uma conquista civilizacional. Não devemos estar dispostos a abdicar dela em nenhuma circunstância.

Nesse sentido, é fundamental que crentes e cépticos se saibam respeitar entre si, só assim poderá existir um diálogo edificante. Não vejo razões para duvidar que uns possam aprender algo com os outros. Se não estivermos de ouvidos fechados, de olhos fechados, podemos sempre aprender algo com os outros, podemos sempre descobrir algo novo. E os outros, claro, não são uma abstração. Os outros são aqueles que têm opiniões realmente diferentes das nossas.

 

in http://www.joseluispeixoto.net/respeito-124560