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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

ler

- É Ludmilla que assim fala, com convicção e calor. Está sentada diante do professor, vestida de maneira simples e elegante, de cores claras. O seu modo de estar no mundo, cheia de interesse pelo que o mundo pode dar-lhe, afasta o abismo egocêntrico do romance suicida que acaba por se afundar dentro de si mesmo. (...)

O professor está à sua secretária; no cone da luz de um candeeiro de mesa sobressaem as suas mãos suspensas ou levemente pousadas no volume fechado, como numa carícia triste. 

- Ler - diz ele - é sempre isto: há uma coisa que ali está, uma coisa feita de escrita, um objecto sólido, material, que não se pode alterar, e através dessa coisa comparamo-nos com outra coisa qualquer que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é só pensável, imaginável, ou porque existiu e já não existe, passando, perdida, inalcançável, para o país dos mortos...

- ... Ou que não está presente porque ainda não existe, algo de desejado, de temido, possível ou impossível - diz Ludmilla -, ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser e que ainda ninguém sabe o que será...  

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

Thoughts

John Henry Henshall

1883

 

voar

Voar é o contrário de viajar: atravessas uma descontinuidade do espaço, desapareces no vácuo, aceitas não estar em parte nenhuma durante uns momentos que são também uma espécie de vácuo no tempo; depois reapareces, num lugar e num instante sem relação com o onde e com o quando em que tinhas desaparecido. 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

julietas

... um primeiro travesti imóvel na esquina, de barriga ao léu, sempre com o mesmo soutien coitado, se o meu pai comigo aposto que a espreitar à janela voltando para o sofá a pensar, a minha mãe 

- Gostas daquilo anormal?

como a noite é esquisita, tudo idêntico e diferente, as sombras tornam-se coisas verdadeiras e as coisas verdadeiras sombras, o meu pai para a minha mãe 

- Faz-me impressão o que é que queres? 

(...) 

o travesti da esquina conseguiu que um automóvel o chamasse e ele a fazer gestos com o cigarro aceso inclinado para o vidro em negociações complicadas até que o automóvel desistiu e ficámos sozinhas, o travesti no passeio à espera e eu na janela sem mais ninguém connosco, sem mais ninguém no bairro, quase a olharmo-nos, quase cúmplices, quase amigas, nem precisávamos de nos encarar para compreender que quase amigas de forma que quando o director do teatro me chamar 

(...) 

a convido para a estreia não numa cadeira lá atrás claro, na primeira fila onde a veja sorrir. 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

 Julieta Su&Sida
São bilhete só de ida
Sobrevivem e vocês

 

Julieta Su&sida
Gnr

 

 

pressentimento

(...) um pressentimento (...) é a forma mais subtil de enganar o caos 

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Vem que o sol raiou
Os jardins estão florindo
Tudo faz pressentimento
Que este é o tempo ansiado
De se ter felicidade

 

Pressentimento (Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

 

 

 

emboscadas, planos, contraplanos e contra-contraplanos

O plano da emboscada contra mim previa que entre as motos Honda do meu serviço de escolta e o automóvel blindado em que eu viajava se infiltrassem três motos Yamaha guiadas por falsos polícias que de repente travariam antes da curva. Segundo o meu contraplano, seriam afinal três motos Suzuki a imobilizar o meu Mercedes quinhentos metros antes para um falso rapto. Quando me vi bloqueado por três motos Kawasaki num cruzamento antes dos outros dois, percebi que o meu contraplano fora destruído por um contra-contraplano cujos mandantes eu desconhecia. 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer, quero viver

 

Preciso Me Encontrar
Zeca Pagodinho

despiorar

O divórcio não é decidido perante uma situação má, mas sim perante uma situação que não melhorará.

 

in http://www.ruadireita.com/outros/info/divorcio-sim-ou-nao/#ixzz4cA03o99S

 

 

(...)

Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei

Eu já não sei
Sorrir como então sorria
Quando em lindos sonhos via
A tua adorada imagem
Eu já não sei
Se deva ou não deva querer-te
Pois quero às vezes esquecer-te
Quero, mas não tenho coragem

 

Eu Já Não Sei
António Zambujo

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