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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

(...)

Diz o meu nome 

pronuncia-o 

como se as sílabas te queimassem 

                                                        [ os lábios 

sopra-o com suavidade 

de uma confidência 

para que o escuro apeteça 

para que se desatem os teus cabelos 

para que aconteça 

 

Porque eu cresço para ti 

sou eu dentro de ti 

que bebe a última gota 

e te conduzo a um lugar 

sem tempo nem contorno 

 

Porque apenas para os teus olhos 

sou gesto e cor 

e dentro de ti 

me recolho ferido 

exausto dos combates 

em que a mim próprio me venci 

 

Porque a minha mão infatigável 

procura o interior e o avesso 

da aparência 

porque o tempo em que vivo 

morre de ser ontem 

e é urgente inventar 

outra maneira de navegar 

outro rumo outro pulsar

para dar esperança aos portos 

que aguardam pensativos 

 

No húmido centro da noite 

diz o meu nome 

como se eu te fosse estranho 

como se fosse intruso 

para que eu mesmo me desconheça 

e me sobressalte 

quando suavemente 

pronunciares o meu nome 

 

Mia Couto in Confidência (agosto 1979)

 

"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Editorial Caminho - novembro de 1999

 

 

 

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