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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

dissolução

E todas as quartas-feiras a donzela perfumada me dá uma nota de cem coroas para que a deixe a sós com o recluso. E à quinta as cem coroas já marcharam em cerveja que nunca mais acaba. E quando chega ao fim a hora da visita a donzela sai com o fedor da cadeia nos seus vestidos elegantes; e o recluso torna para a cela com o perfume da donzela na sua roupa de condenado. E eu fico com o cheiro da cerveja. A vida não passa de uma troca de cheiros. 

- A vida e a morte, podes dizê-lo - respondeu outro bêbedo, cuja profissão, como fiquei logo a saber, era coveiro. - Eu com o cheiro da cerveja tento tirar o cheiro a morto. E só o cheiro a morto te tira de cima o cheiro a cerveja, como a todos os bebedores a que tenho de abrir a cova. 

Interpretei este diálogo como um aviso para me pôr em guarda: o mundo está a desfazer-se e tenta atrair-me para a sua dissolução. 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fateixas

(...) o objecto que desenharia de melhor vontade, disse, era uma daquelas pequenas âncoras de quatro braços chamadas «fateixas», que usam os barcos de pesca. Apontou-me algumas ao passarmos junto dos barcos atracados ao cais, e  explicou-me as dificuldades que apresentavam os quatro ganchos para se desenharem nas várias inclinações e perspectivas. Compreendi que o objecto continha uma mensagem para mim, e que eu tinha de decifrá-la: a âncora, uma exortação para me fixar, para me agarrar, para fundear, pondo fim ao meu estado flutuante, ao meu boiar à superfície. Mas esta interpretação podia dar azo a dúvidas: podia ser até um convite a zarpar, a fazer-me ao largo. Algo na forma da fateixa, os quatro dentes achatados, os quatro braços de ferro gastos pelo roçar nas rochas do fundo, advertiam-me que qualquer decisão não seria isenta de abalos e sofrimentos. 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

Aurélia de Souza

Barcos de Pesca (não datado)

Óleo sobre tela - 33,2 x 24 cm

 

 

david

David-Mourão Ferreira.jpg

 

E por vezes

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
... nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

 

David Mourão-Ferreira

( 24 de fevereiro, 1927 — 16 de junho, 1996)

 

 

livros (I)

 

 (...) pegaste num exemplar e levaste-o à caixa para se regularizar o teu direito de propriedade sobre ele. 

Deste ainda uma espreitadela desnorteada aos livros em redor (ou melhor: foram os livros que te olharam com o ar desnorteado dos cães e gatos que das grades do canil municipal vêem um ex-companheiro afastar-se pela trela do dono que veio recuperá-lo), e saíste. 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

PietroAntonioRotari_thumb1.jpg

 Pietro Antonio Rotari

jeune fille au livre

 

galinhas do mato

Se te disserem que um gorila salvou a tua irmã
E que não é bonito pensares a todo o momento
Na caixa de correio vazia
Pensa bem, mano, na fórmula que adoptaste
Para uma sociedade sem classes
Onde não adianta patinar na relva como os ursos.
Só eles possuem o dom do peso
Aliado à levitação,
Mas a um qualquer é permitido rir
E falar alto como se acordasse em forma.
Fora do orabolas em que foste criado
Há muita coisa à espera de ser vista
Pela primeira vez
Se guardião-centauro de crespas unhas
Pronto ao disparo da saliva
Em vez de balas.
Não te rias de quem sofre à beira de água
Porque deles é também o reino da luta.
Na feira onde o loureiro medra ao quïlómetro dezassete
E se afoga a virtude em cântaros de água
Não há lugar para a débil panaceia de risos.
As árvores crescem e tu com todas
Fora do pedúnculo
Junto à terra

 

 

Zeca Afonso in Textos e Canções

 

 

 

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos

(2 de Agosto, 1929 — 23 de Fevereiro, 1987)

 

 

 

 

 eterno Zeca sempre

 

dia internacional da língua materna

Desde 1999 que a UNESCO assinala o 21 de fevereiro como o “Dia Internacional da Língua Materna”, tendo o mesmo sido reconhecido formalmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que considerou 2008 como o Ano Internacional da Língua, com o intuito de promover o multilinguismo e a diversidade linguística e cultural

 

in http://portuguese.dlc.pt/

 

 

 

Vim do país da ternura
Orvalhado p'la maré
Trago mirras trago incenso
Trago no peito em suspenso
O futuro que ainda não há
O futuro que ainda não é

Trago sonhos da distância
Doutro sentir e outra gente
Sentada p'ra lá do mar
Gente de paz e saber
Tão igual e tão diferente
Tão urgente de inventar

Nesse sonho me anuncio
Desse sonho me sustento
Mantenho todo o que disse
Mesmo se hoje já sinto
Menos forças menos alento

Como dardos como setas
Privilégio dos poetas
Lanço palavras ao vento

 

Pedro Barroso - Palavras ao Vento

 

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